13.1.08

Hadronterapia

Hadronterapia - Técnica que permite que seja possível
atingir a região de interesse sem produzir danos
consideráveis em orgãos críticos próximos,
pelo fato de que íons, incluindo os prótons,
depositam suas energias essencialmente
no final de suas trajetórias dentro da matéria.


_ Prepare-se para sentir menos. Prepare-se para se tornar mais fria diante dos fatos, é isso que faz a solidão. Você se habitua a ela, as coisas perdem a saturação, viram luz e sombra, com algumas cores em tom pastel. Eventualmente você vai sentir falta do brilho, vai se permitir algum. Um laranja, um amarelo, até um vermelho. Mas pra viver na plenitude, vai voltar pro bege, pro cinza, pro verde musgo. E é lá que vai se encontrar.

_ Lindo isso! Eu quero ver como meu arco-íris vai reagir. Eu tenho muitos defeitos, eu sei de todos, mas tenho muita alegria. Às vezes acho que até demais. Incomoda a mim e aos outros. Não posso dizer que é por falta de sofrimento, mas provavelmente de excesso.

_ Você é a prova de que as pessoas reagem às coisas de maneiras diferentes.

_ Às vezes a gente tem que regredir pra progredir. Não que eu me sabote, às vezes até o faço, mas quero a felicidade e segurança plenas. Metade não me vale de nada.

_ Você é inconformada e isso é ótimo.

_ Nunca estar satisfeito é um fardo bem complexo.

_ Eu, aqui do outro lado, descobri que a tal felicidade é, de fato, uma utopia e que segurança não existe. Gosto mesmo é do meu bege.

_ A minha diferença, eu acho, é que mesmo sendo bege eu vou querer compartilhar-me. Gosto das interações.

_ Também gosto, só não preciso delas.

_ Eu preciso.

_ Voltamos a falar nessa sua necessidade depois que se acostumar com a solidão.

_ Mas é aquela história, compartilhar o bege, não roubar o vermelho do outro. Talvez pegar um pouquinho emprestado e virar um laranjinha desbotado. Não dá pra ser totalmente colorido
com uma alma melancólica e eternamente insatisfeita. É, vamos ver se vou me acostumar com a solidão. Acho que não tenho essa coragem toda.

_ Eu acho que tens, mas vai mudar quando alcançar e mudar pra caralho. Mudar dentro. Até o coração vai bater de forma diferente. Vai se reescrever e vai lembrar vagamente de como você era. Acostumar-se com a solidão é fácil, principalmente quando não se tem opção, conviver com o que restou é que é difícil.

_ Você às vezes fala de maneira tão amargurada. Alguns fatos a gente precisa, claro, aceitar. Outros a gente pode readaptar.

_ Entendo e concordo. Sempre posso reescrever, renascer, mas, como você, preciso forçar isso. Tem que vir de dentro pra fora, não de fora pra dentro. Comecei o ano diferente, dizem que até meu olhar mudou. Eu sei que isso é bom, mas sei que não demora muito, volta pro que era, porque o que fiz foi "cortar o cabelo".

_ Você começou o processo e acho que pode ser que demore. Às vezes quando a gente corta o cabelo a gente gosta tanto que acaba comprando umas roupas novas pra combinar com ele, e uns sapatos para combinarem com a roupa, e umas bolsas para combinarem com os sapatos. Depois você passa a se vestir tão bem que dá vontade de conhecer restaurantes que você nunca entrou antes, aí você experimenta sabores novos, padrões diferentes e quando o paladar apura, você se torna mais exigente. E não volta ao que era mais.

_ No meu caso, depois disso tudo, volto, cabisbaixo, pro meu mundinho. Magôo meia dúzia de viventes que não entendem e sigo na mesma linha.

_ Sim, volta porque ainda quer.

_ Não consigo fazer diferente. Talvez algum psiquiatra entenda.

_ Você não precisa de psiquiatra. Você se instalou num mundo muito confortável e é preciso querer muito pra sair.

_ Não há nada de confortável no meu mundo.

_ Olha o mundo confortável aí: nada a se apegar, nada a responder. Nem família, nem trabalho nem amigos.

_ Isso não é conforto.

_ Para pessoas como eu e você, prontas para largar tudo a qualquer momento, é.

_ O que sinto, é que no fundo, não sinto nada. Não preciso sentir, entende?

_ Você não precisa sentir nada porque faz com que seu mundo não lhe exija. Não demanda esforços, não demanda sentimentos, não demanda apegos e principalmente não demanda entrega. É superficial, mas não vai te fazer sofrer.

_ Não acho superficial. Eu mergulho profundamente em tudo, dentro do meu mundo.

_ Mas é superficial porque você só interage com a superfície das coisas. Não vai jamais mergulhar. E se você não voltar, não é mesmo? E sabe o que eu acho de mais engraçado nessa conversa? É que meu caso é exatamente o oposto do seu: meu mundo confortável está em mergulhar demais nos outros. Em amar demais, em me entregar demais, em gostar demais, em me importar demais com os outros e só ficar na superfície de mim mesmo.

_ A definição do oposto em dois corpos.

_ Mas eu acho ótimo esse oposto. Você consegue sempre me mostrar um ponto de vista com conhecimento que eu não tenho. É claro que existe o medo de que o outro entre neste barco furado em que a gente já está...

_ Acho que o bege não combina contigo, só isso.

_ E eu já acho que você perderia muito se quisesse chegar numa cor que você jamais vai ser capaz de ser.

_ Eu também. No fim, preciso cortar meu cabelo mais vezes, mas não sei se quero mudar. Eu só lamento porque eu não sou egoísta e sou um puta dum tremendo egoísta do caralho. Eu daria meu mundo para não precisar compartilhá-lo...

_ Você seria capaz de fazer um estrago na minha vida. Não sei se isso seria ruim. Talvez o estrago seja mais de choque do que de perda. Sempre que penso em você eu penso em hadronterapia...

_ Terapia de choque deve ser mais produtivo. Choque elétrico, claro.

_ Não. Choque elétrico afeta os neurônios. A hadronterapia atua na molécula.

2 comentários:

Monsores, André disse...

Já dizia Caetano, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

Belíssimo post.

Beijos

Fred disse...

Muito, muito cabeça, legal, não curto.
Não curto por medo, de gostar.