9.2.08

Urbi et Orbi

Mundo, do latim mundu: limpo, puro.

Abriu os olhos e tudo ainda girava. Fechou os olhos depressa e sentiu o corpo num movimento de rotação contínua. Pé ante pé, tentava se equilibrar na rapidez com que fluía o chão. Tentou puxar o freio, posicionou o joelho, escorou as mãos. E nada.
Se sentiu pesada, imunda, com quilos de sujeira a deixar rastro de poeira enquanto tudo corria mais que ela.
Raspou os pelos da superfície, da cabeça, esfregou os poros da pele até incharem de sangue, escamou a carapuça que lhe servia, cortou as unhas, arrancou as cutículas, enfiou cotonetes de algodão em todos os buracos latejantes.
Amarrou o saco de lixo com três nós apertados, abriu a porta, abriu a lixeira, jogou o saco, fechou a lixeira, fechou a porta. Virou a chave, fechou a tranca. Esperou.
Ela sabia que ia saber quando tivesse acontecido. Nada.
Abriu a tranca, abriu a porta, fechou a porta, desceu as escadas, abriu o portão, fechou o portão. Fechou os olhos, o sol era insuportável. Pé ante pé, tentava se equilibrar na rapidez com que fluía o chão.
Chegou no ponto, levantou os braços, abaixou os braços, abriram a porta, entrou, fecharam a porta, passa a roleta, segura no banco, senta no banco. Do seu lado esquerdo a vida passava devagar.
Levanta do banco, levanta os braços, puxa a corda, abaixa os braços, segura no banco, abriram a porta, saiu, fecharam a porta.
Pé ante pé, caía na rapidez com que fluía o chão.
Não levantou, de joelhos caminhava lentamente, escorando o chão com as mãos, se impregnando da imundície dos pés daqueles que sempre se equilibraram, alheios ao fato de que tudo corria muito mais que eles.
Apóia uma mão, a outra. Levanta. Passa um joelho, o outro. Senta. Olha pra baixo, pra cima, fecha os olhos. O sol era insuportável. Apóia um pé, o outro, tentava se equilibrar na rapidez com que fluía o chão. Nunca tinha conseguido, sempre caía. Mas não importava mais, cair agora era tudo que queria.
Do seu lado esquerdo a vida passava devagar. Embaixo, a água. A bendita água que inundava, desinfetava, limpava, transcendia. Capaz de disfarçar a sujeira de mais um corpo arremessado aos seus braços.
Tinha finalmente acontecido, ela sabia.

2 comentários:

Clara disse...

Ja te disse mais do que uma vez, mas não me canso de te dizer que escreves maravilhosamente bem.

Nat disse...

Clara, assim eu vou inflar tanto meu ego que vou sair voando por aí hehehehe
Obrigada, mesmo!