26.1.07

Um dia você acorda e percebe que em vez de chorar você começa a fazer acordos.
O choro já é quase um contrato que te garante algumas possibilidades de satisfação.
Mas logo depois você começa a pedir, e com os pedidos vêm as negativas.
Depois de muitos nãos, começam os porquês, e ai já se está a um passo do talvez.
Aí começam as premissas, os princípios e as hipóteses, e com as hipóteses vêm os sonhos.
Com os sonhos começam as frustrações, os erros, e a análise, que em muitos casos, dura toda uma vida.
Depois de analisados os fatos, percebe-se que não se pode ganhar sem alguém perder.
E com as perdas vêm os acordos.
Um dia você acorda e percebe que acordar já é um acordo.

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9.1.07

Carta de Fernanda Young

Ao clitóris

Querido companheiro,
A distância entre nós impede que nos vejamos frente a frente, então resolvi lhe escrever uma carta. Não tenho certeza do CEP da sua localidade, mas espero que estas linhas cheguem até você. Primeiramente, gostaria de lhe agradecer pelos grandes momentos que passamos juntos, todos de tirar o fôlego. Espero poder repeti-los assim que tivermos a oportunidade. Nos encontraremos lá, no nosso lugar. Eu, sempre sem tempo: você, sempre um pouco atrasado. Gosto da nossa relação. Sem grilos nem cobranças. Sem falsas ilusões. Respeito mútuo é o que eu diria que temos em nosso longo convívio, e isso não é pouco.
Talvez devêssemos manter um maior contato, não sei, mas, mesmo assim, não sinto qualquer culpa com relação a isso. Você, aliás, é o mais calado. E não estou reclamando, ao contrário. Falo demais às vezes, e você, nesse seu discreto silêncio, diz tudo o que eu queria dizer: Ou seja, acho que nós temos personalidades opostas complementares, estando aí o segredo do nosso relacionamento estável.
Talvez devêssemos, sei lá, ter viajado mais. Ou, quem sabe, ousado mais. Cansa-me, porém, o excesso de conjecturas, sabe? Muitos "talvez..." Tivemos bons tempos e maus bocados, mas sobrevivemos. E é isso o que interessa. Restando-me apenas o segundo motivo desa carta, que é lhe dar boas notícias. Nós vencemos. É, vencemos. O machismo opressor perdeu sua longa hegemonia sobre a sociedade. Em alguns lugares do mundo, sim, muitas mulheres seguem em suas batalhas contra a brutalidade masculina, mas são focos de ignorância que deverão ser apagados. O fato é que, sem dúvida, hoje, podemos dizer que vencemos. Uma luta ancestral, cuja vitória merece ser comemorada. Sendo esta a razão principal desta carta: dividir com você essa conquista.
O sangue derramado não foi em vão. Desfrutamos, enfim, da liberdade de fazermos o que quisermos. Claro, burrices é o que fazemos por vezes, porque é o que queremos fazer; porém até a burrice é bem-vinda. Já que é mesmo a partir do erro que acertamos. Somos assim e parece que os homens finalmente entenderam isso. Ou fingem que entenderam. Mas nós dois, mais do que ninguém, sabemos que fingir funciona quase da mesma forma, para efeitos práticos. Além do mais, os machos e as suas glandes também não têm demonstrado grandes inteligências, através dos tempos, têm?
Pois bem. é isso. Acho que temos o que comemorar: Nossa revolução foi completada, mas novas lutas é o que não faltam. Diversas mulheres estão se saindo bem em suas trincheiras, outras seguem vítimas de injustiças. Estamos aqui para isso, porém, não é? Digo lutar: E, ainda movida pelo mesmo calor revolucionário, permito-me soar repetitiva: unidos venceremos.

Saudações,
Fernanda

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4.1.07

Papos sem começo,
arremedos de palavras,
frases mal estruturadas,
estruturas, vocábulos,
prostíbulos.
Tudo faz parte do todo
e o todo do UM.

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Passageiros tresloucados
rumo ao sem fim do mundo
nos confins do universo,
cada um com seu baseado na mão
as fotos dos filhos na carteira,
a mulher no fogão fazendo a janta
e a vida normal no cacete.
Cacete não,
no olho do cu.
Fica mais indefinido,
assim como buscar o infinito.
Dentes trincados, bocas rachadas,
corpos violados,
e a vida normal lá...
no lugar dela.
O único lugar pra onde
as coisas perdidas devem ir.

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