8.1.08

Par ou Ímpar


Atenção: Este é um conteúdo de ficção. Qualquer semelhança com fatos e acontecimentos da vida real é mera coincidência. Para quem acredita em coincidências, claro...


Fulana conheceu Beltrano pela internet... Resolveu fazer seu perfil meio de palhaçada, tinha um relacionamento estável, se sentia feliz, mas sua curiosidade indócil e sua vontade de conhecer outras pessoas, especialmente homens, a motivaram.

O amor para Fulana era como o jogo: Com o tempo e prática você acabava, mesmo sem saber as cartas do adversário, intuindo sua próxima jogada. Perder tempo com uma só pessoa fazia Fulana achar que estava perdendo oportunidades de conhecer adversários mais interessantes, e consequentemente, ter mais prazer em ganhar.

Foi num dia desses que ela recebeu um e-mail do Beltrano. Resolveu não responder, claro, mas achou o e-mail absolutamente encantador. Beltrano escrevia tão bem que provavelmente era feio, pensou ela. Na cabeça dela, quando as pessoas desenvolviam habilidades assim, como a de cantar mulheres com palavras escritas, era porque eram inábeis pessoalmente. E ela não estava de todo errada.

Um dia, ainda sem saber porque, Fulana resolveu responder ao e-mail de Beltrano. Depois de trocarem alguns e-mails, resolveram se falar pelo MSN. Beltrano nunca mandou uma foto para Fulana, mas ela achava até bom assim, mantinha o suspense e tornava a coisa mais excitante, embora ela jamais tenha se enganado que isso era indício de que ele não era grandes coisas...

Um dia, numa viagem do namorado, sem saber mais ainda o porquê, Fulana resolveu atender aos apelos de Beltrano para se encontrar com ele. Marcou num bar que tocava um samba, que sabia ser da preferência dele, além de ser perto de casa e bastante movimentado.

Fulana quis cavar um buraco no chão quando viu Beltrano. O sujeito era uma mistura insólita de duas coisas horrorosas que ela preferia nem lembrar. O pensamento mais positivo que conseguiu ter foi o de que ia beber sem pagar. E aliviada por esse pensamento, acabou tomando um porre... Beltrano era, no final das contas, um cavalheiro. Pagou a conta, a levou em casa e se despediu sem muitas delongas. Um alívio, pensou Fulana. No estado em que estava um beijo no rosto já teria sido uma hecatombe.

Passaram-se então dois meses de insistência de Beltrano. Os e-mails que já eram encantadores, se tornaram fantásticos e frequentes, e Fulana precisava se esforçar para lembrar que a cara do dono de tão harmoniosas frases não era propriamente a de um príncipe encantado. Mas que diabos, pensou Fulana, um homem que escreve tão bem deve valer mais do que aparenta. E lá foi ela com o cara outra vez.

Dessa vez, sendo de graça ou não, resolveu não beber demais pra prestar mais atenção no papo do rapaz. O Beltrano, que já não tinha a intimidação da primeira saída, resolveu partir para o ataque. Fulana meio na defensiva, e fazendo pose de boa moça (Mal sabe ele, ela pensava... Um mês que terminei meu namoro, estou é beliscando azulejos), se esquivava delicadamente. Na porta de casa ela deixou que ele achasse que estava roubando um beijo seu, e subiu. Deitou na cama afoita, e antes de dormir pensou que não estava tão necessitada assim. O homem beijava razoavelmente, era inteligente, e como todo homem inteligente era meio prepotente demais. Se ainda fosse bonito, tudo bem. Mas como não era, melhor deixar pra lá.

A determinação nunca foi o forte de Fulana. Depois de três meses de terrível insistência por parte de Beltrano, ela acabou cedendo a seus apelos, deficiente que era em dizer um não a tão bem feito pedido. As palavras sempre foram seu ponto fraco. Um poema inocente na infância tinham-na feito dar um estalinho no colega no recreio. Uma antologia poética do Drummond tinham-na feito dar mais do que um estalinho no colega do curso de francês e um poema do Vinícius declamado em pleno bar lotado, tinham-na feito ir para cama com o primeiro homem de sua vida.

Fulana era quase uma escrava sexual dos versos...

Sua avó sempre dizia que um é pouco, dois é bom, três é demais. No quarto chopp já tinha se arrependido amargamente de estar ali, no quinto chopp já estava querendo ir comprar um cigarro e voltar nunca mais, no sexto chopp já estava quase se jogando em cima do garçom (tinha uma cara de Hugh Grant encantadora), e no décimo chopp pensou que poderia não ter dado aquele vibrador que ganhou no inimigo oculto para a melhor amiga.

Beltrano dessa vez estava decidido. Queria porque queria ir para cama com Fulana, e usava dos piores argumentos, belíssimos poemas eróticos de Drummond, Pessoa, Vinícius, mas o golpe fatal foi Ferreira Gullar:

Coito

Todos os movimentos
do amor
são noturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia

Vem de ti o sinal
no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
em seu fosso:
na treva, lento,
se desenrola
e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
envolve-te
em seus anéis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te fende te fode

e se fundem
no gozo

depois
desenfia-se de ti

a teu lado
na cama
recupero a minha forma usual


Parecia que o desgraçado tinha decorado todas aquelas artimanhas de propósito, o que era bem capaz de ter feito mesmo. No final das contas, Fulana já trêbada e foguenta, resolveu deixar nas mãos do destino o desfecho para tão torta história. Com a cara mais tranquila do mundo, ela disse: _Vamos jogar par ou ímpar... Se eu ganhar, eu vou pra casa. Se você ganhar a gente vai pro motel. Eu quero par.

Deu ímpar.

Como Fulana era uma pessoa de palavra, lá foi ela para o motel com Beltrano. Os dois trêbados, caindo e tropeçando, subiram para o quarto, tiraram a roupa e começaram a se agarrar. Fulana deu um sorriso discreto e aliviado quando viu que pelo menos o dito cujo do dito cujo era razoável. Para não pensar demais, foi logo com a boca na botija.

Enquanto ia e vinha por ali Fulana pensava em como gostava de fazer isso e conseguia até pensar que no final das contas o cara estava servindo para alguma coisa. A noite estava saindo muito melhor do que a encomenda.

Outra coisa que sua avó sempre dizia era para nunca cantar vitória antes do tempo. De repente, o ir e vir já não demandava muito esforço. Sentiu a coisa escorregando e quando foi olhar pro dito cujo (o de cima) viu que o mesmo se encontrava dormindo. Melhor, roncando... Já tinha tido vários homens que broxaram na hora, principalmente bêbados, mas dormir, nunca, jamais. Viado, pensou. Viado, falou. Viado, gritou. Infelizmente ainda não tinha se livrado dessa péssima e preconceituosa mania de xingar um homem de viado quando queria falar a coisa mais horrorosa possível para ele. O viado nem se mexeu.

Fulana não pensou duas vezes. Abriu o frigobar, ligou o Canal Adulto, e se divertiu sozinha. Quando Beltrano acordou, Fulana já estava longe, trocando seu livro do Ferreira Gullar pelo vibrador da amiga...

Moral da história:
"Sorte no jogo, azar no amor" é só um ditado babaca.
E tem sempre que considerar a outra parte.

5 comentários:

Ricardo C. disse...

Só posso dizer: você é uma figura, Nat!
Beijos, ainda mais bem-humorados por conta do teu conto!

Andre Blak disse...

Só a Internet pra nos proporcionar momentos mágicos demicão como esse. Pelo menos isso vira um conto delicioso nas suas mãos.

Nat disse...

Ricardo, que bom que pude dar uma levantada no humor, não é? Dar risadas é o que conta.

André, tava sumido tu. Como eu disse antes qualquer semelhança é mera coincidência ;- )

Sérgio Inácio disse...

Muito bom. Feliz ano novo pra ti e sorte no amor e no jogo.

Nat disse...

Ô Sérgio, muito obrigada. Feliz ano novo pra ti também. E o que importa é isso mesmo, sorte em tudo ;- )