2.3.06

PLIM PLIM

Navego sem rumo,
alguém está me orientando.
Mas sentada, alheia a tudo,
em nada me concentro,
fico viajando.

Em pensamentos confusos,
me vejo como se não fosse eu.
Narro a minha vida como uma história.
Um drama, uma comédia,
estou me interpretando.

A voz não sai,
mas o texto está decorado,
os passos marcados.
Sei para onde vou,
mas não sei quem sou.

Minha vida é uma novela,
menos no final feliz.
Está tudo sendo gravado,
do nascimento ao casamento,
da chupeta ao primeiro namorado.

E recebo cartas me parabenizando,
sou famosa como atriz.
Mas depois de um tempo,
enjôo de tal tormento,
estou sendo vigiada.

E o ator se mistura ao personagem.
Uma bomba-relógio, prestes a explodir.
Só faço drama, não sei sorrir.
E chega o clímax, o terceiro ato.
E o final é de teatro.

Desesperada, perco a razão,
me mato por diversão.
O sangue é minha única platéia.
Ninguém bate palmas.
Não recebo elogios nem críticas,
esse capítulo não passou na televisão.

O enterro foi real,
ninguém ao lado do caixão.
E descubro muito tarde
que a vida não é arte
e um final trágico
não dá IBOPE.

Pode até passar no Fantástico,
apresentado pelo Pedro Bial.
Mas é só isso.
Conquisto meus quinze minutos de fama
e volto para a vida normal.

Levanto da cadeira,
esqueço meus sonhos e ideais.
E quem sabe um dia,
a fantasia vira realidade,
viro atriz de verdade,
e largo essa minha mania
de sonhar acordada
nos intervalos comerciais.

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