2.2.08

Mindinho

_ Que merda essa sua mania de arrotar na minha cara suas concepções de vida, como se tivesse se empanturrado de frango com farofa, regado à muita coca-cola, e não conseguisse segurar, em plena mesa de almoço de família repleto de gente, a sua vontade de falar seu nome grotescamente arrotado pra cima das pessoas, como se isso fosse fazer você mais importante aos olhos dos seus. Como se eles não soubessem seu nome, e você não estivesse ali só pra fazer número porque também faz parte da coletividade escrota a que dão o nome de família pra parecer algo bonito, coerente e decente.

_ Pode ser que eu arrote o que penso, assim como também peido diversas vezes minhas filosofias de merda, como você diz. Mas só faço isso porque você precisa se lembrar a cada segundo dos porquês das suas malditas escolhas infelizes.

_ A sua inteligência me irrita.

_ Minha inteligência no começo servia para te fazer se sentir superior aos outros. Depois, minha inteligência serviu para te ajudar nos seus anseios espirituais de babaca imaturo. Agora, minha inteligência não te serve pra nada, te irrita até, porque você só quer mostrar aos outros que pode comer uma mulher mais gostosa do que eles.

_ Odeio você me conhecer melhor do que eu mesmo. E odeio mais ainda que você consiga fazer isso com todas as pessoas que estão ao seu redor. Odeio o fato de você ser sensível aos outros de tal maneira que se esqueça de si mesmo, ou que tire dos outros o que mais gostou neles, e absorva isso como quem traga um cigarro e acumula o podre da fumaça no pulmão, para depois tirar um raio-x e mostrar aos outros como tua vivência é guardada no âmago do teu ser.

_ Se você fosse um cara normal, eu entenderia. Iríamos agora procurar a mulher mais gostosa do mundo, daquelas que acham que entendem os outros, que são divertidas, educadas, que dançam funk como se o mundo fosse acabar naquele dia, e que fazem com que homens como você sintam tesão ao vê-las dançando, mas que se fossem suas acompanhantes, iriam dar um jeito de disfarçar, ou puxar-lhe a saia para baixo, tentando botar cabresto em bicho indomável, dizendo aos outros que a mulher é gostosa pra caralho, mas não é com quem você reparte as inseguranças que pintam no café da manhã. Que não são mulheres para casar. Você vai ficar louco com uma potranca dessas, vai se esgotar no sexo com tua capacidade de macho-alfa, vai dar a ela tudo que nunca deu a mim. Mas ela não vai te dar nada em troca, e você vai voltar amanhã com cara de culpado e derrotado, e sou eu que vou juntar os cacos, como quem faz um quebra-cabeça, e vou reparar que a peça do meio, o falo inevitavelmente satisfeito, não vai querer se encaixar ao resto das bordas aparadas. Você se esquece que quando o instinto animal nos abandona, é o cérebro o responsável pelas ilusões que nos mantêm vivos.

_ Eu odeio você, eu odeio...

_ Você não nasceu para se satisfazer com pequenos gemidos como resposta. Não nasceu para se satisfazer com meia dúzia de palavras sensatas num universo de infinitas possibilidades gramaticais. Não nasceu para envidraçar seu corpo na cadência do tuc-tuc-tuctz. Não nasceu para ter téminos de relacionamentos fáceis, onde ela vai pra uma boate se acabar e você fecha a porta da sua casa e se afoga no whisky, pra no dia seguinte esquecer que ela existiu e começar a nova caçada. Você se esquece que não nasceu para ser feliz. Você pode não querer ficar comigo, isso é um direito seu. Mas não dá para entender que você queira destinar a essas mulheres o vazio que você separou para oferecer ao mundo, se já tinha começado a me mostrar uma parte do emaranhado de sentimentos, idéias e construções solitárias que você cultivou ao longo dos anos, imaginando nunca querer expô-los a ninguém. Mas é essa vontade de me mostrar o seu oculto, essa vontade de me comer querendo me ver pelo avesso para ter a certeza que não lhe escondi nenhum argumento na discussão de ontem, é essa vontade de arrancar de mim as minhas concepções de vida de merda que você já teve e que tanto te fizeram mal, é esse querer que eu não sofra com as cabeçadas na parede que te quebraram a cabeça, e sangram pra cacete. É isso que nos faz "estar junto". É esse o nosso amor.

_ O nosso amor é o seu dedo mindinho. Quando eu olho para as suas mãos, tão elouquentes, seu dedo em riste no meu peito me desafiando, suas palavras afiadas querendo me decepar a cabeça, minha triste posição na defensiva de filho da puta que sei muito bem ser, eu olho pro seu mindinho, sempre ali, insignificante, submisso, e percebo que se ele não estivesse ali, completando a autoridade dos outros com a sua submissão, sem pedir nada em troca, apenas estando ali, sua mão não seria completa. E aí eu sinto, e sei, que eu te amo mais do que tudo na vida. Porque ainda bem que a sua submissão é apenas um quinto da sua essência...

3 comentários:

Monsores, André disse...

Caralho,

Vou fumar e pensar em dedos.
Certamente é seu melhor texto.

Nat disse...

Obrigada, André.

Medina disse...

Nat,

que porrada, que porrada!

Não sou um assíduo leitor por falta de tempo, mas confessou que esse verdadeiro "pé-no-peito" foi dos melhores textos que já li.