27.1.08

O medo da morte e a arte de morrer


Me lembro bem da primeira vez que tive medo da morte, eu só não sabia que tinha que se dar a isso o nome de medo. Eu devia ter uns onze anos, estava de férias em Cabo Frio na casa da minha tia, com duas primas de dez e nove anos. Todos os dias de manhã a gente ia pra praia que era em frente ao apartamento.

Num desses dias uma linha de pipa com cerol começou a rasgar o meu pescoço. Minhas primas logo se levantaram pra ajudar, a linha ficou presa no joelho de uma delas, e o desespero só aumentou. Não sei que força eu tive na hora pra botar as duas mãos na linha e empurrá-la para longe da gente. Saímos correndo pra casa.

Eu olhava pro sangue pingando do meu pescoço, as mãos latejavam, foi nessa hora que olhei para o joelho dela, vi o buraco que tinha aberto e pensei que se esse buraco tivesse sido no meu pescoço eu teria morrido com certeza. Junto com este pensamento meu corpo ficou frio e mole, tudo começou a girar, eu me senti desfalecer, a vista ficou preta e eu desmaiei.

O que eu não podia imaginar é que esta sensação se repetiria ainda incontáveis vezes na minha vida.

Aí aprendi a controlar os desmaios... Desde esse dia, quando sou atacada por uma crise de pânico, eu encosto na parede, coloco as mãos atrás da cabeça, me abaixo e forço a cabeça pra cima. Desse jeito o medo não passa, mas permaneço consciente, nunca mais deixei o medo me apagar. Mas só controlar os sintomas não adiantava...

A segunda vez que tive medo da morte foi em sonho. Um dia, eu devia ter uns 13 anos, eu sonhei que era um homem, numa cela num porão de um navio. E este homem, que eu sabia ser eu, era maltratado e morria de fome naquele chão imundo. E eu sentia tudo, o estômago revirando, os engulhos, o vômito compulsivo de bilis, os engasgos, depois o corpo ia ficando mole, ficando frio, eu sentia a respiração diminuindo, o coração acelerando, muito, os espasmos do corpo, até que o coração parava, o corpo ficava imóvel, vinha uma quentura da cintura pra baixo, depois ficava tudo quieto e eu acordava.

Esse sonho se repetiu toda semana durante uns dois anos, até uma tia minha, ao ouvir o sonho, me dizer que um tio do meu bisavô tinha morrido numa viagem de navio de Portugal, onde ele era prisioneiro. Coincidência ou não, eu nunca mais sonhei com ele.

Mas estes sonhos tinham me deixado mais um sintoma do medo: a insônia. Alguns instantes antes de dormir eu sentia a mesma sensação dos desmaios, e combinada com o desejo de não sonhar, eu ficava acordada até o último suspiro de limite, quando nem tomava consciência de como e quando tinha dormido. Os olhos apenas fechavam e no minuto seguinte abriam, e já era de manhã.

Essa sensação de morrer enquanto durmo, acabou se tornando um grande aprendizado.

Os budistas possuem três bardos importantes em vida (bardos são períodos de tempo específicos). O bardo do nascimento à morte; o bardo dos sonhos e o bardo da concentração.

Ter um aprendizado espiritual nesses três bardos faz com que seja mais fácil passar pelos bardos da morte, que são: O bardo do momento da morte: do início do processo da morte até a morte efetiva; O bardo da natureza em si: do momento da morte até o aparecimento das divindades no estado post-mortem e O bardo do vir a ser: do fim do precedente até o nascimento.

No budismo a vida é um aprendizado para a morte. Você tem que aprender a morrer.

No bardo do momento da morte, os elementos que compõem o nosso corpo (a carne, os ossos são o elemento terra; o sangue, a fleuma, e outros líquidos são o elemento água; a temperatura forma o elemento fogo; o processo respiratório forma o elemento ar) são reabsorvidos uns pelos outros, gerando fenônemos externos e internos. Esses fenômenos também acontecem quando se dorme e quando se medita. Primeiro a terra absorve a água, os membros ficam imóveis e o que se vê na mente são miragens. A água então é absorvida pelo fogo, fazendo com que a boca e a língua tornem-se secas e no interior aparecem fumaças. O fogo então absorve-se no ar, fazendo com que o calor do corpo se concentre no meio dele, e internamente aparecem faíscas. E por fim o elemento ar absorve-se na consciência individual, fazendo com que a respiração cesse, e apareçam chamas internas.

Esse fenômenos percorrem então os três caminhos, começando pelo caminho branco, quando a energia sutil masculina (branca) sobe até o coração. A luz branca invade então a mente. Depois, a energia sutil feminina (vermelha) sobe até o coração, o caminho vermelho, fazendo com que uma luz vermelha invada a mente. As duas energias se juntam então no coração, completando o caminho negro, fazendo a mente cair no escuro. O budismo acredita que a percepção desses fenômenos pode assustar na hora da morte, e devemos então estar preparados para eles. Se conseguirmos reconhecer a "clara luz fudamental" no momento da obscuridade da mente no caminho negro, nos tornaremos buddha no momento da morte e os outros bardos não acontecerão. Este processo leva três dias e meio.

Caso não se consiga se tornar um ser iluminado no primeiro bardo, segue-se o segundo: O bardo da natureza em si, onde aparecerão os Buddhas das cinco famílias. Ao Buddha Vairochana (uma luz azul) deve-se pedir para acabar com o sofrimento e os fenômenos do bardo. Depois aparecerão os Buddha Vajrasattva, (luz branca), o Buddha Ratnasambhava (luz amarela), o Buddha Amitabha (luz vermelha) e no quinto dia aparece o Buddha Amoghasiddhi (luz verde).

"No dia seguinte, os cinco Buddhas aparecem simultaneamente, ao mesmo tempo que o conjunto das luzes das seis classes de seres. No total, quarenta e duas divindades pacíficas vão manifestar-se em nossa mente, seguidas de cinqüenta e oito divindades irritadas. Essas manifestações duram aproximadamente três semanas. Se, sem ceder ao pavor, reconhecermos essas divindades e sua luminosidade pelo que elas são, somos liberados nesse segundo bardo, e não entramos no terceiro bardo da morte."

Aí viria o bardo do vir a ser, que é quando finalmente se compreende que se está morto. É a experiência mais dolorosa de todas. Neste bardo não tem-se um corpo físico, mas existe um corpo com todas as faculdades mentais, semelhante ao vivo, que move-se na velocidade do pensamento e pode estar em qualquer lugar do universo que deseje. E neste bardo desejamos estar com aqueles que perdemos, tentando em vão algum contato.

"Todos os tipos de fenômenos pavorosos produzem-se no transcurso desse bardo do vir a ser, sejam de caráter luminoso, sejam, mais ainda, de caráter sonoro. Ouvimos ruídos terrificantes: o estrondo de uma montanha que desmorona, o ribombo da tempestade sobre o oceano, a crepitação do fogo, o uivar do vento. Nesse caso, não devemos ceder ao medo, mas pensar que são apenas manifestações ilusórias de nossa própria mente, sem existência real."

Nesse terceiro bardo, a pessoa pode orar bastante e conseguir o direito de não renascer, caso contrário, ele será apresentado aos seus futuros pais, vendo os dois se unirem. Não havendo como escolher a hora do renascimento, será arrastado pelo karma, e só poderá orar para um renascimento para o bem dos seres.

Este bardo costuma durar 24 dias. Somado aos outros, a morte duraria então 49 dias, estando sujeita a variações.

Só relatei essa explicação do budismo por achá-la interessante mesmo. Independente de qualquer religião, morrer dormindo é uma dádiva concedida a poucos. Mas, acabei entendendo que é preciso aprender a morrer. Não no sentido budista literal, mas no se "tornar mais elevado espiritualmente", que eu interpreto como faça o bem, viva com a cabeça tranquila e projete um futuro melhor. Isto me dá uma sensação de dever cumprido no final das contas, que faz com que eu durma tranquila, sem me preocupar com o amanhã.

Não posso dizer que deixei de ter medo da morte. Apenas consegui uma trégua.

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Se quiser saber mais, leia:
Bokar Rinpoche. Morte e Arte de Morrer no Budismo Tibetano. Tradução de Plínio Augusto Coelho, revisão técnica de Antonio Carlos da R. Xavier. Brasília: ShiSil, 1997.


2 comentários:

rafael disse...

No budismo a vida é um aprendizado para a morte. Você tem que aprender a morrer.

É bom eu tomar cuidado para um bedel budista não me pegar, porque pelo jeito eu estou cabulando todas as aulas... (rs)

Nat disse...

Rafa querido, estamos todos cabulando as aulas por aqui ;- )