5.1.08

Chuveiros


Ligava o chuveiro e falava sobre o último livro que tinha lido ou sobre a última música que tinha descoberto. A água caía na cadência da conversa. Não podia vê-lo, mas sentia o cheiro do cigarro, ouvia seus comentários sarcásticos sobre a insistência dela em algumas coisas, sentia o desajeitar da tampa da privada, e logo depois o barulho dele se sentando no piso frio do banheiro.
Não se lembrava da primeira vez que tinham feito isso, só sabia que a cena se repetira diversas vezes, mesmo depois de separados.
Ela desligava o chuveiro, e trocava de lugar com ele. Fumava o seu cigarro filosofando com o eco de água escoando pelo ralo.
Os dois saíam então do banheiro mantendo a conversa animada e praticamente ininterrupta, ela penteava o cabelo dele com paciência e carinho. Quase uma devoção.
Uma amizade dessas não se encontrava na esquina. Tinha visto uma vez um filme do Domingos de Oliveira, chamado Separações, que dizia que pessoas que se amaram muito têm que ficar amigos para sempre. É porque o amor não acaba assim, tão de repente. É preciso transformá-lo em qualquer coisa que não incomode. Mas manter uma amizade mesmo, depois de tanta intimidade, é para poucos.
Com eles era assim.
Não sabia se desde o início, tudo não tinha passado de uma grande e belíssima amizade. Uma vez um amigo tinha lhe dito que em toda amizade há uma atração física, e ela concordava. Gostava mais dos amigos com quem já tinha ido para cama, pois acabava com a incômoda latência do tesão, e dava vazão ao que realmente importava: o prazer e a intimidade que uma amizade pode trazer. Às vezes sexo, também. Por que não?
Era uma dessas pessoas que nasceram para ser e ter muitos melhores amigos e poucos grandes amores. Sabia-se dessas pessoas que acreditam que não só a amizade é base de qualquer relação amorosa, mas como qualquer relação amorosa é base de uma amizade.
Desligou o chuveiro saudosa de uma boa conversa. Sabia que ao anunciar seu casamento ele tinha lhe dito silenciosamente que os encontros no banheiro, mesmo que sem nenhum tesão, não seriam jamais entendidos pela outra parte. E um relacionamento com mentiras nunca tinha tido espaço com eles.
Naquela noite penteou seus cabelos, deu-lhe um beijo na boca e soube que seria a última vez que se viam a sós.

4 comentários:

Klotz disse...

Gostei. Mesmo que eu escreva cem histórias de chuveiro jamais faria algo parecido.

Em tempo, A Coca-cola não se dispôs a pagar o quanto meu texto merece - duas cocas pet diariamente enquanto eu viver. Isso para mim foi um atestado de qualidade do meu fortificante predileto.
Por favor, use do texto. Com pouco gelo.

Nat disse...

Klotz, obrigada pelos comentários. Usarei do seu texto com pouco gelo e nenhum limão ;- )

Fred disse...

To com saudades.
To achando que aconteceu algo com voce la.
O que pela delicadeza das pessoas que la frequentam não é de admirar.
Mas to triste.
Engraçado como nunca nos vimos e eu gosto tanto de voce.
Parece até que era como se saíssemos do corpo e nos tivéssemos encontrado, conversado e ficamos amigos. Legal, este sentimento.
O que me mostra que o ser humano poderia não precisar de corpo para existir.
Viche - to delirando, mas acho isso mesmo.
Sinto tua falta.
Te admiro muito.
Milhões de beijos.
Muito legal teu texto, também de amizade.

Nat disse...

Fred, querido, tá tudo bem comigo. Eu só não ando comentando lá por preguiça mesmo. Aquele povo tá sempre na mesma ladainha de direta x esquerda. Quando aparecer algo interessante pra comentar eu apareço. Beijocas.