2.12.07

Jardim das Delícias


Ela acordou assustada com um cheiro de rosas. Mal presságio. Cheiro de rosas é o cheiro dos mortos. Mas por que diabos cheirariam bem os mortos, depois de toda a putrefação dos corpos? Idiota, pensou ela, é o cheiro da alma, não do corpo. Os corpos fedem, mas as almas não. Será? Tem muita alma podre por aí...

Parou para refletir qual cheiro teria a sua alma. Queijo suíço, imaginou. Dizem que fede, mas ela nunca tinha comido. Odiava queijos, mas se lembrou daquele biscoitinho isopor de queijo suíço que tinha que comer com o nariz tampado, e concluiu que isso era a coisa mais fedida que conhecia, mais do que chulé.

Além disso, queijo suíço era todo furado, pelo menos nos desenhos que tinha visto. Uma alma fedida e furada era tudo o que ela tinha. Analogia mais do que perfeita, e sorriu...

Cada homem que passava pelo seu corpo o tornava ainda mais firme. Mas deixava um buraco na sua alma, tal como um cigarro fazendo uma carinha triste nos plásticos dos maços.

Já tinha perdido a conta de quantos buracos tinha na alma, mas sabia que ainda poderia ter muitos mais. Alimentava o corpo definhando a alma. E no fim, a ironia da vida faria com que só o definhado sobrevivesse. A alma sobrepujaria-se à vida. O corpo não.

O dia de abrir mão do seu jardim das delícias ainda estava longe, mas tremia ante a possibilidade de trocar suas inúmeras flores por rosas apenas.

Odiava rosas e seus muitos significados. Aprendera ao longo dos anos que tudo que vinha carregado de significados não prestava, era inútil. Como se o amor pudesse ser simbolizado por uma mísera flor. Como se o ato de arrancá-la da sua terra e destiná-la à morte em algumas horas pudesse simbolizar um sentimento tão nobre quanto o amor.

Digno de gargalhar até revirar o estômago, e de revirar o estômago até sufocar de engulhos.
Nojo. Ela tinha nojo do amor, e da ausência de felicidade que sua busca representava. Das atrocidades que se faz com o corpo em nome do amor.

Qual seria o cheiro do amor? Certamente não seriam rosas. O amor fede mais do que qualquer alma podre.

Apagou o cigarro e voltou a dormir. Antes pensou que sua alma podia ter cheiro de tabaco. Muito mais agradável...

4 comentários:

Ricardo C. disse...

Melancólico que só, Nat. E muito, muito bonito, por isso mesmo!

Andre Blak disse...

A propósito, JARDIM DAS DELÍCIAS é minha pintura preferida. Já seu texto é mau humorado, mas não menos delicioso.

Felipe Silveira disse...

Adorei o texto :)

Richarla disse...

ooi, é vc quem escreveu esse texto? Puxa, adorei lê-lo. Tem um toque toodo especial às pessoas não romanticas, adorei. Beijo :*