30.1.08

O Samba da minha Terra

Não sou daquelas que dizem que vão ficar no Brasil pra sempre. Longe disso, sempre quis ir pra fora. Mas o Brasil tem coisas e lugares maravilhosos, que ainda são desconhecidos por quem mora por aqui. Conversando com um amigo, percebi que poucos conhecem as raízes do Brasil. A partir de hoje pretendo fazer uns resumos de como surgiram algumas manifestações artísticas e culturais genuinamente brasileiras, ou totalmente modificadas pela criatividade incomparável dos brasileiros, se tornando algo só nosso.

Claro que não poderia deixar de começar com o Samba, recentemente nomeado Patrimônio Imaterial do Brasil.

Tudo começou com os revolucionários da década de 30, com as suas pregações unificadoras. Para este fim, os revolucionários dispunham de uma mídia potente: O rádio, que, fez suas primeiras transmissões no Brasil nas comemorações do centenário da Independência em 1922. Em 1923 foi inaugurada a primeira estação de rádio brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, iniciativa do antropólogo Roquette Pinto e do cientista Henrique Morize.

Apesar do crescente número de emissoras, os primeiros programas de grande audiência só surgiram depois da Revolução de 30. O pioneiro nesse estilo foi o Programa Casé, colocado no ar e pela primeira vez em 1932. A Rádio Nacional adotou a programação de música popular do Programa Casé, tornando-se a emissora mais influente nos anos Getúlio Vargas, ouvida em ondas médias e curtas em todo o território nacional. Até mesmo a Hora do Brasil, programa criado durante o Estado Novo, incluía a divulgação de música popular em sua programação. Os programas de maior audiência eram transmitidos do Rio.

No início do século XX, a música popular ouvida no Brasil era composta por uma extrema variedade de estilos e ritmos. O próprio carnaval, descrito por Oswald de Andrade como “o acontecimento religioso da raça”, não era festa movida apenas por músicas classificadas como brasileiras. Ao contrário, os maiores sucessos da folia, desde que ela se organizou em bailes, eram polcas, valsas, tangos, fox-trot. Do lado nacional, a variedade também imperava: ouviam-se maxixe, modas, marchas, cateretês. Mas nenhum desses estilos musicais, apesar de suas modas passageiras, parecia ter fôlego suficiente para conquistar a hegemonia no gosto popular da época. Nenhum deles era considerado o ritmo nacional por excelência.

Foi só nos anos 30 que o samba carioca começou a colonizar o carnaval brasileiro, transformando-se em símbolo de nacionalidade. A ausência do “ritmo brasileiro”, até a vitória do samba depois da Revolução de 30, não significava que inexistisse um certo intercâmbio regional e entre classes sociais em matéria de gosto musical. A modinha prova exatamente o contrário, mostrando como um ritmo podia ser sucesso em todo Brasil, mas nem por isso se transformando em gosto hegemônico ou símbolo do que existe de mais brasileiro no Brasil.

O samba Pelo Telefone, composto coletivamente, entrou para história como o primeiro samba registrado.

Com a abertura da Avenida Central, muitas famílias negras e pobres que moravam no centro foram expulsas para a Cidade Nova e, depois, para os subúrbios e favelas. Mas no Centro ainda era possível encontrar uma mistura de todas as classes sociais, inclusive morando lado a lado, o que tornava rápida a circulação das novidades lançadas pelos diferentes segmentos da sociedade carioca.

Muitos laços uniam os segmentos distintos da sociedade brasileira (maçonaria, culinária, festas). O toque do pandeiro era reprimido por policiais e, ao mesmo tempo, convidado a animar recepções de um senador da República.

Nas primeiras décadas do século XX, os cinemas cariocas costumavam contratar músicos, incluindo nomes importantes, para se apresentarem em suas salas de espera, mas pouco antes do carnaval de 1919, a gripe espanhola devastou a cidade, matando vários músicos. Foi assim que Isaac Frankel, gerente do Cine Palais, já conhecendo Pixinguinha, por tê-lo visto tocar com o Grupo do Caxangá num coreto carnavalesco do Largo da Carioca, resolveu convidá-lo para apresentar-se na sala de espera do seu cinema, mas com uma orquestra menor.

Pixinguinha e Donga acabaram escolhendo oito integrantes do Grupo Caxangá, que foi batizado por Isaac de Oito Batutas. Como nessa época o samba ainda não aparecia como estilo musical, Isaac aparentemente cometia uma ousadia colocando uma banda como essa para tocar num dos cinemas mais elegantes do Centro da cidade. Principalmente por que a maioria de seus integrantes era de negros. A reação contrária foi imediata. Os descontentes existiam sim, mas seu número não deveria ser muito grande. Senão como explicar que, um ano depois de sua estréia no Cine Palais, os Oito Batutas tenham sido convidados oficialmente a se apresentar para os reis da Bélgica que estavam de passagem pelo Brasil? E pessoas como Rui Barbosa, Ernesto Nazareth e Arnaldo Guinle tenham passado a ir ao Cine Palais para ouvir os Oito Batutas? Entre outros tantos convites, e financiamentos para “turnês” no Brasil e na França.

A música dos Oito Batutas não era algo homogêneo. Mas todos os estilos se seu repertório, apesar de incluir gêneros totalmente urbanizados, podiam ser chamados, na época, de música sertaneja. Arnaldo Guinle financiara a excursão brasileira dos Oito Batutas para que, junto com João Pernambuco, fizessem uma coleta de músicas folclóricas. Portanto, existia um interesse pela cultura popular brasileira, que era confundida com um fenômeno sertanejo, que por sua vez era identificado com o folclore nacional.

Os interesses musicais dos componentes do grupo não se restringiam apenas ao que era rotulado como nacional. Durante sua temporada parisiense, em 1922, eles ficaram apaixonados pelo jazz, fato que motivou a compra de um saxofone para Pixinguinha. Até o final da década de 20 participaram de várias orquestras chamadas Jazz (bailes do tipo gafieira com repertório bem variado, realizados em sobrados do Centro, do Catete e de Botafogo) formadas no Rio de Janeiro. Essa paixão pelo jazz, foi criticada por jornalistas, inaugurando um tipo de crítica musical nacionalista e antiamericana que se tornou comum no decorrer do século.

O samba, naquela época, não era visto como propriedade de um grupo étnico ou uma classe social, mas começava a atuar como uma espécie de denominador comum musical entre vários grupos, o que facilitou sua ascensão ao status de música nacional.

No final do século 30 um grupo de jovens de classe média branca começou a ter uma participação decisiva na história do samba: foi a turma de Vila Isabel, que incluía nomes como Noel Rosa, Almirante e Braguinha. O radialista Haroldo Barbosa dizia que “a Vila Isabel do final dos anos 20 e início dos anos 30 seria comparável à Ipanema dos anos 60 em matéria de boemia artística de classe média.” Não demorou muito para o nascimento do “samba do morro”, a turma de Noel Rosa participou inclusive do processo de definição desse samba ”autêntico”. Sempre querendo conhecer o que produziam estes sambistas de morro, trocar informações com eles, somar experiências, Noel seguia peregrinando. Salgueiro, Mangueira, entre outros morros. Essas expedições acompanhavam a transformação da cidade, tanto em seu crescimento para os subúrbios quanto no surgimento de favelas em vários morros. A população pobre começava a viver realmente separada da população rica, ao contrário de antes, onde as coisas se misturavam na geografia do Rio.

O primeiro samba misturou muitas expressões musicais, logo foi “amaxixado” e, depois “depurado” pelos compositores do Estácio. O que era uma modificação no samba passou a ser o verdadeiro samba. A idéia da preservação do samba tem uma força considerável. Tanto que esse é talvez o único gênero da música afro-americana que não se misturou, em sua maioria quase absoluta, ao funk norte-americano ou que não adotou instrumentos eletrônicos em suas bandas.

A atuação dos governos de Getúlio Vargas foi decisiva com seu apoio, oficial ou não, ao samba e ao carnaval. Em 1932, ao mesmo tempo em que o Teatro Municipal abria as portas para realização de seu primeiro baile carnavalesco, o interventor no Distrito Federal (Rio de Janeiro), Pedro Ernesto, contemplou “subvenções mínimas de dois contos de réis” a todas “as chamadas Grande Sociedades, todos os ranchos carnavalescos, vários blocos e escolas de samba”.

Em 1935, Villa-lobos incorporou numa de suas monumentais apresentações de canto orfeônico, um samba de Ernani Silva, a quem conhecera quando foi assistir a um ensaio da Escola de Samba Recreio de Ramos acompanhado pelo educador Anísio Teixeira. E em 1936 um samba da escola Mangueira foi incluído na edição especial da Hora do Brasil transmitida diretamente para a Alemanha nazista. Os radialistas brasileiros não parecem ter pensado duas vezes: o samba já representaria a “nossa” cultura em qualquer situação internacional.

Todo visitante ilustre que chegava ao Brasil era apresentado ao samba. O interesse oficial pelo samba e pelas “coisas brasileiras” era mais do que explícito. O governo Vargas, por ser de seu interesse, começou o processo de nacionalização do samba, que em pouco tempo, alcançou a posição de música nacional e colocou em plano secundário os outros gêneros “regionais”. A vitória do samba era também a vitória de um projeto de nacionalização e modernização da sociedade brasileira. Na música popular, o Brasil tem sido, desde então, o Reino do Samba.

Para saber mais: Hermano Vianna, "O samba da minha terra", in O mistério do samba , Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

2 comentários:

Fred disse...

Muito legal Nat.
Estou esperando mais.
Beijão

Monsores, André disse...

Já não me sinto mais um completo analfabeto.

Continue até que eu me torne um expert, ok?

Beijos!