28.1.08

Engasgos...

Nunca tinha aprendido a demonstrar carinho. Sentia dificuldade em tocar, abraçar e beijar em horas e lugares que não considerasse próprios, que não fossem a dois e entre quatro paredes. Com medo de perder o afeto do outro acabou se tornando uma pessoa extremamente devotada.
Doava-se com uma facilidade de pessoa desapegada, mas cobrava silenciosamente uma resposta. Guardava para si todo o rancor e mágoa da não reciprocidade, sabia ser impossível que alguém conseguisse agir da mesma maneira que ela, alguém que pensasse nos pequenos detalhes, nos pequenos confortos, na sutil e subjetiva antecipação do desejo.
Era boa com palavras, mas nunca conseguia que saísse de dentro dela uma declaração de amor convincente. Então se apegava mais aos pequenos gestos diários, como se pudesse recompensar com eles a incerteza causada pela ausência de um pronunciamento.
Agora era tarde para mudar. Não tinha coragem de preencher a metade do armário vazia, sentia falta dos livros dele que tinha lido com avidez esperando encontrar em cada linha um detalhe da sua personalidade, escutava mentalmente os cds que ele mais gostava.
Deitou no travesseiro dele, mais fino que o seu, e chorou por cada palavra que poderia ter dito depois das inúmeras declarações que ele tinha lhe feito. Ele já estava cansado demais para ouvir o Eu te amo que ela disse baixinho ao vê-lo partir...

2 comentários:

Fred disse...

Nat, alguma coisa a ver com mãe?

A complexidade humana é formidável.

Desencontros, por isso, são mais fáceis de ocorrer.

Conheci minha mulher aos 17, ela com treze.
Gopstei tanto dela que resolvi esperar que ela ficasse mais velha e eu também para que o encontro no futuro desse certo.
Naturalmente sempre com o medo de perdê-la.
Quando ela chegou aos 17 começamos a namorar, Nos casamos, eu com 25 ela com 21. Tivemos quatro filhos, dois homens e duas mulheres. Nos separamos 36 anos depois de casados.
Quer entender?

Nat disse...

Bem Fred, segundo Freud teria algo a ver com a mãe sim hehehhee Mas a demonstração de carinho, ou a falta dela, me parece ser mais ligada ao temperamento e personalidade, mesmo.
Bjs