31.1.08

Tédio

Sim, eu sei, esse blog tá ficando chato. Só lenga-lenga existencialista, Buda-Schopenhauer-Buda, Vida, morte, sentimentos. Até de Tim Maia eu falei, símbolo máximo da existência depressiva.

Então, para alegrar vocês, meus queridos três leitores cativos, vou falar um pouco de putaria.

Estava eu um dia desses nas minhas incursões no meu sub-mundo virtual (sub-mundo de um segundo mundo não é coisa que se preste), quando achei as ditas cujas aí de cima, a saber, Karla e Deyse (Uma chama a outra de marida). Qual é qual faço a mínima idéia, pois desse ângulo só pude perceber que a de baixo tem uma poupança bem mais rentável que a de cima. A Karla se descreve como tendo um bumbum (acho lindo a mulher falar bumbum, mas é muito mais gostoso falar BUNDA! BUN - DA!) grande, e a Deyse diz que tem um bundão (essa é das minhas), então acho que a segunda deve ser a dita cuja com a rentabilidade em alta.

Mas, bem, acabei achando o Blog da Karla e o da Deyse. O da Deyse tem umas fotos, digamos, mais liberadas, tudo na forma daqueles slides chatos e com aquela musiquinha mela-cueca que enche o saco até você fechar a janela, mas vale a conferida. A Deyse se apresenta assim:

Sobre o meu atendimento

"Deyse Loira

Top entre as mais requisitadas de São Paulo. Atendimento em São Paulo no hotel lido plaza,25 anos, 1,55m seios pequenos, cintura fina, bundão, gostosa tipo mignon.Experimente e vire cliente assíduo.55 11 8961-5880 "Atendo em dupla com minha amiga Karla Loirinha"
Atendo também em São Bernardo do Campo no motel rarus, e nos Hoteis Park Plaza, Suit Park e Pampas hotel.

Tipo Físico
Telefone: 11 8961-5880
Tipo: Loira
Idade: 25 anos
Olhos: castanho claro
Altura: 1,55 m
Peso: 54 kg
Pés: 34
Como Atendo
Quem: Homens, Swing
Onde: Festas, Eventos, Hotel / Motel.São Paulo e São Bernardo do Campo ABC.
Como: Das 10:00 até as 22:00

Perfil
Signo: gemeos
Comida: Massas
Idiomas: Português

O que Faço" (quer saber? Confira lá no blog dela)

Já a Karla conta como foram as noitadas delas, tudo num português meio sofrível, mas eu perdôo...

Festa no Ilha da Fantasia, seis anos de FDS

"Nossa essa festa foi mutio boa! Primeiro cheguei c*/ suruba logo vejo a deyse minha marida rs.. na mesa la estavam o diesel vadio rs.. o raul seixas ( aquele gato).. e o guerreiro árabi tendo trimiliques kkkkkkkkkkkkkk Pedi uma cerveja p/ mim e p/ marida e logo veio o churras . O eros c/ aquele cabelo tava uma delicia. Depois vi o massari fofinho c/ a mulher muito bonita por sinal. Tinha muita mulher bonita na casa . Dançamos muito eu a deyse e o JC.( FIZEMOS UM VERDADEIRO BAILE FUNK) . EU ESTAVA SEM CALCINHA AI VEM O doidoporelas e pedi p/ ver se meu cu é rosa mesmo ai ja viu né rs.. O mambojambo ja veio logo conferir.kkkk Foi muito bom e..."

Se você consegue ler o resto sem dar uma de Evanildo Bechara, vá até o blog da Karla.

Bem, espero que isto tenha animado vocês ;- )

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Maktub

os caminhos da vida nem sempre valem a pena

eu poderia pensar que somente

duas escolhas nos separam pra sempre.

duas escolhas ou dois caminhos

mas duas escolhas que se dividem

em muito mais do que dois caminhos

que se dividem ainda muito mais do que em

duas escolhas.

e então no final, somos separados

por dois elevado à quinquagésima potência.

é um fator matemático muito grande

pra não se levar em conta.

é que nem imaginar contrariar a grande regra

absoluta de que arianos não devem se

relacionar com leoninos.

e realmente não devem...

e ainda se formos pensar no lado

não prático da vida,

teremos enfim a gama infinita

de possibilidades da emoção

daquelas palavras que já foram ouvidas

e repetidas, e rejeitadas

veementemente pelos ouvidos...

essas palavras que não podem

vir por uma outra boca,

(ele não vai dizer isso...)

dessa vez tão linda

meu deus, é castigo...

ouvir a mesma coisa por anos a fio...

mas ele não diz nada

não, não é possível.

melhor tapar os ouvidos

e deixar os olhos abertos

esses sim, não rejeitam nada.

e como não ler as coisas belas,

serão sinceras? serão singelas?

o bom é que os ouvidos

já estão tapados...

porque a diferença entre o que se lê

e o que se ouve é sutil,

puta que o pariu,

porque afinal, maktub -

está tudo escrito.

ele é um filho da puta

normal , vai passar...

como diria drummond,

tudo passa!

só não passa ingrácia,

a sua graça...

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30.1.08

O Samba da minha Terra

Não sou daquelas que dizem que vão ficar no Brasil pra sempre. Longe disso, sempre quis ir pra fora. Mas o Brasil tem coisas e lugares maravilhosos, que ainda são desconhecidos por quem mora por aqui. Conversando com um amigo, percebi que poucos conhecem as raízes do Brasil. A partir de hoje pretendo fazer uns resumos de como surgiram algumas manifestações artísticas e culturais genuinamente brasileiras, ou totalmente modificadas pela criatividade incomparável dos brasileiros, se tornando algo só nosso.

Claro que não poderia deixar de começar com o Samba, recentemente nomeado Patrimônio Imaterial do Brasil.

Tudo começou com os revolucionários da década de 30, com as suas pregações unificadoras. Para este fim, os revolucionários dispunham de uma mídia potente: O rádio, que, fez suas primeiras transmissões no Brasil nas comemorações do centenário da Independência em 1922. Em 1923 foi inaugurada a primeira estação de rádio brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, iniciativa do antropólogo Roquette Pinto e do cientista Henrique Morize.

Apesar do crescente número de emissoras, os primeiros programas de grande audiência só surgiram depois da Revolução de 30. O pioneiro nesse estilo foi o Programa Casé, colocado no ar e pela primeira vez em 1932. A Rádio Nacional adotou a programação de música popular do Programa Casé, tornando-se a emissora mais influente nos anos Getúlio Vargas, ouvida em ondas médias e curtas em todo o território nacional. Até mesmo a Hora do Brasil, programa criado durante o Estado Novo, incluía a divulgação de música popular em sua programação. Os programas de maior audiência eram transmitidos do Rio.

No início do século XX, a música popular ouvida no Brasil era composta por uma extrema variedade de estilos e ritmos. O próprio carnaval, descrito por Oswald de Andrade como “o acontecimento religioso da raça”, não era festa movida apenas por músicas classificadas como brasileiras. Ao contrário, os maiores sucessos da folia, desde que ela se organizou em bailes, eram polcas, valsas, tangos, fox-trot. Do lado nacional, a variedade também imperava: ouviam-se maxixe, modas, marchas, cateretês. Mas nenhum desses estilos musicais, apesar de suas modas passageiras, parecia ter fôlego suficiente para conquistar a hegemonia no gosto popular da época. Nenhum deles era considerado o ritmo nacional por excelência.

Foi só nos anos 30 que o samba carioca começou a colonizar o carnaval brasileiro, transformando-se em símbolo de nacionalidade. A ausência do “ritmo brasileiro”, até a vitória do samba depois da Revolução de 30, não significava que inexistisse um certo intercâmbio regional e entre classes sociais em matéria de gosto musical. A modinha prova exatamente o contrário, mostrando como um ritmo podia ser sucesso em todo Brasil, mas nem por isso se transformando em gosto hegemônico ou símbolo do que existe de mais brasileiro no Brasil.

O samba Pelo Telefone, composto coletivamente, entrou para história como o primeiro samba registrado.

Com a abertura da Avenida Central, muitas famílias negras e pobres que moravam no centro foram expulsas para a Cidade Nova e, depois, para os subúrbios e favelas. Mas no Centro ainda era possível encontrar uma mistura de todas as classes sociais, inclusive morando lado a lado, o que tornava rápida a circulação das novidades lançadas pelos diferentes segmentos da sociedade carioca.

Muitos laços uniam os segmentos distintos da sociedade brasileira (maçonaria, culinária, festas). O toque do pandeiro era reprimido por policiais e, ao mesmo tempo, convidado a animar recepções de um senador da República.

Nas primeiras décadas do século XX, os cinemas cariocas costumavam contratar músicos, incluindo nomes importantes, para se apresentarem em suas salas de espera, mas pouco antes do carnaval de 1919, a gripe espanhola devastou a cidade, matando vários músicos. Foi assim que Isaac Frankel, gerente do Cine Palais, já conhecendo Pixinguinha, por tê-lo visto tocar com o Grupo do Caxangá num coreto carnavalesco do Largo da Carioca, resolveu convidá-lo para apresentar-se na sala de espera do seu cinema, mas com uma orquestra menor.

Pixinguinha e Donga acabaram escolhendo oito integrantes do Grupo Caxangá, que foi batizado por Isaac de Oito Batutas. Como nessa época o samba ainda não aparecia como estilo musical, Isaac aparentemente cometia uma ousadia colocando uma banda como essa para tocar num dos cinemas mais elegantes do Centro da cidade. Principalmente por que a maioria de seus integrantes era de negros. A reação contrária foi imediata. Os descontentes existiam sim, mas seu número não deveria ser muito grande. Senão como explicar que, um ano depois de sua estréia no Cine Palais, os Oito Batutas tenham sido convidados oficialmente a se apresentar para os reis da Bélgica que estavam de passagem pelo Brasil? E pessoas como Rui Barbosa, Ernesto Nazareth e Arnaldo Guinle tenham passado a ir ao Cine Palais para ouvir os Oito Batutas? Entre outros tantos convites, e financiamentos para “turnês” no Brasil e na França.

A música dos Oito Batutas não era algo homogêneo. Mas todos os estilos se seu repertório, apesar de incluir gêneros totalmente urbanizados, podiam ser chamados, na época, de música sertaneja. Arnaldo Guinle financiara a excursão brasileira dos Oito Batutas para que, junto com João Pernambuco, fizessem uma coleta de músicas folclóricas. Portanto, existia um interesse pela cultura popular brasileira, que era confundida com um fenômeno sertanejo, que por sua vez era identificado com o folclore nacional.

Os interesses musicais dos componentes do grupo não se restringiam apenas ao que era rotulado como nacional. Durante sua temporada parisiense, em 1922, eles ficaram apaixonados pelo jazz, fato que motivou a compra de um saxofone para Pixinguinha. Até o final da década de 20 participaram de várias orquestras chamadas Jazz (bailes do tipo gafieira com repertório bem variado, realizados em sobrados do Centro, do Catete e de Botafogo) formadas no Rio de Janeiro. Essa paixão pelo jazz, foi criticada por jornalistas, inaugurando um tipo de crítica musical nacionalista e antiamericana que se tornou comum no decorrer do século.

O samba, naquela época, não era visto como propriedade de um grupo étnico ou uma classe social, mas começava a atuar como uma espécie de denominador comum musical entre vários grupos, o que facilitou sua ascensão ao status de música nacional.

No final do século 30 um grupo de jovens de classe média branca começou a ter uma participação decisiva na história do samba: foi a turma de Vila Isabel, que incluía nomes como Noel Rosa, Almirante e Braguinha. O radialista Haroldo Barbosa dizia que “a Vila Isabel do final dos anos 20 e início dos anos 30 seria comparável à Ipanema dos anos 60 em matéria de boemia artística de classe média.” Não demorou muito para o nascimento do “samba do morro”, a turma de Noel Rosa participou inclusive do processo de definição desse samba ”autêntico”. Sempre querendo conhecer o que produziam estes sambistas de morro, trocar informações com eles, somar experiências, Noel seguia peregrinando. Salgueiro, Mangueira, entre outros morros. Essas expedições acompanhavam a transformação da cidade, tanto em seu crescimento para os subúrbios quanto no surgimento de favelas em vários morros. A população pobre começava a viver realmente separada da população rica, ao contrário de antes, onde as coisas se misturavam na geografia do Rio.

O primeiro samba misturou muitas expressões musicais, logo foi “amaxixado” e, depois “depurado” pelos compositores do Estácio. O que era uma modificação no samba passou a ser o verdadeiro samba. A idéia da preservação do samba tem uma força considerável. Tanto que esse é talvez o único gênero da música afro-americana que não se misturou, em sua maioria quase absoluta, ao funk norte-americano ou que não adotou instrumentos eletrônicos em suas bandas.

A atuação dos governos de Getúlio Vargas foi decisiva com seu apoio, oficial ou não, ao samba e ao carnaval. Em 1932, ao mesmo tempo em que o Teatro Municipal abria as portas para realização de seu primeiro baile carnavalesco, o interventor no Distrito Federal (Rio de Janeiro), Pedro Ernesto, contemplou “subvenções mínimas de dois contos de réis” a todas “as chamadas Grande Sociedades, todos os ranchos carnavalescos, vários blocos e escolas de samba”.

Em 1935, Villa-lobos incorporou numa de suas monumentais apresentações de canto orfeônico, um samba de Ernani Silva, a quem conhecera quando foi assistir a um ensaio da Escola de Samba Recreio de Ramos acompanhado pelo educador Anísio Teixeira. E em 1936 um samba da escola Mangueira foi incluído na edição especial da Hora do Brasil transmitida diretamente para a Alemanha nazista. Os radialistas brasileiros não parecem ter pensado duas vezes: o samba já representaria a “nossa” cultura em qualquer situação internacional.

Todo visitante ilustre que chegava ao Brasil era apresentado ao samba. O interesse oficial pelo samba e pelas “coisas brasileiras” era mais do que explícito. O governo Vargas, por ser de seu interesse, começou o processo de nacionalização do samba, que em pouco tempo, alcançou a posição de música nacional e colocou em plano secundário os outros gêneros “regionais”. A vitória do samba era também a vitória de um projeto de nacionalização e modernização da sociedade brasileira. Na música popular, o Brasil tem sido, desde então, o Reino do Samba.

Para saber mais: Hermano Vianna, "O samba da minha terra", in O mistério do samba , Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

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28.1.08

Engasgos...

Nunca tinha aprendido a demonstrar carinho. Sentia dificuldade em tocar, abraçar e beijar em horas e lugares que não considerasse próprios, que não fossem a dois e entre quatro paredes. Com medo de perder o afeto do outro acabou se tornando uma pessoa extremamente devotada.
Doava-se com uma facilidade de pessoa desapegada, mas cobrava silenciosamente uma resposta. Guardava para si todo o rancor e mágoa da não reciprocidade, sabia ser impossível que alguém conseguisse agir da mesma maneira que ela, alguém que pensasse nos pequenos detalhes, nos pequenos confortos, na sutil e subjetiva antecipação do desejo.
Era boa com palavras, mas nunca conseguia que saísse de dentro dela uma declaração de amor convincente. Então se apegava mais aos pequenos gestos diários, como se pudesse recompensar com eles a incerteza causada pela ausência de um pronunciamento.
Agora era tarde para mudar. Não tinha coragem de preencher a metade do armário vazia, sentia falta dos livros dele que tinha lido com avidez esperando encontrar em cada linha um detalhe da sua personalidade, escutava mentalmente os cds que ele mais gostava.
Deitou no travesseiro dele, mais fino que o seu, e chorou por cada palavra que poderia ter dito depois das inúmeras declarações que ele tinha lhe feito. Ele já estava cansado demais para ouvir o Eu te amo que ela disse baixinho ao vê-lo partir...

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Carne de Segunda...

... porque gente como eu se alimenta de cérebros.

E alguns cérebros são mais loucos do que outros...

Tim Maia

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27.1.08

O medo da morte e a arte de morrer


Me lembro bem da primeira vez que tive medo da morte, eu só não sabia que tinha que se dar a isso o nome de medo. Eu devia ter uns onze anos, estava de férias em Cabo Frio na casa da minha tia, com duas primas de dez e nove anos. Todos os dias de manhã a gente ia pra praia que era em frente ao apartamento.

Num desses dias uma linha de pipa com cerol começou a rasgar o meu pescoço. Minhas primas logo se levantaram pra ajudar, a linha ficou presa no joelho de uma delas, e o desespero só aumentou. Não sei que força eu tive na hora pra botar as duas mãos na linha e empurrá-la para longe da gente. Saímos correndo pra casa.

Eu olhava pro sangue pingando do meu pescoço, as mãos latejavam, foi nessa hora que olhei para o joelho dela, vi o buraco que tinha aberto e pensei que se esse buraco tivesse sido no meu pescoço eu teria morrido com certeza. Junto com este pensamento meu corpo ficou frio e mole, tudo começou a girar, eu me senti desfalecer, a vista ficou preta e eu desmaiei.

O que eu não podia imaginar é que esta sensação se repetiria ainda incontáveis vezes na minha vida.

Aí aprendi a controlar os desmaios... Desde esse dia, quando sou atacada por uma crise de pânico, eu encosto na parede, coloco as mãos atrás da cabeça, me abaixo e forço a cabeça pra cima. Desse jeito o medo não passa, mas permaneço consciente, nunca mais deixei o medo me apagar. Mas só controlar os sintomas não adiantava...

A segunda vez que tive medo da morte foi em sonho. Um dia, eu devia ter uns 13 anos, eu sonhei que era um homem, numa cela num porão de um navio. E este homem, que eu sabia ser eu, era maltratado e morria de fome naquele chão imundo. E eu sentia tudo, o estômago revirando, os engulhos, o vômito compulsivo de bilis, os engasgos, depois o corpo ia ficando mole, ficando frio, eu sentia a respiração diminuindo, o coração acelerando, muito, os espasmos do corpo, até que o coração parava, o corpo ficava imóvel, vinha uma quentura da cintura pra baixo, depois ficava tudo quieto e eu acordava.

Esse sonho se repetiu toda semana durante uns dois anos, até uma tia minha, ao ouvir o sonho, me dizer que um tio do meu bisavô tinha morrido numa viagem de navio de Portugal, onde ele era prisioneiro. Coincidência ou não, eu nunca mais sonhei com ele.

Mas estes sonhos tinham me deixado mais um sintoma do medo: a insônia. Alguns instantes antes de dormir eu sentia a mesma sensação dos desmaios, e combinada com o desejo de não sonhar, eu ficava acordada até o último suspiro de limite, quando nem tomava consciência de como e quando tinha dormido. Os olhos apenas fechavam e no minuto seguinte abriam, e já era de manhã.

Essa sensação de morrer enquanto durmo, acabou se tornando um grande aprendizado.

Os budistas possuem três bardos importantes em vida (bardos são períodos de tempo específicos). O bardo do nascimento à morte; o bardo dos sonhos e o bardo da concentração.

Ter um aprendizado espiritual nesses três bardos faz com que seja mais fácil passar pelos bardos da morte, que são: O bardo do momento da morte: do início do processo da morte até a morte efetiva; O bardo da natureza em si: do momento da morte até o aparecimento das divindades no estado post-mortem e O bardo do vir a ser: do fim do precedente até o nascimento.

No budismo a vida é um aprendizado para a morte. Você tem que aprender a morrer.

No bardo do momento da morte, os elementos que compõem o nosso corpo (a carne, os ossos são o elemento terra; o sangue, a fleuma, e outros líquidos são o elemento água; a temperatura forma o elemento fogo; o processo respiratório forma o elemento ar) são reabsorvidos uns pelos outros, gerando fenônemos externos e internos. Esses fenômenos também acontecem quando se dorme e quando se medita. Primeiro a terra absorve a água, os membros ficam imóveis e o que se vê na mente são miragens. A água então é absorvida pelo fogo, fazendo com que a boca e a língua tornem-se secas e no interior aparecem fumaças. O fogo então absorve-se no ar, fazendo com que o calor do corpo se concentre no meio dele, e internamente aparecem faíscas. E por fim o elemento ar absorve-se na consciência individual, fazendo com que a respiração cesse, e apareçam chamas internas.

Esse fenômenos percorrem então os três caminhos, começando pelo caminho branco, quando a energia sutil masculina (branca) sobe até o coração. A luz branca invade então a mente. Depois, a energia sutil feminina (vermelha) sobe até o coração, o caminho vermelho, fazendo com que uma luz vermelha invada a mente. As duas energias se juntam então no coração, completando o caminho negro, fazendo a mente cair no escuro. O budismo acredita que a percepção desses fenômenos pode assustar na hora da morte, e devemos então estar preparados para eles. Se conseguirmos reconhecer a "clara luz fudamental" no momento da obscuridade da mente no caminho negro, nos tornaremos buddha no momento da morte e os outros bardos não acontecerão. Este processo leva três dias e meio.

Caso não se consiga se tornar um ser iluminado no primeiro bardo, segue-se o segundo: O bardo da natureza em si, onde aparecerão os Buddhas das cinco famílias. Ao Buddha Vairochana (uma luz azul) deve-se pedir para acabar com o sofrimento e os fenômenos do bardo. Depois aparecerão os Buddha Vajrasattva, (luz branca), o Buddha Ratnasambhava (luz amarela), o Buddha Amitabha (luz vermelha) e no quinto dia aparece o Buddha Amoghasiddhi (luz verde).

"No dia seguinte, os cinco Buddhas aparecem simultaneamente, ao mesmo tempo que o conjunto das luzes das seis classes de seres. No total, quarenta e duas divindades pacíficas vão manifestar-se em nossa mente, seguidas de cinqüenta e oito divindades irritadas. Essas manifestações duram aproximadamente três semanas. Se, sem ceder ao pavor, reconhecermos essas divindades e sua luminosidade pelo que elas são, somos liberados nesse segundo bardo, e não entramos no terceiro bardo da morte."

Aí viria o bardo do vir a ser, que é quando finalmente se compreende que se está morto. É a experiência mais dolorosa de todas. Neste bardo não tem-se um corpo físico, mas existe um corpo com todas as faculdades mentais, semelhante ao vivo, que move-se na velocidade do pensamento e pode estar em qualquer lugar do universo que deseje. E neste bardo desejamos estar com aqueles que perdemos, tentando em vão algum contato.

"Todos os tipos de fenômenos pavorosos produzem-se no transcurso desse bardo do vir a ser, sejam de caráter luminoso, sejam, mais ainda, de caráter sonoro. Ouvimos ruídos terrificantes: o estrondo de uma montanha que desmorona, o ribombo da tempestade sobre o oceano, a crepitação do fogo, o uivar do vento. Nesse caso, não devemos ceder ao medo, mas pensar que são apenas manifestações ilusórias de nossa própria mente, sem existência real."

Nesse terceiro bardo, a pessoa pode orar bastante e conseguir o direito de não renascer, caso contrário, ele será apresentado aos seus futuros pais, vendo os dois se unirem. Não havendo como escolher a hora do renascimento, será arrastado pelo karma, e só poderá orar para um renascimento para o bem dos seres.

Este bardo costuma durar 24 dias. Somado aos outros, a morte duraria então 49 dias, estando sujeita a variações.

Só relatei essa explicação do budismo por achá-la interessante mesmo. Independente de qualquer religião, morrer dormindo é uma dádiva concedida a poucos. Mas, acabei entendendo que é preciso aprender a morrer. Não no sentido budista literal, mas no se "tornar mais elevado espiritualmente", que eu interpreto como faça o bem, viva com a cabeça tranquila e projete um futuro melhor. Isto me dá uma sensação de dever cumprido no final das contas, que faz com que eu durma tranquila, sem me preocupar com o amanhã.

Não posso dizer que deixei de ter medo da morte. Apenas consegui uma trégua.

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Se quiser saber mais, leia:
Bokar Rinpoche. Morte e Arte de Morrer no Budismo Tibetano. Tradução de Plínio Augusto Coelho, revisão técnica de Antonio Carlos da R. Xavier. Brasília: ShiSil, 1997.


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Lost in Translation

Embora eu goste do título Encontros e Desencontros, Lost in Translation é bem mais a cara do filme.
E já que falei de filmes que mexeram comigo, não poderia deixar de falar neste aqui. Me lembro perfeitamente do dia do impacto. Uma amiga comentou que eu não podia deixar de vê-lo, e aproveitamos a retrospectiva da Uff para irmos juntas (ela pela segunda vez).
Quando as luzes se acenderam eu estava aos prantos. A mistura de silêncio e solidão com a música e o barulho de Tóquio foram enlouquecedores para mim.
Me lembro que saímos do cinema e fomos tomar uma cerveja no bar ao lado. Ficamos mais de duas horas sentadas lá e eu não consegui dizer uma única palavra... Durante muito tempo eu pensei no filme. Naquela semana mesmo eu voltei ao cinema mais duas vezes. Depois disto ainda o vi mais outras cinco, sempre com pessoas que não tinham visto e eu achava que deviam vê-lo.
O filme além de tudo tem algo que eu adoro: finais instigantes. Passei muito tempo imaginando o que o Bob tinha dito pra Charlotte. Agora eu já sei.
Para quem não viu o filme, ou para quem já viu e prefere ficar sem saber, melhor parar por aqui.

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26.1.08

La double vie de Véronique

Poucos filmes mexeram tanto comigo quanto este...



"O dia 23/11/1966 foi o dia mais importante de suas vidas. Nesse dia, às 3h da manhã, ambas nasceram em duas cidades e continentes diferentes. Ambas tinham cabelos escuros e olhos verde-escuros. Quando tinham 2 anos e já andavam, uma se queimou tocando num forno. Dias depois a outra também pôs o dedo perto do forno mas o retirou a tempo. Entretanto, ela não podia saber que se queimaria..."

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O descaso público com as pagadoras de cofrinho

É notório e sabido, além-mar inclusive, que os brasileiros gostam de bundas. Grandes e enormes bundas. O fato é que estes mesmos brasileiros não sabem valorizar uma boa bunda. E neste brasileiros eu estou incluindo principalmente os que ditam, desenham e fazem a "moda".
Como em todos os setores negociais hoje em dia, a moda é uma série de compilações e reescrituras de coisas lançadas lá fora. Mas as pessoas se esquecem que uma calça jeans usada por uma brasileira não pode ser a mesma que uma americana. Entre essas duas há uma fundamental diferença: o tamanho da bunda. E não pensem que estou superestimando as brasileiras, não é isso, o que acontece é que realmente temos as bundas maiores, por incontáveis motivos, inclusive os genéticos.
Mas isso não é de agora, claro. O que acontecia antes era que o padrão da moda era menos prejudicial às bundudas. Com as cinturas mais definidas, a bunda da mulher brasileira ficava ainda mais valorizada. Era a época do corpão violão. Mas aí os vestidos foram perdendo a vez, as calças foram abaixando o cós, foram diminuindo de tamanho até chegar ao que é hoje.
Uma mulher com uma bunda grande quando sai para comprar uma calça tem que se munir com toda a paciência do mundo. O que vai acontecer é o seguinte: Se ela tiver quadril largo acompanhando a bunda grande, a calça vai passar pela coxa e não vai passar pelo quadril. Quando ela passa pelo quadril, fica larga na coxa e com aquele papo parecendo que tem algo que não deveria ter entre as pernas. Finalmente, quando fica boa na coxa e no quadril, a mulher leva a calça pra casa, mas sabe que não vai poder sentar, senão vai logo vir alguém no seu ouvido: Fulana, você está pagando cofrinho!!!
Acredite, nós, as pagadoras de cofrinho, só queríamos que as pessoas passassem por um dia pela sensação de ter que se levantar toda a hora pra puxar a calça pra cima (como se adiantasse), ou ficar abaixando a blusa, colocando cinto, pendurando casacos na cintura...
Mas sabe o que é pior???? Uma pagadora de cofrinho jamais pode se dar ao luxo de sair de casa com a primeira calcinha que encontrar. A chance de que alguém veja a dita cuja, sem que isso seja um ato prazeroso, é enorme.
Não se engane, isto é um manifesto. Um manifesto contra o descaso público com as pagadoras de cofrinho. Como sofrem essas mulheres, que tem que passar dias pra comprar uma calça razoável, porque nunca será decente. Que são humilhadas pelas amigas que finalmente encontram um motivo para se sentirem felizes por serem desbundadas. Que não têm o direito de usar uma calcinha velha. E, por último, mas não menos importante, que são obrigadas a revelar partes íntimas do corpo, não por vontade, mas por serem vítimas da opressão da indústria da moda.
Mas eu também não me engano. Provavelmente poucas pessoas lerão isto aqui, e considerando os frequentadores deste blog, serão todos homens, que jamais terão a sensibilidade suficiente para aderirem ao protesto. Pior, é capaz de um destes amigos sacanas ficar puto comigo, tentando garantir aos homens o direito de desfrutar cofrinhos furtivos por aí...
Realmente, alguns deles até valem a pena...

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Visão

Eles se conheciam já há alguns anos. Não eram muito amigos, mas conversavam frequentemente. Ela não tinha nenhum pré-conceito sobre ele. Na verdade, ele não a interessava muito, era somente mais alguém.
Um dia ela o olhou e finalmente o viu. E o que viu foi revelador.
Daquele em dia em diante ela passou a se questionar qual seria a ordenação do ver. O andar dele, que antes lhe parecia normal, passou a ser elegante. Começou a reparar na maneira como ele se vestia. As coisas que ele falava passaram a ter conotação especial, como se um sinalzinho de prioridade com bandeirinha vermelha tivesse sido acionado na caixa de correio dos seus sentimentos. Seus beijos de mero cumprimento pareciam mais demorados e tinham um significado completamente singular...
Qual dos seus sentidos teria visto antes dos outros? O que fizera despertar nela um súbito interesse por ele? No íntimo sabia ser o cérebro o causador de tudo, tinha descoberto nele uma inteligência apurada e interessante, quase como descobrir vida em Marte, ou algo do gênero. A partir disso todos seus outros cinco sentidos (sim, a intuição também dera seus palpites) foram doutrinados a agirem de acordo com o que ordenava seu intelecto.
Neste caso tinha sido assim, mas em outros, a visão tinha acontecido com outras partes do corpo. Um frio na espinha, um olhar devorador, um sussurro no ouvido, um toque casual de mãos. Mas estes logo se arrefeceram. Quando o cérebro é quem vê, a coisa fica mais perigosa, porque o cérebro é capaz de manipular desejos, de controlar todos os sentidos.
Na verdade, pensou nisto só no começo. Logo depois o que importava (e incomodava) mesmo, era o desejo de que ele visse também.

Foto: Jan Saudek

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25.1.08

Música de Sexta

Eu acordo pra trabalhar...

Sabe aquela velha história de que o trabalho dignifica o homem? Pois eu concordo plenamente. O problema é quando se gosta de trabalhar, mas não do trabalho que se faz. É o meu caso. Há algumas semanas eu tenho saído de casa muito antes do meu cérebro acordar e quando volto já está escuro, há algum tempo, e isso em pleno horário de verão. Isso não me deixa muito feliz, mas, confesso: Ficar um dia à tôa em casa é ótimo. Mais do que isso é um pesadelo pra mim...
Estava pensando na música de sexta dessa semana quando me lembrei do ato diário de sair de casa, entrar naquele ar condicionado ligado eternamente em congelantes 20 graus (quando se chega é ótimo. À noite, a coisa começa a congelar os dedos que vão ficando roxos e insensíveis...), e sair de lá cansada e louca pra tomar uma cerveja. E louca pra ver a luz do sol... Essa foto aí do lado é da única fonte de luz natural que eu vejo durante o dia inteiro, nas raras vezes em que consigo parar para fumar um cigarro...

Capitão de Indústria
Paralamas do Sucesso
de Marcos Valle e e Paulo Sérgio Valle

Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas
livres, coloridas
Nada poluídas
Eu acordo p'rá trabalhar
Eu durmo p'rá trabalhar
Eu corro p'rá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
Eu não vejo além da fumaça que
Passa e polui o ar
Eu nada sei
Eu não vejo além disso tudo
O amor e as coisas
livres, coloridas
Nada poluídas

Mais...

22.1.08

O Vazio e a Vontade

"O que foi não mais existe; existe exatamente tão pouco quanto aquilo que nunca foi. Mas tudo que existe, no próximo momento, já foi. Conseqüentemente, algo pertencente ao presente, independentemente de quão fútil possa ser, é superior a algo importante pertencente ao passado; isso porque o primeiro é uma realidade, e está para o último como algo está para nada." O Vazio da Existência, Schopenhauer.

Não sei quando me dei conta do vazio, onde antes era só vontade. Nem sei quando comecei a procurá-lo, se foi com Buda ou com Schopenhauer...

Nem posso dizer que sempre acreditei que a realidade absoluta seriam a vontade e o vazio, para mim bastava a vontade ser o motor das nossas vidas e permitir-se ser vista e experimentada através da consciência. Sempre achei coerente, embora nunca tenha podido acreditar em algo que nunca vivi. São Tomé sou eu, e este eu nunca tinha vivido o vazio. Mas agora estou aprendendo a conviver com ele.

É como acordar mais leve, sonhar mais tranquilo, viver mais alegre. Quando você vai se questionar o que há por dentro, não há nada. E é esse o ponto. O nada, o vazio.

A realidade, o presente, como dito aí em cima, é infinitamente superior a algo do passado. Mas como dói se dar conta disso...

Nunca consegui apagar o passado propositalmente. Nunca consegui esquecer e superar paixões e desejos do Maya para chegar ao Nirvana. Nunca consegui não viver sem me preocupar com a ilusão que é este mundo e me permitir repudiá-lo, como se de fato não existisse ou não devesse ter importância. Mas um dia simplesmente me olhei e vi que nada do que tinha sido pesava mais.

Não sei como é não ter apego aos desejos e paixões. Não sei como é não me iludir com uma ilusão. Não sei como é andar pra frente com uma sensação de anos perdidos. Só sei que a vontade de superá-los, e não de revivê-los, acaba nos movendo.

A vontade gera o vazio que gera a vontade, e assim caminho eu. Pela primeira vez intercalada.

E livre.

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Curtas Eróticos

Vinheta do Curtas Eróticos
O projeto e o roteiro são meus. As ilustrações são do meu queridíssimoíssimo Sóter.

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Rapidinha

"Como dizer quem come,
se quando nos amamos,
temos a mesma fome?


Cairo de Assis Trindade

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21.1.08

Computador Portátil

Ainda da série "A origem de todas as coisas"

Quem inventou o primeiro computador portátil, que se chamaria laptop e depois notebook, foi o Zé Adam Osborne.
Estávamos no ano de 1982. O Zé aparentemente era um cara comum. Mas o Zé tinha um problema muito sério, uma doença rara chamada Intestinuns Preguiçulosuns.
Uma pessoa com intestinuns preguiçulosuns sofre muito. O médico recomendou ao Zé que ele ajudasse seu intestino a cumprir suas funções diárias ficando o máximo de tempo possível em cima da privada.
O Zé então muniu-se de almofadinha vazada no meio, várias garrafas de dois litros de coca-cola, uma TV, um rádio, umas revistas, muitos livros e a Maria, e resolveu se mudar para o banheiro.
A Maria no começo não gostou muito, mas logo se acostumou. Foi dela a idéia de colocar uma rede num lado e uma cama do outro. Logo tiveram que quebrar umas paredes e o banheiro do Zé acabou virando o apartamento inteiro, com sofá, microondas, fogão e geladeira.
No início as visitas estranhavam um pouco, era muita intimidade ficar vendo o Zé peladão em cima da privada, mas depois de um tempo todos se acostumaram.
A vida do Zé estava muito confortável até a Maria resolver fazer intercâmbio na Nova Zelândia. O Zé tentou demovê-la da idéia, mas a Maria tinha aprendido com o Jaca Palladium que tudo acontecia na Nova Zelândia, então era pra lá que ela tinha que ir.
O Zé logo caiu em depressão, e mesmo as visitas mensais do carteiro trazendo notícias da Maria não o animavam mais. Precisava vê-la, ouvi-la. Foi aí que o Zé ouviu falar do Skype. Pegou o telefone e encomendou um computador. Mandou fazer uma mesinha baixa ao lado da privada e instalou lá a bugiganga eletrônica.
Passava a noite toda conversando com a Maria, curvado para a frente, olhando aqueles belos olhos agora tão distantes.
Foi aí que o Zé descobriu que estava com outra doença seríssima: Lordosuns Irrecuperaviuns...
O médico proibiu o Zé de ficar debruçado em frente ao computador, senão correria o risco de jamais voltar a posição semi-erectus a que já estava tão acostumado.
O Zé obedeceu, mas caiu prostrado na privada. A depressão o consumia. Estava dez quilos mais magro, não queria comer mais, nem tomar a sua coca-cola. O cafezinho com o cigarro de manhã já não o animava. Com a falta de comida, seu intestinuns preguiçulosuns se tornou extra-preguiçulosuns. O Zé estava condenado à morte se continuasse assim.
Foi aí que ele teve uma brilhante idéia, encomendou um curso de eletrônica pelos Correios, estudou dias e noites e meses até que conseguiu criar um computador que coubesse no seu colo, e lhe deu o nome de Osborne I.
O Zé ficou rico com a invenção. Se livrou do intestinuns preguiçulosuns quando descobriu que caviar lhe dava dor de barriga. Faz fisioterapia todos os dias pra conseguir ficar em pé novamente. Se mudou para uma mansão enorme, com mais de vinte quartos e só um banheiro. Ficou com trauma.
E a Maria? Bem, enquanto o Zé estudava eletrônica, a Maria descobriu que a vida era mais que um banheiro, se casou com um neozelandês e virou instrutora de bungee-jump.

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Carne de Segunda...

... porque gente como eu se alimenta de cérebros.

Raduan Nassar


O Ventre Seco

1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta.

2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (excedendo-se, por sinal), me ofereceu presentes, me entregou perdulariamente o teu corpo, tentou me arrastar pra lugares a que acabei não indo, e, não fosse minha feroz resistência, até pessoas das tuas relações você teri
a dividido comigo. Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.

3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.


4. E já que falo em proselitismo, devo te dizer também que não tenho nada contra esse feixe de reivindicações que você carrega, a tua questão feminista, essa outra do divórcio, e mais aquela do aborto, essas questões todas que "estão varrendo as bestas do caminho". E quando digo que não
tenho nada contra, entenda bem, Paula, quero dizer simplesmente que não tenho nada a ver com tudo isso. Quer saber mais? Acho graça no ruído de jovens como você. Que tanto falam em liberdade? É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.

5. Sem suspeitar da tua precária superioridade, mais de uma vez você me atirou um desdenhoso "velho" na cara. Nunca te disse, te digo porém agora: me causa enjôo a juventude, me c
ausa muito enjôo a tua juventude, será que preciso fazer um trejeito com a boca pra te dar a idéia clara do que estou dizendo? É bastante tranqüilo este depoimento, é sossegado, ao fazê-lo, me acredite, Paula, não me doem os cotovelos. Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir gentes maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "gentes maravilhosas", não gosto de gente, para abreviar minhas preferências.

6. Você me levava a supor às vezes que o amor em nossos dias, a exemplo do bom senso em outros tempos, é a coisa mais bem dividida deste mundo. Aliás, só mesmo uma perfeita distribuição de afeto poderia explicar o arroubo corriqueiro a que todos se entregam com a simples menção deste sentimento. Um tanto constrangido por turvar a transparência dessa água, há muito que queria te dizer: vá que seja inquestionável, mas tenho todas as medidas cheias dos teus frívolos elogios do amor.

7. Farto também estou das tuas idéias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas, e é só pra contrabalançar tua lucidez que confesso aqui minha confusão, mas não conclua daí qualquer sugestão de equilíbrio, menos ainda que eu esteja traindo uma suposta fé na "ordem", afinal, vai longe o tempo em que eu mesmo acreditava no propalado arranjo universal (que uns colocam no começo da história, e outros, como você, colocam no fim dela), e hoje, se ponho o olho fora da janela, além do incontido arroto, ainda fico espantado com este mundo simulado que não perde essa mania de fingir que está de pé.

8. Você pode continuar falando em nome da razão, Paula, embora até o obscurantista, que arranja (ironia!) essas idéias, saiba que a razão é muito mais humilde que certos racionalistas; você pode continuar carreando areia, pedra e tantas barras de ferro, Paula, embora qualq
uer criança também saiba que é sobre um chão movediço que você há de erguer teu edifício.

9. Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este "velho obscurantista", nos
frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida.

10. Sabe, Paula, ainda que sempre atenta à dobra mínima da minha língua, assim como ao movimento mais ínfimo do meu polegar, fazendo deste meu canto o ateliê do desenhista que ia
no dia-a-dia emendando traço com traço, compondo, sem ser solicitada, o meu contorno, me mostrando no final o perfil de um moralista (que eu nunca soube se era agravo ou elogio), você deixou escapar a linha mestra que daria caráter ao teu rabisco. Estou falando de um risco tosco feito uma corda e que, embora invisível, é facilmente apreensível pelo lápis de alguns raros retratistas; estou falando da cicatriz sempre presente como estigma no rosto dos grandes indiferentes.

11. Não tente mais me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros remoinhos virulentos que te agitam a cabeça. Pouco se me dá, Paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal, já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.


12. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro.

13. Não me telefone, não estacione mais o carro na porta do meu prédio, não mande terceiros me revelarem que você ainda existe, e nem tudo o mais que você faz de costume, pois recorrendo a esses expedientes você só consegue me aporrinhar. Versátil como você é, desempenhe mais este papel: o de mulher resignada que sai de vez do meu caminho.

14.. Entenda, Paula: estou cansado, estou muito cansado, Paula, estou muito, mas muito, mas muito cansado, Paula. (Teu baby-doll, teus chinelos, tua escova de dentes, e outros apetrechos da tua toalete, deixei tudo numa sacola lá embaixo, é só mandar alguém pegar na portaria c
om o zelador.)

15. Ainda: "a velha aí do lado", a quem você se referia também como "a carcaça ressabiada",
"o pacote de ossos", "a semente senil" e outras expressões exuberantes que o teu talento verbal sempre é capaz de forjar mesmo para falar das coisas mirradas da vida, nunca te revelei, Paula, te revelo agora: "aquele ventre seco" é minha mãe, faz anos que vivemos em kitchenettes separadas, ainda que ao lado uma da outra. Não seja tola, Paula, não estou te recriminando nada, sempre assisti com indiferença aos arremedos que você fazia da "bruxa velha, preparando a poção pra envenenar nossas relações". Te digo mais: você talvez tivesse razão, é provável que ela vivesse a espreitar minha porta das sombras da escadaria, é provável que ela do fundo dos corredores te olhasse "de um jeito maligno", é provável ainda que ela, matreira dentro do seu cubículo, te alcançasse todas as vezes que você saía através do olho mágico da sua porta. Mas contenha, Paula, a tua gula: você que, além de liberada e praticada, é também versada nas ciências ocultas dos tempos modernos, não vá lambuzar apressadamente o dedo na consciência das coisas; não fiz a revelação como quem te serve à mesa, não é um convite fecundo a interpretações que te faço, nem minha vida está pedindo esse desperdício. Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela, e "só pra tirar um sarro", perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência, se acaso amanhã teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar "a ridícula solenidade da velha", mas não dispense o seu irrepreensível comedimento, responda como ela invariavelmente te respondia: "não conheço esse senhor".



p.s.: Leia Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera e Menina a Caminho, dele.

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20.1.08

Coitada

Verbete do livro "Natalia e Natalia e a origem de todas as coisas"


Estávamos no ano de 1888. A Princesa Isabel, ou Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança, ou "feia como a peste e estúpida como uma leguminosa", no auge de seus 31 anos de parca beleza e prestes a completar bodas de prata com o marido, o célebre fracassado Conde D'eu, que nunca se recuperou das críticas por suas decisões na Guerra do Paraguai e entrou numa depressão profunda que abalou suas estruturas e sua "firmeza" nos quesitos mais íntimos, estava subindo pelas paredes, ou numa expressão da época "beliscando azulejos", portugueses e caríssimos, claro.
A Princesa Isabel, cheia de fogo no rabo (coberto por inúmeras anáguas e ferros para disfarçar aos olhos plebeus), resolve então se aliar aos liberais, certa de que entre eles encontraria alguém com mais convicção nas suas bandeiras, ou nos mastros das suas bandeiras.
Impregnada pelos discursos abolicionistas e crente no direito de liberdade do povo negro, robusto, forte, másculo, a nossa princesa querida resolveu conferir os atributos tão dignos da raça que ora se encontrava escravizada.
Era um domingo, 13 de maio, e a Princesa andava displicentemente pelo pátio somente de camisolas, pensando na votação do projeto de abolição, quando deu de cara (querendo dar o resto) com o negro Sebastião, um exemplar digno de muitos Vivas à abolição.
Logo a Princesa já estava embolada com o Tião ali no pátio de terra, transformando sua camisola alva em algo entre o terracota e o envergonhado bege.
O fato é que não foi um sorriso de orelha a orelha que o povo viu na Princesa quando ela usou sua pena de ouro, especialmente confeccionada para a ocasião, para assinar a famosa Lei Áurea neste mesmo dia. Estava assinando ali a liberdade de Tião, seu próprio libertador.
O povo já comentava como podia estar "A Redentora" tão triste já que o dia era de festa para eles.
O Tião, sabendo-se o responsável pelo estado de espírito da nobre se limitou a dizer para os pares:
_ Coitada está a princesa.
E foi assim que um adjetivo que deveria ser usado para designar a pessoa feliz após ter sofrido o coito virou sinônimo de pessoa que se tem que ter pena.

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Da classificação das mulheres ou a unanimidade de Mônica Bellucci



Dois homens e duas mulheres na mesa. As mulheres começam o papo.

_ A Juliana Paes é linda pra c... E ainda admite ser de São Gonçalo, quase ninguém faz isso.

_ Linda não, ela é gostosa.

_ Por quê?

_ Linda é cara e gostosa é corpo.

_ Ah tá. Deixa eu ver... Julia Roberts?

_ Bonitinha.

_ Michele Pfeiffer?

_ Linda.

_ Penélope Cruz?

_ Sensual.

_ Ah, agora tem bonitinha e sensual também...

_ Não consigo é pensar em uma que seja maravilhosa... Linda e gostosa ao mesmo tempo. Difícil. Ah sim, Mônica Bellucci.

_ Pegou pesado, essa sim é espetacular... Mas deixa ver se eu entendi, a mulher pode ser linda, gostosa, sensual, bonitinha, feia e monstro. Se a mulher for gostosa e inteligente?

_ Quase impossível, mas aí é brinde.

_ Mas o gostosa é bastante subjetivo, embora tenha o senso comum...

_ Sim, concordo que seja subjetivo. Cada um prefere algo em maior quantidade...

_ Sei, e não tem uma classificação que inclua as inteligentes, simpáticas... Sei lá, charmosas???

_ E pra que servem as amigas?

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18.1.08

Minha lista


Há dez anos atrás eu morava há quatrocentos quilômetros de onde estou hoje, e tive grandes amigos por lá. Estávamos todos longe dos pais, por motivos diferentes, e acredito que isto fez com que nos tornássemos uma família meio estranha. A companhia era necessária, por isso a intimidade tornou-se necessária. É claro que tínhamos afinidades, mas acabamos por criar um vínculo ausente de críticas.
Com certeza eu só penso assim hoje, dez anos depois, porque estou distante daquilo, e quando paro pra pensar o que fez nos tornarmos tão amigos. Mas na época eu apenas vivia. E por isso fui feliz.

Uma noite, no meio de uma crise depressiva (comum naquelas épocas, provavelmente devido à grande quantidade de álcool e outras coisas que a gente consumia diariamente), eu procurei um amigo e entre um soluço e outro eu falei pra ele que todo mundo ali fazia alguma coisa bem. Uns eram músicos excelentes, outros dançavam, outros eram inteligentíssimos, e alguns faziam ambas as coisas. Aí ele pensou bem e me disse: _ Natalia, você é a que escreve melhor de todos nós. Isso é o que você sabe fazer de bom. É esse o seu talento.

Há pouco tempo eu disse a esse amigo o quanto ele me ajudou com aquela frase naquela hora. Depois que ele me disse isso, eu, de brincadeira, resolvi escrever uma historinha, estilo quadrinhos, sobre como seria se nos conhecêssemos dez anos depois, "adultos" já. Se teríamos a mesma empatia imediata e como estaria nossa vida.

Coincidência ou não, eu achei que essa história tinha se perdido, mas a encontrei ontem. Quase dez anos depois que a escrevi. Incompleta, claro, mas era mais ou menos assim:

"Era lua cheia, dos homens e dos lobisomens. Saía uma fumaça do seu nariz, o andar era apressado, como se sentisse medo. E sentia, pela primeira vez na vida. Sempre se sentiu um Deus. Desafiava tudo e todos, e só tinha medo daquilo que um Deus deveria ter medo: de si mesmo.
Chegou em casa, ligou o som, precisava ouvir algo bem pesado para destruir os pensamentos. Sozinho não tinha medo de nada, por isso quase não tinha amigos.
No dia seguinte acordou feliz, consciente de suas posses, mas logo fechou a cara, não podia demonstrar suas fraquezas. Desligou o rádio, tentou tocar algo na sua guitarra mas não conseguiu. Estava feliz demais para as suas melancolias. Resolveu passar numa banca e comprar umas revistas em quadrinhos, que há muito tempo não lia. Aproveitou para dar uma volta no seu carro novinho, confortável. Depois ia sentar na sua poltrona confortável, no seu apartamento de luxo confortável, e curtir todo o conforto que seu emprego pôde lhe dar.

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A lua cheia estava com um colorido diferente àquela noite. A sombra seria difícil de desenhar, mas ele insistia. Rabiscava aqui e ali ansioso para terminar sua história. Precisava de uma grana e fazia tempo que não vendia uma revista pra editora.
Geralmente se perdia na fantasia das idéias. Na corda bamba, no lá e cá. Tinha medo de não voltar à realidade. Suas histórias estavam ficando sem graça demais. Não gostava dos vilões, queria ser um Herói, e quase sempre o era.
Acordou meio mal e foi dar uma volta no parque em frente, fazer seus exercícios. Morava num sobradinho antigo mas bem jeitoso, e no andar de baixo sua irmã tinha aberto uma loja de camisetas onde dava pra arrumar uns bicos de vez em quando.
Olhou pra coleção de quadros que tinha pintado, alguns considerados muito bons por um amigo da irmã, mas ele não tinha coragem de vender nenhum deles. Faziam parte de lembranças do passado, que só conseguia ter sonhando... Juntos contavam a história do que tinha sido, e do que queria voltar a ser a qualquer custo.

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Ela acabou de dançar e saiu. O suor se misturava à chuva, e a roupa colava no corpo. Ela olhou pra cima e viu a lua. Cheia. Pensou que se a lua fosse um homem casaria com ela, ou ele. Quem sabe não viraria lésbica? Chegou a pensar na hipótese, mas só pensou. A lua era tão brilhante, enigmática. Quando ia encontrar um homem assim? Só se ele viesse da lua mesmo. À noite sonhou com um príncipe montado num cavalo branco, enfrentando dragões na lua para salvá-la. Logo depois percebeu que na verdade o príncipe estava montado no dragão tentando salvar o cavalo, e não ela.
Quando acordou decidiu que sonhar era coisa de criança. Mas ela não passava mesmo disso, uma menina.
Dividia com a irmã um apartamento pago pelos pais, recebia mesada e tentava ganhar dinheiro dançando, mas a vida não tava fácil. Precisava virar gente grande.

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Ela saiu do trabalho e foi cortar o cabelo. Olhou pro céu e se lembrou que era noite de lua cheia. Não podia cortar o cabelo em noite de lua cheia. Ficou frustrada por perceber seu erro, parou num camelô e comprou uma bugiganga qualquer. Contente com isso, esqueceu completamente o que ia fazer. Resolveu ir a um bar novo que ouviu falar, sentou na mesa e pediu uma vodka com coca-cola, sem limão, e muito gelo pra acalmar os ânimos.
Já estava há uma meia hora no bar e não tinha aparecido ninguém interessante, nem estranho. Estranho, não, esquisito. Estranho é normal, esquisito é que é estranho. Sorriu ao se lembrar dessa frase que tinha escutado num tempo já esquecido do passado. Pagou a conta e saiu. Andou de volta pra casa e em vez de pegar a rua de sempre entrou uma rua antes. Não gostava de se sentir caindo na rotina. Pensava nisso quando viu um cabeludo andando. Parecia legal, e tinha uma cara estranha. Ou melhor, esquisita. Resolveu ir atrás dele.
Há muito tempo que tinha deixado seu país, e nunca quis voltar. Pregou na parede um quadrinho com versos de Drummond, cuja antítese crítica ajudava a superar os dias difíceis.

"Povo feio, moreno, bruto,
não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria,
e todo mundo anda - como eu - de luto."

Mas ela não estava mais de luto.

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Se encontraram por um acaso num bar. Conversaram um pouco e resolveram juntar as mesas. De repente, ela chegou. Com sua mini-saia e sua mini-blusa. Seus cabelos quase negros, encaracolados, soltos. Eles nunca tinham visto nada igual. Alguém perguntou seu nome mas não deveria tê-lo feito. Uma pessoa um pouco mais metódica por ali teria percebido que ela bateu o recorde mundial de perguntas não-feitas respondidas. "Bem, pra falar a verdade, eu odeio ser garçonete, mas fazer o quê, né? Eu ganho mais aqui, à noite, do que no meu serviço mixuruca de publicitária numa agência de sexta categoria. Que nem de quinta é aquela merda. Não, não penso em me casar, não quero ter filhos, sou do signo de Gêmeos. Nasci no dia dos namorados, mas não tenho um. Nunca tive relacionamentos duradouros e não me preocupo com isso. Na verdade, me preocupo sim. Já fui a mais de três analistas diferentes. Dizem que eu não tenho nada. Mas não adianta falar isso pra eles que eles não acreditam. Sim, moro sozinha. Minha mãe mora longe, muito longe. Coitada, ela é tão velhinha já, continua rabugenta, como sempre, mas aí é problema da minha irmã que tem que aturá-la. Bem, respondendo à sua pergunta, pode me chamar de maravilhosa, que eu atendo. A propósito, o que vocês querem pra beber?"

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Na hora de fazer minha lista, é impensável não pensar neles.
Até há bem pouco tempo, eu ainda via um desses amigos todos os dias. Uma amiga, na verdade, morava com ela. Os outros eu vejo com frequência, nos encontramos semana passada.
Do que eu previ, a parte subjetiva é bem parecida. Quem eu chamo de Deus tem realmente um emprego estável, está casado, mas parece que se humanizou um pouco mais. Tem dado mais valor ao que realmente importa.
A que eu chamei de menina está pra começar um doutorado em Física. Voltou a dançar no ano passado, e eu a acho mais feliz agora.
O herói está casado com uma americana, é formado em Francês, vem sempre ao Brasil nas férias e acredito que esteja querendo ficar por aqui.
A maravilhosa não se tornou uma publicitária, é funcionária pública com um ótimo emprego, e cursa administração. A mãe dela está longe de ser a rabugenta que era, e se tornou uma ótima pessoa também.
E eu? Bem, eu não fui embora, mas não estou mais de luto.

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Música de Sexta

Faça a sua lista...



A Lista
Oswaldo Montenegro

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você já desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você


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15.1.08

Poema-árvore


"Árvores são poemas que a
terra escreve para o céu.
Nós a derrubamos e as
transformamos em papel
para registrar todo o
nosso vazio."
Khalil Gibran


Quero criar raízes
além terra.
Galhos além mar,
folhas além guerra,
frutos além vida,
flores além sonhos.
Quero enterrar
os velhos amores,
os velhos desejos,
as velhas paixões.
Para germinar
a novidade,
a nova idade,
a nova era.
Quem me dera...

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14.1.08

Carne de Segunda...

... porque gente como eu se alimenta de cérebros.



Passeio Noturno,
Rubem Fonseca

Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.

Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?

A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.

Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio.

Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas.

A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.

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13.1.08

Hadronterapia

Hadronterapia - Técnica que permite que seja possível
atingir a região de interesse sem produzir danos
consideráveis em orgãos críticos próximos,
pelo fato de que íons, incluindo os prótons,
depositam suas energias essencialmente
no final de suas trajetórias dentro da matéria.


_ Prepare-se para sentir menos. Prepare-se para se tornar mais fria diante dos fatos, é isso que faz a solidão. Você se habitua a ela, as coisas perdem a saturação, viram luz e sombra, com algumas cores em tom pastel. Eventualmente você vai sentir falta do brilho, vai se permitir algum. Um laranja, um amarelo, até um vermelho. Mas pra viver na plenitude, vai voltar pro bege, pro cinza, pro verde musgo. E é lá que vai se encontrar.

_ Lindo isso! Eu quero ver como meu arco-íris vai reagir. Eu tenho muitos defeitos, eu sei de todos, mas tenho muita alegria. Às vezes acho que até demais. Incomoda a mim e aos outros. Não posso dizer que é por falta de sofrimento, mas provavelmente de excesso.

_ Você é a prova de que as pessoas reagem às coisas de maneiras diferentes.

_ Às vezes a gente tem que regredir pra progredir. Não que eu me sabote, às vezes até o faço, mas quero a felicidade e segurança plenas. Metade não me vale de nada.

_ Você é inconformada e isso é ótimo.

_ Nunca estar satisfeito é um fardo bem complexo.

_ Eu, aqui do outro lado, descobri que a tal felicidade é, de fato, uma utopia e que segurança não existe. Gosto mesmo é do meu bege.

_ A minha diferença, eu acho, é que mesmo sendo bege eu vou querer compartilhar-me. Gosto das interações.

_ Também gosto, só não preciso delas.

_ Eu preciso.

_ Voltamos a falar nessa sua necessidade depois que se acostumar com a solidão.

_ Mas é aquela história, compartilhar o bege, não roubar o vermelho do outro. Talvez pegar um pouquinho emprestado e virar um laranjinha desbotado. Não dá pra ser totalmente colorido
com uma alma melancólica e eternamente insatisfeita. É, vamos ver se vou me acostumar com a solidão. Acho que não tenho essa coragem toda.

_ Eu acho que tens, mas vai mudar quando alcançar e mudar pra caralho. Mudar dentro. Até o coração vai bater de forma diferente. Vai se reescrever e vai lembrar vagamente de como você era. Acostumar-se com a solidão é fácil, principalmente quando não se tem opção, conviver com o que restou é que é difícil.

_ Você às vezes fala de maneira tão amargurada. Alguns fatos a gente precisa, claro, aceitar. Outros a gente pode readaptar.

_ Entendo e concordo. Sempre posso reescrever, renascer, mas, como você, preciso forçar isso. Tem que vir de dentro pra fora, não de fora pra dentro. Comecei o ano diferente, dizem que até meu olhar mudou. Eu sei que isso é bom, mas sei que não demora muito, volta pro que era, porque o que fiz foi "cortar o cabelo".

_ Você começou o processo e acho que pode ser que demore. Às vezes quando a gente corta o cabelo a gente gosta tanto que acaba comprando umas roupas novas pra combinar com ele, e uns sapatos para combinarem com a roupa, e umas bolsas para combinarem com os sapatos. Depois você passa a se vestir tão bem que dá vontade de conhecer restaurantes que você nunca entrou antes, aí você experimenta sabores novos, padrões diferentes e quando o paladar apura, você se torna mais exigente. E não volta ao que era mais.

_ No meu caso, depois disso tudo, volto, cabisbaixo, pro meu mundinho. Magôo meia dúzia de viventes que não entendem e sigo na mesma linha.

_ Sim, volta porque ainda quer.

_ Não consigo fazer diferente. Talvez algum psiquiatra entenda.

_ Você não precisa de psiquiatra. Você se instalou num mundo muito confortável e é preciso querer muito pra sair.

_ Não há nada de confortável no meu mundo.

_ Olha o mundo confortável aí: nada a se apegar, nada a responder. Nem família, nem trabalho nem amigos.

_ Isso não é conforto.

_ Para pessoas como eu e você, prontas para largar tudo a qualquer momento, é.

_ O que sinto, é que no fundo, não sinto nada. Não preciso sentir, entende?

_ Você não precisa sentir nada porque faz com que seu mundo não lhe exija. Não demanda esforços, não demanda sentimentos, não demanda apegos e principalmente não demanda entrega. É superficial, mas não vai te fazer sofrer.

_ Não acho superficial. Eu mergulho profundamente em tudo, dentro do meu mundo.

_ Mas é superficial porque você só interage com a superfície das coisas. Não vai jamais mergulhar. E se você não voltar, não é mesmo? E sabe o que eu acho de mais engraçado nessa conversa? É que meu caso é exatamente o oposto do seu: meu mundo confortável está em mergulhar demais nos outros. Em amar demais, em me entregar demais, em gostar demais, em me importar demais com os outros e só ficar na superfície de mim mesmo.

_ A definição do oposto em dois corpos.

_ Mas eu acho ótimo esse oposto. Você consegue sempre me mostrar um ponto de vista com conhecimento que eu não tenho. É claro que existe o medo de que o outro entre neste barco furado em que a gente já está...

_ Acho que o bege não combina contigo, só isso.

_ E eu já acho que você perderia muito se quisesse chegar numa cor que você jamais vai ser capaz de ser.

_ Eu também. No fim, preciso cortar meu cabelo mais vezes, mas não sei se quero mudar. Eu só lamento porque eu não sou egoísta e sou um puta dum tremendo egoísta do caralho. Eu daria meu mundo para não precisar compartilhá-lo...

_ Você seria capaz de fazer um estrago na minha vida. Não sei se isso seria ruim. Talvez o estrago seja mais de choque do que de perda. Sempre que penso em você eu penso em hadronterapia...

_ Terapia de choque deve ser mais produtivo. Choque elétrico, claro.

_ Não. Choque elétrico afeta os neurônios. A hadronterapia atua na molécula.

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12.1.08

Agressão

Ela vinha andando pela rua calmamente. Acendeu seu último cigarro até chegar à padaria onde compraria outro.
Passa um homem no caminho, pede um cigarro. Ela diz calmamente, este é o último.
De repente, a dor. A unha cravada em seu braço como um punhal no peito. A dor aumenta. Aparece alguém, tira a unha. Dor, confusão, gritos, dor. Mais dor, mas ela não chora.
Tem pena de si mesmo.
Vê o agressor como quem olha um cão raivoso na rua.
O braço começa a latejar, o sangue circula devagar, os olhos enevoam, a pressão cai, ela se apóia. Procura ajuda, a respiração falha, o vírus circula, o preconceito. A raiva, a indignação, circulam. Tudo parece mais pesado. O ar mais rarefeito. Ela sufoca. Sai correndo...
Mais dor, mas ela não chora. Tem pena de si mesmo.
Vê o agressor como quem olha um cão raivoso na rua.
Como quem perde toda a confiança na humanidade...

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11.1.08

Música de Sexta


Françoise Hardy - L'amitié
Paroles: Jean-Max Rivière. Musique: Gérard Bourgeois 1965


Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Muitos de meus amigos vieram das nuvens

Avec soleil et pluie comme simples bagages
Com o sol e a chuva como bagagem

Ils ont fait la saison des amitiés sincères
Eles fizeram a estação das amizades sinceras

La plus belle saison des quatre de la terre

A mais bela das quatro estações da terra

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Têm a doçura das mais belas paisagens

Et la fidélité des oiseaux de passage
E a fidelidade dos pássaros de passagem

Dans leurs cœurs est gravée une infinie tendresse
E em seu coração está gravada uma ternura infinita

Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse
Mas, as vezes, em seus olhos se desliza a tristeza

Alors, ils viennent se chauffer chez moi
Então, eles vêm se aquecer em minha casa

Et toi aussi tu viendras
e você também virá

Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Poderá retornar ao fim das nuvens

Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
E sorrir de novo a outros rostos

Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Distribuir à sua volta um pouco da sua ternura

Lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse
Quando um outro quiser te esconder sua tristeza

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Como não sabemos o que a vida nos dará

Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
Talvez eu não seja mais ninguém

S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
Se me restar um amigo que realmente me compreenda

J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines
Esquecerei ao mesmo tempo, minhas lágrimas e minhas penas

Alors, peut-être je viendrai chez toi
Então, talvez eu vá à sua casa

Chauffer mon cœur à ton bois.
Aquecer meu coração em tua lareira

Ouça a música, é linda!

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10.1.08

Das percepções e outros devaneios...

As conversas que tenho "frequentado" ultimamente versam sobre as desculpas, as mentiras, a morte, a existência, e afins...
Acredito que eu estava procurando algo parecido, e acabei encontrando. As discussões existenciais são muito produtivas, mas terminam por abalar minhas sinapses de maneira perturbadora.
Temo pensar que as pessoas que não pensam são mais felizes do que eu. E eu sou feliz.
O conceito de felicidade é abstrato demais e não quero entrar nele agora, mas é fato que quanto maior o anseio, ou o coqueiro, maior o tombo, ou menor a felicidade.
É comum nos vermos e nos sabermos pelo espelho, e é comum sermos o que somos para os outros. Mas alguns nunca se esquecem que o contrário é espelhado.
Houve uma época em que todos me julgavam inteligente, e isto foi se tornando tão pesado para mim que abalei minhas estruturas para sempre. Se a pressão interna era maior eu não sei, mas que uma levou a outra, independente da ordem, ah, isso foi.
Para sobreviver na minha família é preciso ser esperto, porque o mínimo que se espera de cada um, e sempre foi assim, é simplesmente o máximo. Não que eu despreze minha carga genética, mas dou mais importância as coisas que herdei bem menos interessantes, mas isso é papo para outra hora.
Nesses abalos acabei por desenvolver uma inteligência muito mais intuitiva. Há pouco tempo eu me dei conta que nunca li os clássicos, que não gosto de ver os filmes que estão na moda, nem tenho grande conhecimento em muita coisa que gostaria.
Nesses abalos acabei por gostar do exótico, do incomum, do pressentido. Acabei por gostar de gente. E, dessa maneira, consigo conversar sobre quase tudo, sem grandes conhecimentos, mas baseada em minhas percepções dos outros e das coisas que adquiri por osmose.
A minha inteligência, seja de que maneira a trabalhei, me fez ser o que eu sou hoje...
Agora me diga, qual é a sua inteligência?

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