18.1.08

Minha lista


Há dez anos atrás eu morava há quatrocentos quilômetros de onde estou hoje, e tive grandes amigos por lá. Estávamos todos longe dos pais, por motivos diferentes, e acredito que isto fez com que nos tornássemos uma família meio estranha. A companhia era necessária, por isso a intimidade tornou-se necessária. É claro que tínhamos afinidades, mas acabamos por criar um vínculo ausente de críticas.
Com certeza eu só penso assim hoje, dez anos depois, porque estou distante daquilo, e quando paro pra pensar o que fez nos tornarmos tão amigos. Mas na época eu apenas vivia. E por isso fui feliz.

Uma noite, no meio de uma crise depressiva (comum naquelas épocas, provavelmente devido à grande quantidade de álcool e outras coisas que a gente consumia diariamente), eu procurei um amigo e entre um soluço e outro eu falei pra ele que todo mundo ali fazia alguma coisa bem. Uns eram músicos excelentes, outros dançavam, outros eram inteligentíssimos, e alguns faziam ambas as coisas. Aí ele pensou bem e me disse: _ Natalia, você é a que escreve melhor de todos nós. Isso é o que você sabe fazer de bom. É esse o seu talento.

Há pouco tempo eu disse a esse amigo o quanto ele me ajudou com aquela frase naquela hora. Depois que ele me disse isso, eu, de brincadeira, resolvi escrever uma historinha, estilo quadrinhos, sobre como seria se nos conhecêssemos dez anos depois, "adultos" já. Se teríamos a mesma empatia imediata e como estaria nossa vida.

Coincidência ou não, eu achei que essa história tinha se perdido, mas a encontrei ontem. Quase dez anos depois que a escrevi. Incompleta, claro, mas era mais ou menos assim:

"Era lua cheia, dos homens e dos lobisomens. Saía uma fumaça do seu nariz, o andar era apressado, como se sentisse medo. E sentia, pela primeira vez na vida. Sempre se sentiu um Deus. Desafiava tudo e todos, e só tinha medo daquilo que um Deus deveria ter medo: de si mesmo.
Chegou em casa, ligou o som, precisava ouvir algo bem pesado para destruir os pensamentos. Sozinho não tinha medo de nada, por isso quase não tinha amigos.
No dia seguinte acordou feliz, consciente de suas posses, mas logo fechou a cara, não podia demonstrar suas fraquezas. Desligou o rádio, tentou tocar algo na sua guitarra mas não conseguiu. Estava feliz demais para as suas melancolias. Resolveu passar numa banca e comprar umas revistas em quadrinhos, que há muito tempo não lia. Aproveitou para dar uma volta no seu carro novinho, confortável. Depois ia sentar na sua poltrona confortável, no seu apartamento de luxo confortável, e curtir todo o conforto que seu emprego pôde lhe dar.

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A lua cheia estava com um colorido diferente àquela noite. A sombra seria difícil de desenhar, mas ele insistia. Rabiscava aqui e ali ansioso para terminar sua história. Precisava de uma grana e fazia tempo que não vendia uma revista pra editora.
Geralmente se perdia na fantasia das idéias. Na corda bamba, no lá e cá. Tinha medo de não voltar à realidade. Suas histórias estavam ficando sem graça demais. Não gostava dos vilões, queria ser um Herói, e quase sempre o era.
Acordou meio mal e foi dar uma volta no parque em frente, fazer seus exercícios. Morava num sobradinho antigo mas bem jeitoso, e no andar de baixo sua irmã tinha aberto uma loja de camisetas onde dava pra arrumar uns bicos de vez em quando.
Olhou pra coleção de quadros que tinha pintado, alguns considerados muito bons por um amigo da irmã, mas ele não tinha coragem de vender nenhum deles. Faziam parte de lembranças do passado, que só conseguia ter sonhando... Juntos contavam a história do que tinha sido, e do que queria voltar a ser a qualquer custo.

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Ela acabou de dançar e saiu. O suor se misturava à chuva, e a roupa colava no corpo. Ela olhou pra cima e viu a lua. Cheia. Pensou que se a lua fosse um homem casaria com ela, ou ele. Quem sabe não viraria lésbica? Chegou a pensar na hipótese, mas só pensou. A lua era tão brilhante, enigmática. Quando ia encontrar um homem assim? Só se ele viesse da lua mesmo. À noite sonhou com um príncipe montado num cavalo branco, enfrentando dragões na lua para salvá-la. Logo depois percebeu que na verdade o príncipe estava montado no dragão tentando salvar o cavalo, e não ela.
Quando acordou decidiu que sonhar era coisa de criança. Mas ela não passava mesmo disso, uma menina.
Dividia com a irmã um apartamento pago pelos pais, recebia mesada e tentava ganhar dinheiro dançando, mas a vida não tava fácil. Precisava virar gente grande.

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Ela saiu do trabalho e foi cortar o cabelo. Olhou pro céu e se lembrou que era noite de lua cheia. Não podia cortar o cabelo em noite de lua cheia. Ficou frustrada por perceber seu erro, parou num camelô e comprou uma bugiganga qualquer. Contente com isso, esqueceu completamente o que ia fazer. Resolveu ir a um bar novo que ouviu falar, sentou na mesa e pediu uma vodka com coca-cola, sem limão, e muito gelo pra acalmar os ânimos.
Já estava há uma meia hora no bar e não tinha aparecido ninguém interessante, nem estranho. Estranho, não, esquisito. Estranho é normal, esquisito é que é estranho. Sorriu ao se lembrar dessa frase que tinha escutado num tempo já esquecido do passado. Pagou a conta e saiu. Andou de volta pra casa e em vez de pegar a rua de sempre entrou uma rua antes. Não gostava de se sentir caindo na rotina. Pensava nisso quando viu um cabeludo andando. Parecia legal, e tinha uma cara estranha. Ou melhor, esquisita. Resolveu ir atrás dele.
Há muito tempo que tinha deixado seu país, e nunca quis voltar. Pregou na parede um quadrinho com versos de Drummond, cuja antítese crítica ajudava a superar os dias difíceis.

"Povo feio, moreno, bruto,
não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria,
e todo mundo anda - como eu - de luto."

Mas ela não estava mais de luto.

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Se encontraram por um acaso num bar. Conversaram um pouco e resolveram juntar as mesas. De repente, ela chegou. Com sua mini-saia e sua mini-blusa. Seus cabelos quase negros, encaracolados, soltos. Eles nunca tinham visto nada igual. Alguém perguntou seu nome mas não deveria tê-lo feito. Uma pessoa um pouco mais metódica por ali teria percebido que ela bateu o recorde mundial de perguntas não-feitas respondidas. "Bem, pra falar a verdade, eu odeio ser garçonete, mas fazer o quê, né? Eu ganho mais aqui, à noite, do que no meu serviço mixuruca de publicitária numa agência de sexta categoria. Que nem de quinta é aquela merda. Não, não penso em me casar, não quero ter filhos, sou do signo de Gêmeos. Nasci no dia dos namorados, mas não tenho um. Nunca tive relacionamentos duradouros e não me preocupo com isso. Na verdade, me preocupo sim. Já fui a mais de três analistas diferentes. Dizem que eu não tenho nada. Mas não adianta falar isso pra eles que eles não acreditam. Sim, moro sozinha. Minha mãe mora longe, muito longe. Coitada, ela é tão velhinha já, continua rabugenta, como sempre, mas aí é problema da minha irmã que tem que aturá-la. Bem, respondendo à sua pergunta, pode me chamar de maravilhosa, que eu atendo. A propósito, o que vocês querem pra beber?"

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Na hora de fazer minha lista, é impensável não pensar neles.
Até há bem pouco tempo, eu ainda via um desses amigos todos os dias. Uma amiga, na verdade, morava com ela. Os outros eu vejo com frequência, nos encontramos semana passada.
Do que eu previ, a parte subjetiva é bem parecida. Quem eu chamo de Deus tem realmente um emprego estável, está casado, mas parece que se humanizou um pouco mais. Tem dado mais valor ao que realmente importa.
A que eu chamei de menina está pra começar um doutorado em Física. Voltou a dançar no ano passado, e eu a acho mais feliz agora.
O herói está casado com uma americana, é formado em Francês, vem sempre ao Brasil nas férias e acredito que esteja querendo ficar por aqui.
A maravilhosa não se tornou uma publicitária, é funcionária pública com um ótimo emprego, e cursa administração. A mãe dela está longe de ser a rabugenta que era, e se tornou uma ótima pessoa também.
E eu? Bem, eu não fui embora, mas não estou mais de luto.

3 comentários:

Stibiun disse...

2 Palavras: MUITO FODA!!!

1 Conselho: Vira mãe Diná, tú vai ganhar uma grana forte!!

Bjundas

Stibiun disse...

Caso não tenha ficado claro, vc é foda!

Bjundas!

Nat disse...

Obrigada querido. Este blog só existe porque de vez em quando você fala a coisa certa na hora certa hahahaha só de vez em quando tá?
Beijos pra vc.