3.2.08

Como se constroem raízes

Nesse meu intuito de contar um pouco das manifestações culturais do Brasil, um pouco das nossas raízes, é fundamental que se entenda como chegamos no ano de 2008 com as referências de história e cultura que temos. Perdoem-me os preguiçosos, mas este post vai ser meio longo...

O Brasil só começou a ser visto como um "reino unido" após a chegada da Côrte, em 1808, mas foi depois da Independência, em 1822, que o processo de transformar o Brasil em nação foi iniciado. A idéia era conseguir convencer os filhos de portugueses nascidos no Brasil de que eram brasileiros, e depois que eles, os negros e os índios eram iguais. Se todos se identificassem com o Estado Nacional, ficaria mais fácil aceitar o poder desse Estado. A fórmula utilizada para isso foi a da criação de um passado comum. Era preciso documentar a História do Brasil, do Estado e da língua comum às diferentes raças e etnias que aqui habitavam.

Em 1838 é criado o IHGB, o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, com duas Academias (uma de História e uma de Geografia) com 25 acadêmicos cada uma, escolhidos entre as melhores famílias da cidade do Rio.

Os acadêmicos do IHGB começaram então a reunir documentos históricos, produzidos pelo Estado. Em 1840 foi lançado um concurso: "Como se deve escrever a História do Brasil?", vencido pelo Von Martus, que defendia a idéia de escrever uma História do Brasil através da mistura das três raças existentes, viajando pelo país inteiro para conhecer os detalhes.

O fato é que desde àquela época quem ganhava não levava, e quem acabou escrevendo a primeira versão da história da Brasil foi Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, que apesar do sobrenome, era brasileiro. A História escrita por Varnhagen foi um elogio à colonização portuguesa, dizendo que esta permitiu a evolução dos negros e dos índios, e que nossa independência se deu pela intenção do príncipe português evitar que tívessemos que voltar a ser colônia. Varnhagen ainda passou longe do mito do "bom selvagem", dizendo que os índios não tinham lei, religião, família nem pátria. O sentido da colonização portuguesa teria sido o missionário, civilizatório, e os negros não deveriam ter vindo para o Brasil, porque a escravidão destrói os laços familiares.

Contemporâneo a Varnhagen, Capistrano de Abreu foi seu maior crítico. Tanto que, embora fosse historicista como o primeiro, acabou escrevendo uma história do Brasil do ponto de vista do brasileiro. Para Capistrano, o povo brasileiro era o sujeito de sua própria história. Sua versão foi a de que nossa identificação com o país se deu através das revoltas, porque nelas encontrou-se um inimigo comum (os portugueses). Capistrano também foi o primeiro a perceber que a independência política não era a mesma coisa que a formação de uma identidade, o que só aconteceria depois de anos de valorização da identidade nacional. Mas Capistrano também era um pessimista, e ao importar as idéias européias vigentes estava nos condenando a um triste destino.

Em 1933, Gilberto Freyre publica seu livro histórico "Casa Grande & Senzala".
Nele Gilberto Freyre pôde exercitar toda a sua metodologia exótica, que incluía diários íntimos, cartas, livros de receitas, autobiografias, confissões e notícias de jornais. Com um estilo vigoroso e o uso de muitas expressões populares, GF conta a sua história através da tese das três raças: os brasileiros seriam formados por índios, negros e brancos, que se relacionam sem nenhuma desigualdade profunda. Para GF a família era o núcleo da sociedade, e seria uma continuação do Estado. O modelo econômico do Brasil teria resultado numa dominação patriarcal, e a desigualdade social era fruto da desigualdade econômica do país. Para Gilberto Freyre, a escravidão no Brasil teria sido muito melhor do que a dos EUA, integrando melhor o negro à sociedade. Ignora as revolucões escravagistas, mostra uma sociedade onde todos acham a hierarquia uma coisa natural, não lutando por igualdade. Não difere a miscigenação da democratização racial, não considerando o primeiro um fator biológico e o outro sociopolítico.

Gilberto Freyre foi polêmico, sem dúvida, mas superou as explicações de deterministas geográficos. Instalou a crença de que o discurso sociológico poderia dar conta das questões sociais brasileiras, e combinou, como ninguém, uma linguagem erudita e popular ao mesmo tempo.

Nesta época, Sérgio Buarque de Holanda começava a escrever seu livro, Raízes do Brasil, que seria lançado em 1936. Discípulo de Weber, Sérgio Buarque não foi um criador de polêmicas graves, foi o mais criativo em utilizar as teorias alemãs que ressaltavam o particular, o único, a singularidade. Para SBH, o brasileiro era um neo-português, mesmo tendo índios e negros, pois continuava agindo como um descobridor. A revolução brasileira não se daria através das elites nem em um golpe de Estado, e sim com uma aproximação lenta entre o Estado e a sociedade. Era totalmente contra à ditadura Vargas, e foi várias vezes protegido pelos amigos da USP, onde era professor, durante a repressão. Foi um dos fundadores do PT, e acreditava que a modernização brasileira partia da separação entre o afetivo e o racional, entre o privado e o público, e só se daria com a mudança na mentalidade e o estabelecimento de regras universais que atingissem todos, independente de origem familiar e relações pessoais e políticas. Para Sérgio Buarque, a família não poderia ser modelo moral de poder, porque família forte é um obstáculo à constituição do Estado Moderno.

Sérgio Buarque ampliou o debate sobre o passado e o futuro do Brasil. Fez uma obra conceitual, documentada, sensível, democrática e otimista, mas era considerado um historiador muito erudito. Não identificou quem seria o sujeito da revolução brasileira, e não estimulou nenhum setor da sociedade a sê-lo.

Em 1933, Caio Prado Jr. lançava sua "Evolução Política do Brasil". Começava ali uma trajetória que o levaria ao posto de maior historiador brasileiro após 1930. Intelectual do movimento operário, marxista, comunista, lutou pela liberdade em níveis além dos limites do liberalismo. Se perguntava que país era este que não tinha passado por uma revolução burguesa nem comunista. Pregava a aliança entre os trabalhadores e a burguesia contra o que chamava de Imperialismo. A dominação de Portugal, EUA e Inglaterra teria sido escolha da elite, que não poderia ser sujeito da história. Só as classes sociais em luta poderiam valorizar as forças produtivas e fortalecer a nação. Metódico e acadêmico, localizou e explicou desigualdades, diversidades e contradições sociais. Rediscutiu conceitos e foi o primeiro a avaliar as dificuldades em se falar do Brasil com conceitos produzidos em outros contextos.

Caio Prado era filho da aristocracia cafeicultora paulista e membro ativo do PCB. Fez uma história econômica, e isto foi motivo para muitas críticas. Mas foi o primeiro a se questionar quais conceitos deveriam ser criados para analisar o Brasil, fugindo da regra básica da adaptação de teorias européias ao nosso contexto. Foi o primeiro também a fazer uma síntese econômica, histórica e política, não podendo isolar nenhum dos três fatores para contar a nossa história. Lançou uma política de industrialização, urbanização e desenvolvimento tecnológico que foi importantíssima para a evolução do país.

Bem, no próximo post eu vou falar da evolução do conceito de cultura brasileira em relação à evolução do conceito de história do Brasil.

Para saber mais, leia:
BUARQUE, Sérgio. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. São Paulo: Global, 2005. 50 ed.
MOTA, Lourenço Dantas (org.) Introdução ao Brasil: um banquete no trópico. São Paulo: SENAC, vol. 1 (1999) e vol. 2 (2000).
PRADO JR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1977. 15 ed.
REIS, José Carlos. As identidades do Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2006. 8 ed.


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