3.2.08

Cultura Popular. Brasileira?

Com certeza todo o texto que você leu que fala de cultura popular começa esperando definir o que é cultura, e o que seria cultura popular. Fica bem óbvio, por conta disso, que é dificílimo conceituar cultura popular, porque cada um tem a sua interpretação. Para não fugir à regra, vou começar este texto com as definições de cultura que mais me agradam, e as que mais interessam ao tema desse post.

O termo cultura, segundo Marilena Chauí, vem do verbo latino colere que originalmente era utilizado para o cultivo ou cuidado com a planta. Com o tempo, o termo foi empregado para os cuidados com pessoas, com deuses, o culto. "Cultura era então o cuidado com tudo que dissesse respeito aos interesses do homem, quer fosse material ou simbólico. Para a manutenção desse cuidado era preciso a preservação da memória e a transmissão de como deveria se processar esse cuidado, daí o vínculo com a educação a o cultivo do espírito."

É certo que o conceito de cultura evolui com o tempo. Até o Séc. XVIII, segundo Peter Burke, o conceito de cultura estava mais ligado às artes, aos livros e à música, mas hoje, "seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros usam o termo 'cultura' muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser apreendido em uma dada sociedade, como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante".

Esta interpretação não é uma unanimidade.

Segundo Nestor Canclini, o relativismo cultural, que impede que se possa comparar as culturas, pois cada uma tem suas particularidades, conseguiu equiparar as culturas, mas não explica as suas diferenças. Uma outra questão que Nestor Canclini coloca é a de que esse conceito não hierarquiza os fazeres humanos ditos como cultura, nem atribui a eles um peso dentro de uma determinada formação social.

Eu vou ficar então com a definição proposta por ele, que diz que a cultura é a


"Produção de fenômenos que contribuem, mediante a representação ou reelaboração simbólica das estruturas materiais, para a compreensão, reprodução ou transformação do sistema social, ou seja, a cultura diz respeito a todas as práticas e instituições dedicadas à administração, renovação e reestruturação do sentido (Canclini, 1983:29)."


A busca por uma cultura comum aos brasileiros se deu quando da busca pela identidade nacional comentada anteriormente. No começo, todos os sentidos que se dava ao termo cultura eram de acordo com o caráter do país, que naquela época, em comparação aos países industrializados, nos rebaixava a um país subdesenvolvido, misturado, sem coesão. Isto porque os grandes estudiosos da época seguiam a linha evolucionista, e nos colocavam como seres atrasados em relação aos outros. Neste contexto aparecem três grandes autores, Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues. Para os três, a raça e o clima influenciavam na "incapacidade civilizatória do Brasil". Sílvio Romero chegou a afirmar que esta incapacidade se dava por conta dos "ventos alísios" que tínhamos por aqui.

Mesmo com os pensadores que seguiam a linha romanticista, a mestiçagem do Brasil ainda era considerada um fator negativo, visto que "uma configuração social estabelecida a partir de uma herança biológica dava pouca margem a mudanças, produzindo uma espécie de travejamento que teria de ser superado."

Essa superação veio com o Casa-Grande & Senzala, do Gilberto Freyre, quando o conceito de raça se deslocou para o conceito de cultura, e consagrou o mestiço como um "ente nacional".

Já na Era Vargas, depois de 30, o interesse era de que se produzisse um ideal de homem nacional, assim como de identidade e sentido de nação. Foi nesta época que grandes intelectuais trabalharam para o governo no sentido de resgatar tradições populares. O mais ativo nesta questão foi Mário de Andrade.

Mário de Andrade, em 1938, era o diretor do Departamento de Cultura de São Paulo, e formou a equipe da Missão de Pesquisas Folclóricas, que passou pelos estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão e Pará, coletando instrumentos, gravando, fotografando e estudando músicas que só eram cantaroladas. Mário de Andrade não foi na expedição, mas tinha seu amigo Luís Saia como chefe da missão.

A missão não pôde concluir seu trabalho, pois Mário de Andrade foi demitido antes que ela terminasse e eles tiveram que interromper a viagem, mas, mesmo assim, a expedição retornou com 1.500 melodias anotadas, seis rolos de filmes, documentando danças dramáticas e rituais folclórico-religiosos, centenas de fotos e sete mil páginas de diário e letras de música e cerca de 600 objetos. Pouco se aproveitou desse material, sendo lançado apenas um conjunto de cinco volumes intitulado Registros Sonoros de Folclore Musical Brasileiro.

Já na déc. de 50, os principais estudiosos das ciências sociais e das questões culturais do Brasil estavam reunidos no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros, fundado em 1955 pelo presidente Café Filho), os chamados isebianos, entre eles Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier, Alberto Guerreiro Ramos, Nelson Werneck Sodré, Cândido Mendes e Álvaro Vieira Pinto.

Os Isebianos discutiam os processos do desenvolvimento do Brasil, e foram bastante influenciados/manipulados pelo governo de Juscelino Kubitscheck. Eles viam a questão cultural do Brasil com os mesmos critérios que usavam para a realidade brasileira como um todo: cultura alienada, colonialismo e autenticidade.

Neste sentido, a colonização do Brasil foi entendida como um processo necessário que deveria ser superado, e que a identidade nacional não seria encontrada no passado, mas sim no que viria a ser. Foi então que a cultura nacional desvinculou-se do conceito de folclore, que ficou restringido ao passado, e da identidade nacional. A cultura nacional passa a ser o instrumento possibilitador da ruptura do estado de subdesenvolvimento que o Brasil vivia na época. A cultura se torna um instrumento.

E foi com essa idéia que surgiu o CPC, o Centro Popular de Cultura, fundado pela UNE nos anos 60, e que tinha como principais nomes Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Ferreira Gullar, Vianinha, entre outros. O CPC chegou a criar uma gravadora, uma editora, e produziu alguns filmes importantes. O trabalho do CPC foi incentivado pelo Estado Novo, para que os intelectuais se encontrassem com a massa, porque o povo, sem ajuda, era incapaz de apreender a cultura e formar uma identidade nacional. Mas o CPC tinha teorias reformuladoras, revolucionárias, e foi fechado pela Ditadura em 1964. Sobre o papel do intelectual neste processo, Ferreira Gullar disse:

"A expressão ‘cultura popular’ surge como uma denúncia dos conceitos culturais em voga que buscam esconder o seu caráter de classe. Quando se fala em cultura popular acentua-se a necessidade de pôr a cultura a serviço do povo, isto é, dos interesses efetivos do país. Em suma deixa-se clara a separação entre uma cultura desligado do povo, não-popular, e outra que se volta para ele e, com isso, coloca-se o problema da responsabilidade social do intelectual, o que o obriga a uma opção (Gullar, 1965:01)."


Foi depois do Golpe, em 64, que se formou uma indústria cultural no Brasil, que, junto com o Governo, acabou "criando" uma identidade nacional. Neste contexto, a cultura-identidade-nacional se misturou com a cultura-popular-de-massa, primeiramente pela televisão e depois a partir de outros meios, inclusive com o cinema, através da Embrafilme.

Como vocês podem concluir, muito pouco mudou desde 1964 até os dias de hoje, 34 anos depois. Só em 1985 é que foi criado o Ministério da Cultura. De lá pra cá talvez a iniciativa mais importante do MinC em prol da divulgação e preservação da cultura nacional tenha sido a Lei Rouanet, de 1991.

A discussão hoje em dia no Brasil, gira mais em torno da gestão cultural, quem deve fazê-la e como deve ser feita. Este tema eu deixo para o próximo post.
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Esse post é uma adaptação do texto Cultura Popular: Pequeno Itinerário Teórico, de Ricardo Moreno de Melo.

Para saber mais, leia:
BURKE, Peter. Cultura popular na idade moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade.São Paulo: EDUSP, 2003.
CHAUI, Marilena. Conformismo e resistência, aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 198
GULLAR, Ferreira. Cultura posta em questão. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965.
ROMERO, Sílvio. Estudo sobre a poesia popular do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1977

6 comentários:

Clara disse...

Está excelente este post sobre a cultura popular. Muito bem escrito, claro e com umas referências bibliográficas muito interessantes. Fica a dica.
Beijinhos.

Nat disse...

Obrigada Clara, por ter vindo de Portugal aqui comentar hehehe
Bjs

Moreno disse...

Bom, meu nome é Ricardo Moreno e sou autor do texto citado acima (Cultura popular: pequeno itinerário teórico. Fiquei muito contente de ver meu texto adaptado e postado neste blog. Parabéns para o autor!

morenoricmelo@yahoo.com.br

Déborah disse...

Nat, parabéns!
Fiquei muito feliz ao encontrar várias definições que eu precisava a respeito de cultura popular, CPC e outros. Suas referências vão me ajudar bastante em meu trabalho de diplomação. Faço Comunicação Institucional na UTFPR e minha proposta terá muita cultura (popular, não-popular) envolvida.
Pretendo acessar mais vezes o seu blog!

Lia Ferreira disse...

Gostei muito do texto, por apresentar e maneira clara e coerente questões de grande profundidade.Sem dúvida voce esta coberta de razões se desde sempre nós tivéssemos apreendido nossa cultura, hoje teríamos avançado muito em nossas relfexões.
Outra cosia não se preocupa não são por meio dos devaneios que teórias inteiras foram construidas.Parabéns
Dra. Luzia A. Ferreira

Lia Ferreira disse...

Muito bom seu texto. É claro e consegue apresentar um panorama da Cultura Popular bastante subsidiado teoricamente.
Não se preocupe pois muitos foram os devaneio que permitiram surgir nova teorias. Penso que no Brasil necessitamos ter multiplicadores de devaneios que nos ajudem a pensar nossa cultura.
Parabéns
Dra. Lia Ferreira