11.11.09

Sente

Eu disse a ele que não acredito em destino, mas ele ficou me olhando como se não acreditasse. Em mim, não em destino. Não posso negar que pensei em destino algumas vezes antes de encontrá-lo, mas não há destino algum em pensar, talvez até acreditar e não sentir. Sou uma dependente química, meu destino, se existe, é determinado pela minha compulsão, meu vício. É preciso viver, independente do que me aguarda ao virar a esquina, é preciso sentir o vento no rosto ao fazer a volta. A proibição aumenta e a impossibilidade alimenta o vício. Mas a imprevisibilidade e o desconhecimento me excitam de tal maneira que desligo meus pensamentos. Suspiro, fecho os olhos longamente, relembro cenas imaginadas. Repasso mentalmente o roteiro na esperança de visualizar as portas que poderão se abrir. Decido ali, em alguns segundos, se vou me atirar no desconhecido, espero um gesto que mostre se é sim ou não, mas ele continua me olhando nos olhos e me arrepio... Então acho que foi um sim. É preciso sentir pra decidir, não consigo pensar em nada. Pode ser ele o mensageiro do tal destino, do meu destino, mas quem decide isso sou eu. E se eu decidir que a mensagem enfim foi transmitida, se eu reconhecer um gesto, um arrepio, um frio na espinha ou um gozo como destino, serei eu mesma responsável pelo meu destino? Serei responsável pelo meu sentimento? Pelo que acontecer depois, sim, certamente sou responsável, mas tenho certeza que tudo se definiu ali, naquele arrepio... Meu corpo, meu tesão, coisas sobre as quais não tenho o menor controle, mas ainda assim sou responsável. Pela mensagem, aquela que desconheço, mas aceitei, mesmo sem saber, pelo simples fato de ter sentido. Não sentir de provocar, conhecer, experimentar e reproduzir a sensação. Mas sentimento que se configura no exato momento em que outra pessoa desperta o meu sentir. E no momento em que ele olhou pra mim, eu simplesmente me arrepiei. Será que sou responsável pelas minhas sensações?

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Ente

Ela me disse que não acredita em destino. Me disse assim na cara, com aqueles olhos grandes olhando bem direto nos meus. Mas não consigo acreditar que ela não tenha pensado em destino umas milhares de vezes antes de me encontrar. Porque ela é mulher que precisa da obrigação do destino, precisa que as coisas subitamente aconteçam na sua frente e lhe mostrem que aquele é o caminho certo ou o errado. Aqueles olhos grandes enxergam tudo, mas não fazem nada sem antes terem certeza do que querem. Ela piscou, um movimento super rápido, mas lento me pareceu. Uma eternidade. Ali fui analisado, visto e revisto. Ali ela tentou perceber um sinal, um aviso de que o destino existia e se existia, eu era a materialização desse destino. Terrível fardo para mim, ser portador de uma mensagem da qual o teor, desconheço. Tentei perceber naquele sutil movimento se era um sim ou um não. Mas ela continuou dizendo que não acredita em destino. Então acho que foi um sim. A piscada foi muito rápida, não me deixou perceber, nem sutilmente, a razão do seu acontecimento. Mas eu vi no piscar de olhos a minha parcela de culpa no destino. Destino dela, somente. Mas posso eu ser o mensageiro do destino dela sem que ela seja mensageira do meu destino? Posso eu me livrar da responsabilidade de somente existir? E existindo, posso eu me livrar da responsabilidade de estar ali assistindo aquele piscar de olhos tão significativo? Pelo que acontecer depois, sim, certamente sou responsável, mas tenho certeza que tudo se definiu ali, naquele piscar de olhos. Olhos dela. Piscada dela. Coisas sobre as quais não tenho menor controle, mas ainda assim sou responsável. Pela mensagem, aquela que desconheço, mas que transmiti, mesmo sem saber, pelo simples fato de existir. Não existência de ter sido gerado, ter nascido, crescido, estudado, absorvido, aprendido e me tornado o que sou hoje... Mas pela existência que se configura no momento em que outra pessoa descobre que eu existo, que sou o que sou. E no momento que ela percebeu o que eu era, eu simplesmente existi. Será que sou responsável pela minha existência?

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9.11.09

Patricia

Patricia apareceu

num fim de tarde
Me falou
Me bebeu
Me comeu
Me fumou
Me amou
E partiu
Patricia foi pra puta que pariu
E nunca mais telefonou

by Edu Pinheiro

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8.11.09

Previsível

O alarme vermelho começou a soar dentro de mim: há pouco tempo uma pessoa que mal me conhece conseguiu me definir em apenas uma frase. É um aviso poderoso...

Uma frase, não importa quantos períodos tenha, é apenas o breve espaço entre dois pontos finais.

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Raros e Loucos

Conheci o Lobo antes de conhecer a estepe... Estávamos espremidos em uma pequena janela, meio corpo pra fora, sorvendo com rapidez a fumaça do cigarro proibido naquele quarto de um hotel não-fumante. Tínhamos nos conhecido há menos de seis horas e estávamos desde então trancados naquelas paredes de um hotel barato em frente ao Terminal do Tietê. Não posso afirmar que foi a vez em que mais rapidamente fui pra cama com um homem, porque não sei exatamente quantos minutos levamos para percorrer os caminhos confusos que levam à saída da rodoviária de São Paulo. Só sei que foi pequeno o espaço de tempo entre a última mensagem, ainda no ônibus, que dizia "6 minutos para o impacto" e o impacto em si. Lembro que achei interessante a escolha da palavra, que pode significar, literalmente, "metido à força". Mas a força que me movia não era necessariamente contrária aos meus instintos, era mais um impulso, uma força centrípeta, que me levava para o centro, enquanto ele girava ao meu redor. E era ótima a sensação.


Olhando para o copo de plástico com dois dedos de água amarelada pelas guimbas de cigarro que iam se acumulando, pensei no roteiro deprimente que se desenhava ao meu redor. Um quarto tosco, um banheiro pequeno, uma cama no centro, uma mesa na parede e uma tv desnecessária compunham o cenário do meu romance noir travestido de um tragicômico romance barato que se compra em bancas de jornal. Meu enigmático parceiro trazia no braço um aparelho de medir pressão daqueles que se carrega por 24 horas e que a cada 20 minutos o fazia parar tudo até que o braço estivesse novamente liberado. Com o passar das horas acabamos nos tornando especialistas em controlar o tempo na medida exata do aparelho. No final da noite a conta estava empatada entre o número de medições e o de gozos, sendo que os últimos certamente atrapalharam a fidedignidade do resultado das primeiras.

E de 20 em 20 minutos, o tempo, aquele que determina a sutil diferença entre sonho e realidade, avançou os ponteiros até o ângulo obtuso do constrangimento. Assim como tinha me deixado carregar para o centro, lentamente flutuei de volta para a margem... "Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro, o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada, para chegar talvez algum dia ao fim, ao descanso." Não posso afirmar que foi a vez em que mais rapidamente me apaixonei por um homem, porque não sei exatamente quantos minutos levei para percorrer os caminhos confusos que me levaram à entrada da rodoviária de São Paulo. Só sei que foi pequeno o espaço entre a frase ouvida no quarto e a descoberta do livro. A dedicatória dizia "Para a minha querida ... que de todas as impossibilidades da minha vida é a maior possibilidade de ser a minha vida".

"Que dizia o letreiro? 'Entrada só para os raros' e 'Só para loucos'. Ali, provavelmente, estaria o que eu desejava, ali, talvez, interpretassem a minha música."

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7.11.09

A primeira vez...

... a gente nunca esquece ;)


(a primeira de verdade não foi esta, mas eu tinha três anos e a única recordação que tenho é a de ter tomado sorvete o dia inteiro)

Tem uma parte ali que nem eu entendo o que eu falo, é algo sobre não sentir as pernas, mas dito num português bem embolado de quem acabou de tomar anestesia...


video

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5.11.09

Exigências

Moreno, alto, bonito e sensual, talvez seja a solução dos meus problemas.


_ Sabe entender as entrelinhas?
_ O quê?
_ Tem que saber entender as entrelinhas. É porque eu falo somente o suficiente para afastar a pessoa. Quando pareço estar falando sério, estou na verdade querendo te afastar. Já quando brinco, no papo solto, eu falo o mais profundo do meu eu, assim entrecortado, fragmentado, como um quebra-cabeças.
_ Confuso, não?
_ Não, é que você me parece perfeito demais, então o quero longe, bem longe.
_ Mas por que o sexo?
_ É porque tinha que ser ruim.
_ E por que tanto medo?
_ Não sei, mas tenho. Quanto mais perfeito, mais medo. Quanto mais medo, mais vontade. Quanto mais vontade, mais insegurança. Quanto mais insegurança, mais afastamento desejo. É assim a vida pra mim, um círculo vicioso.
_ E precisa ser assim?
_ Não, mas ando esperando alguém que, milagrosamente, goste de desvendar quebra-cabeças e queira montar o meu, peça por peça, conversa por conversa, assim devagar, como quem não quer nada. E no final, pronto, surgiu eu, e apaixonamo-nos.
_ Não é querer demais?
_ Ainda não estou preparada para querer menos do que isso...

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4.11.09

Preciso

Queria poder te escrever

algo nunca antes dito
por qualquer poeta.
Mas preciso, antes disso,
ser poeta.
Preciso contar as estrelas,
admirar a lua,
sentir a brisa pequena
se transformar em vento.
Preciso soltar os cabelos
e as cordas que me prendem,
preciso me libertar.
Preciso aquecer o sol,
e esfriar a noite.
Preciso adormecer seu corpo
e acordar o meu.
Preciso amar homens
e mulheres,
meninos e meninas.
Preciso viver o dia
e morrer amanhã.
Preciso provar que gosto
de coisas de verdade.
Preciso arrumar essa sopa
de letrinhas
em prosa, verso e rima.
Preciso ser bailarina
e dançar nas nuvens,
preciso comer algodão-doce.
Preciso te escrever,
te dizer,
te sentir.
Preciso ser alguém
melhor do que você.

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3.11.09

Tecnoromance

Naquele momento, não teve dúvidas: Ela era a mulher da sua vida. De filmadora em punho, pensou "Preciso registrar esse momento para que meus filhos e netos saibam a hora exata em que nós nos apaixonamos". Já tinha até o mash-up na cabeça com Você é Linda, do Caetano e Eu sei que vou te amar, do Vinicius. O MixPlay que tinha baixado na semana passada ia ser o programa perfeito pra isso.


Ela então sorriu e as covinhas se tornaram duas pérolas naquele rosto perfeito. Ele decidiu começar o vídeo com essa imagem, depois é claro, de um Fade In com fundo branco, pra não ficar pesado. Diminuiu o zoom, fez um giro, mostrou o cenário e voltou a câmera para ela. Tão linda! As mãos tão esguias, o rosto sereno, uma calma no olhar. Ela mexeu nos cabelos, começou a cantarolar uma música qualquer e a dançar no ar, sozinha... Ele pensando "Não se mexe tanto, vai ficar tremido..." Ela fez um gesto chamando-o para dançarem juntos, mas ele disse: _Não, baby, estou gravando, não está vendo?

Ela então veio dançando na sua direção. Ele pensou "Porra, estragou meu enquadramento, vou ter que reajustar o foco". Ela continuou andando em direção a ele e murmurou alguma coisa no seu ouvido. Aí ele explodiu: _ Merda, agora vou ter que legendar.

E foi embora... Pra sempre.

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2.11.09

Casos e acasos

Estou rodeada de pessoas que não acreditam no acaso, somente em destino. Não acreditam que as sucessões de eventos, por vezes inacreditáveis, aconteçam por mera casualidade. É tudo fruto de uma coisa maior e por muitas vezes, mais sádica também... Esse destino, se existe, tem um quê de ironia relativamente grande.


Mas o destino pode ser também uma grande desculpa para aceitar as coisas que nos acontecem sem parar para refletir sobre elas, ou analisá-las de uma maneira racional, superando ou absorvendo os eventos que por vezes nos perturbam. É como um espírita que deixa de resolver seus problemas nesta vida porque ainda terá outras tantas para viver...

Acreditar em destino é como ter fé em qualquer outra coisa. As coisas se ajeitarão, porque de uma maneira ou de outra, elas estavam previstas para acontecerem, e, de uma maneira ou de outra, tudo vai se resolver da melhor forma possível, porque pode não ser a melhor, mas era a prevista para mim, então vou aceitá-la e ter fé que, um dia, tudo pode mudar.

O destino é aquele que pode fazer, em um único dia, toda sua vida mudar. Eu passei dez anos pensando em algo que, em um único encontro totalmente casual em um ônibus, se tornou uma verdadeira idiotice. Mais fácil acreditar que aquele encontro e aquela informação descoberta ali foram obras do destino. Cruel, impiedoso e inevitável destino; mas se eu quisesse mesmo descobrir antes o que descobri agora, eu poderia tê-lo feito. E talvez tivesse me poupado 5, 6 ou até 9 anos de pensamentos inúteis.

Quantas coisas eu poderia ter me poupado, se eu quisesse ter me poupado, ou se quisesse apenas ter me dado um trabalho maior do que me dei, tentando resolver o assunto? Não sei a resposta para isso. Talvez o destino me diga um dia, se eu continuar ignorando que acasos existem sim, e entender que a vida, apesar de ser mais do que uma mera combinação de coincidências, também tem espaço para coisas inusitadas, inesperadas e por isso mesmo, muito interessantes...

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