23.2.08

A Casa da Paixão

"Da terra, Marta escolhia qualquer recanto. Fechava os olhos, tropeçando contra pedras, galhos livres, perdendo às vezes a esperança. Até não suportar o próprio suor e exclamava:

_ Aqui conhecerei o repouso.

Amava o sol, sob sua luz imitava lagarto, passividade que os da própria casa jamais compreenderam, parecendo-lhes proibido que se amasse tanto o que ninguém jamais amara tão devotada. Mal se sentava, as pernas abriam-se escorregadias sobre o solo, exigindo o esforço da pele ressentida, extraía da areia, da grama, o que fosse - sua aspereza. Dava-lhe gosto olhar as pernas escancaradas sem que o homem ocupasse suas coxas, a obrigasse tombar sentindo mágicas contrações. O exercício de usufruir alguma coisa próxima ao prazer distinguia-a. O sol como que amorenava a pele e aquela dor intuída desde menina deixava-a perplexa, vinha. Pela identidade que descobriu e a certeza de evoluir sempre que se entregasse exaltada à sua paixão. A ardência e sua jornada de dor tomando-lhe os dedos dos pés primeiro, uma delicadeza de sombra. De tal modo que chegava a pensar se não era frio o que sentia então. Até que avançando o calor pelas pernas afora, a cada pele palmilhava, e bem valente, parecia-lhe absurdo que o precipício para tantas andanças viesse a ser o próprio sexo, dourado e suas penugens trevas projetadas para a frente, como lhe ordenavam os mandamentos.

Proclamava: o triunfo do sol, e tombou colorida, pele de ardências na grama, não era o gozo exatamente que palpitava o corpo, certa luz poderosa obrigando a cerrar os olhos, sob a ameaça da cegueira. para que pudesse e sempre enxergar objetos a que indicasse nomes, folhas, frutas, e as mastigaria galgando árvores, algumas arrancando com a boca, através da mordida simples avaliando o império da sua mandíbula nervosa trabalhando a fruta, e a deixaria perdida na árvore, com sua ferida aberta - era sim a descoberta do nascimento, uma longa visita ao útero da terra, seu sexo, como que o ungindo.

... Apenas seu corpo conhecia a estranha exaltação, pertencer aos adoradores do sol. Sempre inventara atrativos, ainda que a própria mão jamais escavasse o sexo em busca dos canais nobres, lábios minúsculos entreabertos expondo o grão maior, do qual partiam ondas sonoras, zonas de detecção proibida.

Seus dedos mágicos trabalhavam em torno apenas e nos momentos penosos consentiu, por misericórdia e fidelidade ao sol, que os dedos, imitando garras, se ampliassem cobrindo-lhe o sexo como o tecido branco do casulo. Exijo coragem e natureza consente. Sem a imagem, cederia a qualquer galho, consentindo a ruptura desleal. Deixava então que a proteção bendisesse a sua casa, chamava de casa ao recanto difícil, impregnado de líquidos, também águas de um rio chinês.

Imaginava o homem auscultando o seu corpo. Primeiro a boca, seus outros instrumentos haveriam de trabalhar com a precisão da agulha injetando alento nas artérias. Não o queria ainda, antes devia selecioná-lo livre, também ela o peixe que se alimentava da agonia de sua raça.

Sempre se destinou às raízes do homem. Às mais profundas, acrescentava sem pressa. Teimosia estimulando as manhãs, ao levantar-se. Cederia sim, antes a resistência, e sorria compadecida, sua promessa de selvagem. Os adventos."

Nélida Píñon

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