24.12.07

Feliz Natal



A última lembrança realmente natalina que tenho, de dormir na noite do natal e acordar com presentes, é de quando eu tinha uns cinco anos, no máximo. Na verdade, embora este Natal a que eu me refiro tenha existido, não sei precisar se eu lembro mesmo ou se é tudo imaginação ou sonho...

Me lembro do cheiro de comida na casa, dos presentes em cima da cristaleira (acho que o nome é etajer) de vovó, a árvore ao lado, e pernas. Muitas pernas no sofá.

Por só me lembrar de pernas é que calculo que eu era ainda muito nova pra me lembrar tão bem, mas é só fechar os olhos que eu vejo as luzes piscando, a risada da minha avó conversando animadamente com a irmã dela, tia Maria. E meu tio Dario com aquela cara de mau que me dava medo, ao lado delas.

É uma lembrança boa, muito boa, mas a única que tenho. Depois disso os Natais eram só presentes, e férias, ou seja, esperava-se o Natal como se esperava um piquenique na Mata, que era o ponto alto das férias na fazenda.

Depois minha memória dá um salto até o meu Natal, aos 12 anos. Minha avó tinha morrido em Abril, e a madrinha dela ainda morava com a gente. Dinda morreu no dia de Natal e então fomos pra fazenda, com o resto da família. Foi a primeira vez que me lembro de ter visto um Papai Noel entregando presentes, e as crianças alvoroçadas com aquela figura meio enigmática.

Aquela risadaria, aquela corrida pra pegar o seu presente, a emoção no rosto das crianças ao ouvir seu nome, a pressa em abrir o pacote, em rasgar a embalagem, em brincar com tudo que recebeu imediatamente...

Para uma criança com educação católica rigorosa, não sentir o "espírito de natal" era uma coisa meio complicada dentro da minha cabeça, mas com o tempo, e com a descoberta do que era realmente o Natal, era fácil aceitar que Natal para mim não tinha o mesmo significado que para os outros. Porque o Natal é feito de hábitos e costumes e eu não tinha boas lembranças daquelas que a gente carrega para toda a vida, mesmo que irracionais aos nossos próprios olhos, e acaba acreditando nelas, até mesmo sem querer.

Hoje em dia eu conto os dias para o Natal. Acabei virando a Mamãe Noel dos encontros da minha família, que são sempre antecipados, para que todos possam ir. A família tem crescido, temos novos bebês, novas crianças, e a cada ano que passa vai ficar mais prazeroso ver a alegria delas. Já faço isso há bastante tempo, e pensei em me "aposentar" no ano que vem, mas a minha sucessora virou-se pra mim e disse:

_ Natalia, não existe ninguém que tenha mais alegria em ser Mamãe Noel do que você.

E é verdade. E essa alegria nunca precisou de uma data para existir.

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