1.12.07

A paixão segundo G. H.


Me lembro que eu devia ter uns nove anos. Eu devorava qualquer livro que aparecesse na minha frente. A estante da sala lá de casa era uma estante feita por mamãe, de tijolos vermelhos envernizados e prateleiras brancas.

As duas prateleiras de baixo da estante eram de livros meus, a próxima eram livros que mamãe achava que eu já podia ler. Acima destes vinham os proibidos. Não que tivessem me dito que eles eram proibidos, apenas não me eram recomendados, mas eles estavam tão fora de alcance que eu era sempre tentada a pegar um.

Não me lembro qual dia de semana era, mas eu estava à tôa em casa, já tinha lido e relido todos os meus livros. Eu era uma pessoa muito certinha, não gostava de cometer “delitos”, mas neste dia eu não sei o que me deu, peguei uma escadinha e me postei na frente dos livros proibidos tentando decifrá-los pelo título.

A emoção era muito grande. Me lembro não só de estar nervosa pelo desobedecimento de uma ordem de mamãe, mas como pela perspectiva de entrar num mundo novo e ler coisas sobre as quais eu não fazia a menor idéia.

Eu só podia pegar um livro, senão ia ser descoberta. Olhei sem demora cada um deles e escolhi um. É claro que não entendi quase nada do livro, e tive que lê-lo várias vezes depois. Mas foi Clarice Lispector, em seu fantástico “A Paixão Segundo G. H.”, que me ensinou que “o mundo não é humano. E que não somos humanos”.

Ela mudou a minha vida para sempre…


“…estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quem ficar como que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio ‘lo que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior A isso prefiro chamar desorganização pois não quero não me confirmar no que vivi — na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.”

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