31.3.08

Seria um dia como qualquer outro não fosse um pequeno detalhe que me deixou deprimida.
Era um ônibus como qualquer outro que pego todos os dias pra voltar pra casa. Na minha frente tinha uma mulher lendo alguma coisa, como muitas vezes tem.
Às vezes me canso de olhar a água embaixo da ponte e dou uma olhada nos que me rodeiam. Muitos dormem, cansados do trabalho. Já vai dar onze horas da noite e todo mundo quer chegar em casa rápido.
A moça do banco da frente continua folheando a revista, anotando uma coisa ou outra que achou importante. Olho para o título da revista "Conhecimento Cristão" - livro do professor. Imagino que a moça deve ser professora de catecismo, os capítulos da revista são "Deus é onipotente", "Deus é onipresente", e assim por diante. Começo a prestar mais atenção, enquanto ela puxa papo com a moça ao lado dela. Uma conversa sobre o Senhor se inicia, e aí vem o choque com o que leio.
No capítulo "Você conhece Deus?", encontro a seguinte frase:

"Muitas pessoas acreditam que existem outros deuses, mas nenhum deles é como o NOSSO Deus. Os outros são falsos."

Voltei meus olhos para o mar. Por alguns minutos perdi meu interesse nas pessoas.

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30.3.08

Pegando onda

De vez em quando me pego lutando contra meu próprio preconceito. Ás vezes é só um pensamento estranho, rápido, mas que luto pra identificar, controlar e não repetir.
E não é só racismo o que classifico como preconceito aqui. Na verdade, racista é coisa que não sou. Mas não posso negar que às vezes me vem uns pensamentos do tipo: "Deve ser um babaca acéfalo" quando vejo um marombado na rua, como se turbinar músculos fosse atrofiar cérebro. É claro que há quase uma relação obrigatória nisso, pela escassez de tempo para se dedicar aos dois, mas não deixa de ser um preconceito. Existem marombados
por aí que são inteligentes, e talvez não sejam uma exceção pra comprovar a regra.
Existem outros tipos de pré-julgamento que faço, geralmente associados a roupas curtas, decotes indecentes e cabelos oxigenados. É provável que existam mulheres que gostam dos cabelos daquela cor, estilo Suzana Vieira deplorável na novela das oito. Talvez lhes tenha faltado dinheiro para aumentar os shorts, sei lá, são tantos os fatores que eu não posso tecer teorias de verdade absoluta sobre essas pessoas.
Mas tem uns preconceitos bobos que não merecem tanta graça. É quando alguém anda atrás de você na rua e pela cara você acha que ele vai te assaltar, é o cara que sobe no ônibus com uma roupa esquisita e você acha que ele é bandido. Esse tipo de pensamento hoje em dia é mais do que banal, é cruel. É preconceito puro, e não com negros, como dizem os ativistas da causa, mas sim com pobres. Um dia eu estava no ônibus passando pela praia de Icaraí, um calor infernal, a praia recém-liberada pela Feema, e vários garotos com prancha de surf tentando pegar onda na baía, quando o point do surf em Niterói é em Itacoatiara, quarenta minutos de ônibus e oásis de casas belíssimas dos endinheirados.
Uma senhora do meu lado, daquelas bem senhorinhas mesmo, cabelos brancos, fazendo tricô, devia ter mais de setenta anos, verbalizou o que todo mundo estava pensando na hora, ao olhar a cena, com cara reflexiva e acabou pensando alto (a senhora certamente era surda pra pensar naquela altura, todo o ônibus ouviu). Ela disse:

_ Que coisa! Até mar de pobre é sem onda...

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28.3.08

Puta, vide Bula.

Texto proibido para menores de 18. Mais uma das pérolas que leio sempre lá no GP Guia. O autor é o Colega_X.

Se você tem mais do que isso e concorda com todos os termos blá blá blá whiskas sachê, clique aí no Mais...

Se você tem menos de 18 seja bonzinho e finja que vai me obedecer e não vai clicar no Mais..., ok?

APRESENTAÇÃO: PUTAS são apresentadas em embalagens loiras, morenas, negras e mestiças, em diversos tamanhos e formas variadas, dependendo da necessidade do tratamento. As vias de administração podem ser oral, vaginal e/ou anal. O uso tópico do produto é administrado na forma de “foda espanhola” e relaxamento manual básico. O produto é disponibilizado em sites especializados, jornais, puteiros, breguinhas, e no pistão.

COMPOSIÇÃO: Indivíduo do sexo feminino, da espécie homo sapiens ou quasi-sapiens, primata bípede pertencente à classe mammalia, o que condiciona à ocorrência de tetas nas fêmeas. No que interessa aos aspectos terapêuticos, são providas basicamente de mãos, cavidade oral, vulva, vagina e ânus. A indisponibilidade de algum dos componentes não inviabiliza o uso satisfatório do produto. Disfunções em órgãos acessórios e alterações anatômicas são bem toleradas pelos pacientes, sendo relatada a utilização de mudas, caolhas, pernetas, banguelas, monotetas e anãs. Mega-hair e silicone são os itens opcionais, não naturais, mais comumente encontrados.

INFORMAÇÕES AO PACIENTE: A Puta é recomendada no tratamento de estados de solidão crônica ou aguda, como atenuante de crises existenciais em processos de separação conjugal, em casos de indisponibilidade temporária ou permanente de uma “fodinha” básica, e quando a patroa ou a namorada não estão dando conta do recado. Pode também ser utilizada para efeito recreativo em eventos comemorativos. Pacientes demonstraram redução significativa de estados de ansiedade, irritação, depressão e sintomas associadas a crises de “fodistério” após administração de PUTA em doses única ou em tratamentos prolongados. Também é indicado em dose única para aliviar os sintomas de “inchaço do saco” devido ao desuso continuado e intumescimento matinal do corpo cavernoso “tesão de mijo”. Os principais sintomas da falta de PUTA são irritação, falta de concentração, aumento significativo na freqüência e duração de olhadas para as bundas das colegas de trabalho, aumento da freqüência de pegadas involuntárias no pau, redução significativa dos critérios de seleção de mulheres e aumento considerável da coragem para passar uma cantada.

INFORMAÇÕES TÉCNICAS: O princípio ativo da PUTA é a estimulação da libido masculina. A libido é normalmente estimulada pela percepção visual e tátil, motivo pelo qual as PUTAS se vestem como PUTAS e permitem pegações moderadas. PUTAS desinteressadas, pouco receptivas e tiradas a patricinhas tendem a despertar menor interesse em indivíduos “normais”. Alguns indivíduos reagem positivamente à PUTA com cara de PUTA, à PUTA tirada a gostosa e PUTA problemática. O prazo de validade da PUTA é de 35 anos se mantidas as condições adequadas de conservação. Utilização fora do prazo de validade implica em redução significativa de seu efeito terapêutico.

INDICAÇÕES: PUTA, desde que corretamente administrada, é indicada no tratamento de estados de estresse, solidão, atenuante de complicações conjugais, alívio de incômodo indescritível no saco escrotal, redução de efeitos do “tesão de mijo”.

POSOLOGIA E ADMINISTRAÇÃO : A dose de PUTA deve ser individualizada com base na gravidade dos sintomas e na resposta do paciente ao tratamento. A dose habitual para a maioria dos pacientes em tratamento é de uma dose semanal, podendo chegar a duas ou mais doses nos casos mais graves. Recomenda-se dose eficaz mais baixa para pacientes idosos e debilitados fisicamente. Doses superiores à dose única diária podem ser administradas em tratamento em grupo do tipo “suruba”. No tratamento de distúrbio de comportamento do idoso acima de 65 anos, é recomendada meia dose de PUTA, que consiste em ficar passando a mão na bunda, pegar nos peitinhos, e botar a PUTA para chupar o “pau mole do véio”.

CONTRA-INDICAÇÕES: PUTA é contra-indicado em pacientes sensíveis. Estudos demonstram que 99,9% dos pacientes que se compadecem da situação e querem auxiliar de alguma forma se arrependem profundamente decorrido o prazo de validade do produto ou após levar um balão da PUTA. A utilização de PUTAS em condições de desequilíbrio financeiro tendem a agravar os sintomas. PUTA que faz “cu doce” deve ser usada com cautela em casos de diabetes.

PRECAUÇÕES NO USO: ATENÇÃO: O uso freqüente e continuado de PUTA causa dependência. Observações clínicas demonstraram que o uso continuado de PUTA pode provocar dependência física e psíquica, além de severos desequilíbrios financeiros. A utilização de preservativo é recomendada na prevenção de efeitos colaterais adversos. É recomendado o uso de lubrificantes em casos de secura aparente, ou de utilização do “furico”. Em caso de indisponibilidade eventual do produto pode-se recorrer à velha cusparada na cabeça do cacete ou no olho do cu, sendo recomendado neste caso, que o paciente tenha apenas uma mira razoável. Pacientes sensíveis a odores característicos devem evitar a utilização de vias alternativas.

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS: Quando administrada concomitantemente com companheiras antenadas e ciumentas, sejam esposas, namoradas, ou periguetes, a utilização continuada de PUTA pode produzir desentendimentos, irritação por controle excessivo, mal estar e, nos casos mais graves relatados em literatura, pode culminar com separação conjugal. A utilização com medicamentos indicados para disfunção erétil potencializa os efeitos esperados da PUTA. A utilização associada a bebidas alcoólicas mostrou, em um grupo de pacientes, dificuldade de atingir a resposta orgásmica antes da PUTA perder a paciência, conhecido como efeito de “encruamento”, já em outro grupo de pacientes observados, a associação com quantidades elevadas de álcool provocou flacidez brauliana.

REAÇÕES ADVERSAS: Na maioria dos casos, o uso continuado da mesma PUTA provoca enjôo, sendo necessário tocar o princípio ativo a cada nova dose. Quando a PUTA é mal resolvida, o uso pode desencadear estados irritadiços, estresse momentâneo, arrependimento e depressão pós-foda. Após o coito são esperadas, por parte da PUTA, reação de evasão imediata do recinto, sendo apresentadas as mais esfarrapadas desculpas. Nestas condições, alguns pacientes, após o uso, apresentam desejo hipoativo e sintomas de evitação fóbica, com o surgimento repentino de uma vontade quase incontrolável de mandar a PUTA para a pu-ta-que-pa-riu.

SUPERDOSAGEM: Manifestações decorrentes de superdosagem incluem fadiga física, problemas de relacionamento, problemas conjugais e desequilíbrio financeiro. Em casos de complicações por superdosagem recomenda-se suspender imediatamente a administração do produto e voltar a velha e boa punheta.

Todo medicamento deve ser mantido fora de alcance das crianças.

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27.3.08

Devaneios inacabados ou descoloridos


Pálida a lua que pintaste
Limpo o céu, negro o azul.
Será que o amor acabou?
Ou meus olhos opacos
não podem mais brilhar?
Esse castanho-escuro
nessa esfera branca
quase vermelha
tornam lusco-fusco
qualquer luz.
Se são doze ou sete
as cores do arco-íris,
o que me importa,
se só vejo preto?

...

Ponha moldura na lua
que você pintou pra mim
Moldura de estrelas
piscando vermelhas
enquanto o amarelo
da lua empalidece
antes o brilho dos olhos
contemplando-na.
E vai esbranquiçando
à medida que eu olho
e vou me tornando bela
para que não tenha lua
nem estrelas
no próximo quadro.
E eu brilhe mais que tudo.

...


Eu vou cobrir
as paredas do quarto
com nossas fotos
retratos falados
do amor em várias poses.
O mundo em suas cores
num arco-íris
fixo nas cabeças
tornando a vida cor-de-rosa
Tudo azul, todo mundo nu.
E os corpos desejosos
de algo mais
servirão de manequins
aos instintos selvagens
dos anjos construtores
que reforçam
a corda bamba
do nosso sexo frágil.

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24.3.08

Soneto do Se

Se me espera com paciência,
se me ama com sinceridade,
se deseja paz, felicidade
dada a poucos em existência.

Se ri dos risos, total carência
de quem não vê possibilidade
de não chorar ante a verdade
da sua amarga decadência.

Se acredita no meu carinho,
se não liga pros anos vividos
a mais em prazer, experiência,

Se quer prazeres incontidos
de um amor na adolescência,
eu não vou deixar você sozinho.


07/2001

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23.3.08

Diminuindo minha lista de livros que não vou ler antes de morrer...

Costumo ler muitos livros, e ao mesmo tempo. Com os textos da faculdade fica bem difícil manter o ritmo, mas eu tento. O problema é que eu costumo seguir uma ordem meio tosca, que depende do humor, às vezes é alfabética, outras é cronológica e outras vezes escolho aleatoriamente mesmo. Estou com cinco livros pela metade, mas a culpa disso na verdade é só uma: não engatei nos livros e odeio não terminar um. É como sair de um filme no meio. Mesmo que o filme seja horroroso eu continuo assistindo. Na verdade, já saí no meio de um filme, só um. As Rochas que Voam, sobre o Glauber Rocha. Não consegui mesmo. Tem gente que adora o filme, mas eu não consegui terminar de ver.
Mas, voltando aos livros, dentro desses cinco existe um que até hoje me parece inacreditável. É um do Saramago, um dos meus escritores prediletos, mas que eu não consigo terminar de ler de jeito nenhum. Não sei o que é, mas é o segundo livro do Saramago que eu empaco sem motivo aparente. O primeiro foi A Jangada de Pedra, que terminei a duras penas, com muita insistência e nenhum prazer. Esse que não consigo terminar agora é o Pequenas Memórias.
Outro que não consegui passar da metade foi o da Carla Rodrigues, a biografia do Betinho. Não que Betinho não seja interessante, não que biografias não sejam interessantes, mas eu não tenho menor ânimo pra continuar a leitura. Bloqueio mental.
A minha sorte é sempre existir um livro que compensa outros cinco não muito bons. Não vou dizer nada sobre ele, vou deixar ele falar por si mesmo:

"O Mundo da Minhoca

Existem sonhos simbólicos e realidades que simbolizam tais sonhos. Ou ainda, existem realidades simbólicas e sonhos que simbolizam tais realidades. O símbolo é, por conseguinte, o prefeito honorífico do universo da minhoca. No universo da minhoca não se estranha que uma vaca leiteira esteja à procura de um alicate. Em algum momento a vaca leiteira há de conseguir um alicate. O problema não era meu.

Suponhamos agora que a vaca estivesse me usando para obter um alicate. As circunstâncias, nesse caso, seriam totalmente outras. Eu estaria sendo lançado num universo onde o raciocínio seria completamente diferente. E o maior incoveniente de ser lançado nesse universo de raciocínio diferente é que a história se torna desnecessariamente longa. Eu pergunto à vaca leiteira: por que quer um alicate? A vaca responde: porque estou faminta. Pergunto: e por que precisa de um alicate quando está faminta? A vaca responde: para dependurar no galho do pessegueiro. Pergunto: por que no galho do pessegueiro? Responde a vaca: mas não lhe dei o ventilador em troca? Seria uma sucessão interminável de perguntas e respostas. E, nunca terminando, eu me veria aos poucos odiando a vaca, e vice-versa. Esse é o universo da minhoca. Para escapar desse universo é preciso sonhar um novo sonho simbólico."

Caçando Carneiros - Haruki Murakami

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Feliz Páscoa

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Utopia

Meu mundo é uma utopia. Vivo sempre além, ou aquém, da realidade que me cerca. Neutralizo o lapso de tempo com fantasias que me são próprias.

Acredito nas pessoas. O medo ainda me consome. Como imaginar algo além do que vivo? Não perco tempo com suposições nem proposições políticas. Me sinto acéfala de vez em quando por somente viver.

Não tenho uma opinião sobre tudo, e quando me perguntam o que acho, suspiro. Recito poemas ao invés de discursos. Não me interessa se eu concordo ou não. Eu vivo. Da melhor maneira possível.

Quem tiver algo contra que vá a luta, mas não me faça perder tempo ouvindo uma interminável sessão de mentiras. 300 rotações por minuto, 300 palavras por minuto. Energia totalmente desperdiçada em bandeiras imaginárias e fragmentos de ideais irrisórios.

A totalidade do tempo, ou o que ele representa pra mim, é consumida em devaneios sobre ele mesmo. A alma filosófica sustentando um corpo-espectro-fantasma-fantoche. Corpo este que representa o papel que lhe sujeitam. Dia sim, dia não. Me dou ao luxo de me despir das convicções falsas algumas vezes.

Meu mundo é uma utopia. E utópicas são minhas versões particulares deste mundo. Talvez por isso minha voz seja muito mais bonita dentro da minha caixa craniana. O que guardo gravado na retina só tem cores dentro de mim.

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19.3.08

Fragmentos

Parmênides

I

"É necessário que tu experimentes tudo, tanto o ânimo intrépido da verdade bem redonda, como as aparências dos mortais, nas quais não há uma confiança desvelante".



III

"... pois o mesmo é pensar e ser."

Ser; Verdade; Razão.

VI

"Faz-se necessário trazer à fala e pesquisar, e o ente ser, pois ser é, nada não é (...) "

Ser; Palavra-discurso; Razão.

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Vidas que nunca tive

Toda vez que o semestre da faculdade recomeça e vejo um professor novo já penso logo naquela terrível mania de se apresentar a todos na sala. A maioria eu já conheço desde o começo, há quatro anos, e mesmo assim tenho que repetir aquela ladainha toda, que há muito eu preparei e decorei para essas ocasiões: "Meu nome é Natalia, tenho 25 anos, sou bancária e odeio meu trabalho. Larguei um curso politécnico no último período e resolvi fazer faculdade de Produção Cultural porque era o curso mais abrangente que existia e eu sou uma indecisa por natureza, e também porque quero direito à cela especial quando for presa, porque certamente o serei um dia."

Eu tenho uma versão B também, mas nunca tive coragem de dizê-la, seria algo assim: "Meu nome é Natalia, tenho 25 anos, comecei a fumar maconha e cheirar cocaína aos nove. Aos 12 tive que começar a me prostituir para garantir meu consumo, mas a grana era pouca e comecei a traficar. Fui presa aos 15 porque matei dois caras que queriam abusar de mim, mas cumpri 1/6 da pena e estou em regime de liberdade condicional. Depois das aulas eu tenho que voltar pra dormir na prisão. Resolvi fazer faculdade de produção cultural porque era o vestibular mais fácil que achei, e ainda dava pra tirar uma onda com as garotas da cadeia."

Tô pensando em completar a versão B com uma frase do tipo: "E o pessoal da cultura se amarra nessa coisa meio, como dizem? Underground na minha vida. Dizem que é fashion, cult e que eu ganharia rios de dinheiro escrevendo um livro..."

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18.3.08

Re: Longas cartas para alguém...

A cada momento que penso finalmente lhe entender me surpreendo ao reconhecer o quão ignorante sou nesse assunto. E se em cada um desses momentos me sinto mais feliz de perceber novas coisas que deixei passar, vejo também como é repreensível esta desatenção que me acompanha desde sempre, pois não é de hoje que tenho dificuldades de perceber coisas a poucos palmos do meu nariz (coisas abstratas ou não, sou bem cego de uma forma geral).

De qualquer forma é uma agradável surpresa receber mais essa carta (independente do conteúdo). Mesmo não sendo a enésima e mesmo que nenhuma das outras tenha sido ignorada ou muito menos rasgadas em pedacinhos como você mesma disse. Todas foram ouvidas e compreendidas, e se alguma não foi respondida, não foi por falta de importância ou desconsideração, mas pelo fato de nem mesmo eu ter as respostas que acredito que você mereça ouvir. Entendo suas frustrações em fantasiar sentimentos ou colecionar ilusões, algo com que me identifico em muitas formas, mas que hoje nem sei se sou ainda capaz de fazer...

Como muitos outros sou uma pessoa estranha (ou ao menos me considero assim), e não digo isso para me justificar, pois não existiriam justificativas agora ou em algum outro momento que explicassem os meus "porquês" em termos de comportamento sem passar uma impressão mais equivocada do que a outra, portanto até segunda ordem estão suspensas as minhas supostas "desculpas esfarrapadas" a fim de evitar novos enganos.

Confesso que assim como o personagem da sua segunda carta-conto, sou vazio na maior parte do tempo. As vezes saio e me disfarço em outras pessoas mais normais e até convenço alguns que sou como todo mundo, mas o fato irremediável porém é que não sou, ou pelo menos não me sinto como tal. E não digo isso também para me colocar em um lugar diferenciado do lugar comum, tentando parecer único ou especial, mesmo acreditando que todos somos únicos de uma forma ou de outra, pois tendo consciência de que esta é uma das minhas poucas certezas, me preocupo vez ou outra como essa unidade pode ou não determinar nossa visão das coisas assim como nossa maneira de interagir com outras pessoas, independendo do seus tipos ou formas... Tudo isso pode até lhe parecer um pacote de reflexões vazias, mas é só o que eu tenho. E não acreditando em muito mais do que isso por hábito ou não, temporariamente isso me basta para ocupar boa parte do meu tempo.

Com você me senti confortável o bastante para mostrar algo mais próximo de mim, o que não é pouco para mim. Mas sei que isso pode (e até deve) lhe parecer insuficiente, pois apesar dos meus aparentes esforços ainda passei longe de ser pra você algo verdadeiro (e infelizmente eu sempre soube disso).

Suas cartas são para mim sempre uma alegria, pois frente as inúmeras controvérsias com as quais vivo me colocando e pela multiplicidade de "falsos eus" com os quais desfilo todos os dias, percebo alguém falando comigo. Com a pessoa real que sou, ou o mais próximo dela que a maioria consegue. E isso é reconfortante em muitos sentidos. Algum tempo atrás eu lhe disse que eu era uma pessoa bem simples, sem grandes complexidades ou dilemas. Uma mentira deslavada que apesar de ter sido movida mais por hábito do que por qualquer outra grande razão (ou mesmo má intenção), foi apenas mais uma parte de um desses pequenos personagens que talvez você já tenha notado em outros momentos, pois esses meus personagens tendem a ser bem contraditórios em determinados momentos.

Tenho sim, uma vontade sincera de estar com você. Nunca escondi isso, mesmo quando sabia que deveria ter feito isso. Compreendo também que eu posso causar mais confusão do que talvez devesse, e sempre soube ter bem menos a oferecer em troca, por isso até nunca prometi o que sabia que não poderia entregar (me faltam alegrias entre outras coisas pra dividir).

Tentando ser alheio ao tempo e as possibilidades que podem realmente já estar extintas pela minha falta de jeito, me pergunto o que realmente acabou? Mais apropriado seria talvez perguntar o que não começou?

Nem por isso vejo você sendo mais ou menos triste por isso. Como você mesma menciona nessa última carta, nenhuma dessas rejeições lhe afetou de verdade, e se afetou, foi muito menos por mim do que por você mesma... No meu caso também não é muito diferente. Talvez nós dois tenhamos o mau hábito de fantasiar demais, pensar demais, ou de romantizar demais... (ou talvez seja só eu). É bem mais fácil ser platônico do que ser real, e é ainda mais fácil se dispor a sacrificar tudo do que falar com alguma sinceridade a quem precisa. Nunca achei isso menos estranho do que hoje, e ao mesmo tempo também nunca acreditei achar isso de alguma forma tão perto.

Assim como você, também queria lhe dar muitos beijos, recitar poemas, e viver dias felizes. Mas infelizmente também não sou assim, e provavelmente por nenhum de nós sermos dessa forma que tenhamos compartilhado alguns tantos silêncios incômodos entre outros poucos momentos de (quase) sinceridade.

Talvez eu tenha sido mais sincero agora do que já fui em todas as outras vezes, mesmo já imaginando você movendo a cabeça pra negar essa possível sinceridade. Talvez você também tenha sido nessa última carta mais sincera do que antes (eu pelo menos desejo pensar isso) e por isso que eu continuo interessado em lhe conhecer de verdade, da mesma forma que gostaria que você também me conhecesse como sou. Bem sabemos no entanto que essas coisas não ocorrem de forma tão racional assim, mesmo que para que isso ocorra dependa ou não apenas de nós.

No mais, continuo desejando sinceramente que você encontre o que procura, e desta vez me disponho a não assinar esses desejos anonimamente ou de qualquer outra forma vaga como essas insinuações anônimas que temos feito já há algumas semanas. Penso que cartas devem ter sempre destinatários e remetentes imprimindo nossas vontades reais de se expressar e dando espaço para que possamos responder em algum pé de igualdade, se isso for de alguma forma possível.

Bjocas,
Alguém

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Histórica

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17.3.08

Peta & Chico

Vocês devem estar se perguntando o que o Chico e a Peta têm em comum. Não, eles não estão tendo um caso. Explico-me.

Tudo começou com o Madame de Pompadour (eu teimo em tentar ordenar meus processos mentais, mas nesta batalha eu perco de lavada). É um romance que eu li há muito tempo sobre a história de Jeanne-Antoinette Poisson, que desde pequena dizia que ia ser amante do Rei Luis XV, e foi criada para tal.

Depois disso me lembrei da história da minha prima, Gilda Matoso, que aliás escreveu o ótimo livro Assessora de Encrenca, sobre seu trabalho em assessoria de imprensa de famosos, que, quando tinha 17 anos, conheceu Vinicius de Moraes e disse que ia se casar com ele. Conseguiu, foi sua última mulher.

É fato que toda mulher hoje em dia, seja que idade tenha, casaria com Chico Buarque. Bem, considerando o histórico do rapaz, nada de casamentos, só rápidos affairs. Eu não me importaria nem um pouco, e toda vez que eu começo a namorar alguém eu dou uma de Reinette e digo logo, "Olha, eu sou fiel, mas se o Chico Buarque quiser ficar comigo...".

O que eu espero do cara? Que ele entenda que Chico Buarque é Chico Buarque, e faça que nem o marido traído lá da mulher da praia do Leblon, que ao ser perguntado como ele se sentia sabendo que a mulher dele tinha traído ele com o Chico assim em praia pública, respondeu: "Cara, era o Chico Buarque. O que eu podia fazer?"

O que ele podia fazer? Nada, absolutamente nada.

E, bem, a Peta Wilson está aí porque se ela me desse mole, sei não, acho que viraria lésbica na hora. Desde criancinha...

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16.3.08

Censura não!

Dia 12 de março último foi escolhido para ser o Dia da Livre Expressão Online. Várias manifestações virtuais em lugares como Cuba, China, Mianmar, Turcomenistão, Vietnã, Egito, Eritréia, Coréia do Norte e Tunísia (com exceção da Eritréia, esses países mais Belarus, Etiópia, Irã, Arábia Saudita, Síria, Uzbequistão e Zimbábue fazem parte dos 15 países incluídos na lista de "inimigos da internet"), foram organizadas pela Ong Repórteres sem Fronteiras.

Para participar da manifestação bastava entrar no site, escolher um avatar e a mensagem que gostaria de carregar na placa. As manifestações aconteciam em representações virtuais de praças públicas locais, como a Praça da Paz Celestial, na China.

Em pouco mais de cinco horas as manifestações já tinham atraído mais de 4 mil pessoas.

A Ong Repórteres sem Fronteira trabalha para divulgar a censura na internet, e relata que mais de 2,6 mil blogs, sites ou fóruns de discussão foram fechados ou tiveram seu acesso bloqueado em 2007, e 62 "dissidentes da internet" estão presos hoje no mundo todo. A Ong prometeu realizar protestos virtuais todo ano neste mesmo dia.

Fonte: BBC Brasil

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15.3.08

Longas cartas para alguém...

Essa é a enésima carta que escrevo pra você, e provavelmente vai terminar em pedacinhos na lixeira como as outras tantas. Daqui a poucos dias teremos nos conhecido há quatro longos anos e apesar de não nos vermos há muito tempo, eu queria te dizer alguma coisa que prestasse neste dia. Algo que pudesse resumir tudo que já te disse, porque com certeza já te disse tudo. Metade inebriada pela paixão, metade sufocada pela raiva, nada que prestasse pra alguma coisa. Agora já distante de tudo talvez eu seja capaz. Não consigo usar meu bom humor para falar de amor, talvez porque eu não saiba falar de amor, talvez porque eu não saiba verdadeiramente amar. Continuo colecionando ilusões, na impossibilidade de colecionar pessoas de verdade. Continuo fantasiando sentimentos, na impossibilidade de senti-los de verdade. Não me julgue por minhas palavras ditas nem pelos meus atos feitos, eu fui sincera ao fazê-los. É que o tempo passa e a gente tem a péssima mania de relativizar tudo. Eu tenho.

"Se vais beijar como eu bem sei,
fazer sonhar como eu sonhei,
mas sem ter nunca amor igual
ao que eu te dei..."

Preste atenção em uma coisa, eu não controlo o que eu escrevo. É um fluxo contínuo de palavras que algo em mim (cérebro ou coração, pouco importa) manda eu escrever. Depois de pronto, eu leio. Se gosto, deixo. Se não, rasgo. Eu amo da mesma maneira. Um fluxo contínuo e insensato de ordens. Não vou ser ingênua a ponto de afirmar que não as controlo. Até posso, mas isto não depende de mim. Às vezes me afasto, porque é melhor sonhar. Nos meus sonhos posso dar vazão às ordens. Mas quando não sou eu que decido isso, eu me perco. Me afogo nos meus próprios devaneios. Quando estou sem, sinto falta. Me apaixono sem ter me apaixonado. Viro duas pessoas em nenhuma. Não aceito rejeições. Não gosto de fins, embora saiba que sou eu que devo decidir quando acabou. Ou aceitar que acabou.

"E acharei doce o fel desta amargura,
Se, em novo amor, tiveres a ventura
Que eu não te soube ou não pude dar!"

De novo me perco escrevendo pra você. Mais fácil seria se eu ousasse admitir que não importa o que senti por você, foi sincero, e isso basta. Até basta, mas eu me perdi numa série de considerações sobre o mesmo tema, que me encheram o saco, muito mais o seu, e talvez entender o que eu senti seja mais um pedido de desculpas do que propriamente uma vontade minha. Mas ainda é uma vontade. No começo ia tudo bem, mas minhas defesas eram nulas, como hoje já não são mais. Um dia, sem aviso algum, eu me apaixonei. Aí a coisa desandou. Alguns diriam pra eu não confiar tanto nas pessoas, mas como poderei fazer isso? Logo eu, a crença em pessoa. Talvez eu não confie mais em sentimentos. Antes eu achava que ninguém conseguia controlar os sentimentos. Doce ilusão. Alguns são mestres nisso. Eu não.

"E é só assim que eu perdôo seus deslizes.
E é assim nosso jeito de viver.
Em outros braços tu resolve suas crises.
Em outras bocas, não consigo te esquecer..."

Hoje já não sofro tanto, mas acabei por colecionar meia dúzia de rejeições. Involuntárias? Provavelmente não. Só estou revivendo aquele velho jeito de só aprender na marra. Mas nenhuma dessas últimas me afeta de verdade. É por isso que quando me esgotam as tentativas mentais, me resta você. Com você eu tenho momentos, tenho passado, tenho desejo de futuro. Quando não se tem o que lembrar, ou o que se tem é pouco, a dor esgota rápido, a imaginação sem pequenas memórias não cria frutos duradouros. Sofrimentos ocasionais e necessários, assim os chamo. E eu ainda tenho coragem de dizer que não sou masoquista. A vida me fez assim, irônica e hipócrita. É preciso que eu aprenda rápido, eu tenho urgência. É preciso que eu encontre logo um lugar pra despejar tanta coisa, alguém que aguente isso tudo. É urgente e preciso. Enquanto isso eu vou me divertindo, me ferrando, aprendendo. E de vez em quando penso em você, porque você foi o último. Como você odiaria ouvir isso tudo. Ou reclamaria que é muita coisa pra ler. Mas eu fui injusta com você, talvez você nem saiba. No final eu acabei descobrindo que você não era aquilo que eu queria acreditar que você fosse, mas aí já era tarde, como sempre é. Eu queria ter conseguido alguma outra maneira de ter terminado tudo isso, queria poder lhe dizer coisas, muitas coisas, muitas asneiras, sandices, besteiras. Queria te dar muitos beijos, e recitar poemas, e viver mais dias felizes.

Mas sendo eu mesma, não o que eu fui pra você.

"Disse adeus, e chorou,
Já sem nenhum sinal de amor
Ela se vestiu e se olhou
Sem luxo mas se perfumou.
Lágrimas por ninguém
Só porque é triste o fim!
Outro amor se acabou..."

---
Créditos:
Alguém me disse - Evaldo Gouveia / Jair Amorim
Adeus! - Leopoldo Braga
Deslizes - Michael Sullivan / Paulo Massadas
Ela disse adeus - Herbert Viana

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14.3.08

Música de Sexta



Blues do Ano 2000 - Versão Pega Ladrão.
Cazuza / George Israel / Nilo Roméro

Se até o ano 2000 o mundo não acabar
E eu estiver vivo na rua ou num bar
Eu vou pra sempre te esperar

Blues é assim, baby
Blues é assim
Blues é assim, baby
Blues é assim

Quando eu estiver velho, tarado e gagá
Com um copinho de cana eu vou lembrar
Do teu gingado, e os meus olhos vão brilhar

Blues é assim, baby
Blues é assim
Blues é assim, baby
Blues é assim

Mesmo que outras pessoas eu venha amar
E encontre com elas um pouco de paz
Eu vou pra sempre te esperar

Blues é assim, baby
Blues é assim
Blues é assim, baby
Blues é assim

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Reciprocidade que nada...

Sem comentários...

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12.3.08

E rolam os dados...

Boa parte da minha escrita ligeiramente viajante eu devo, com certeza, aos anos de RPG. Pra quem não sabe, RPG siginifica Role Playing Game, e é um jogo onde cada pessoa faz um personagem de acordo com uma história e um Mestre inventa uma narrativa onde cada um terá que rolar os dados para saber se vai se safar ou não da situação.

Eu e meus amigos nos encontrávamos todo dia das oito às dez para jogarmos. Às vezes era AD&D, às vezes Vampire, outras vezes era A Agência, que foi inventada por eles mesmos e tinha um final alucinante. Até eu cheguei a mestrar um jogo de Mago. Mal e porcamente, claro, mas eu me amarrei.

Ainda tenho a minha primeira ficha de AD&D, onde eu era Hana, uma maga das escolas de necromancia, abjuração, conjuração e elementais. Eu tinha também um desenho dela, mas esse eu não achei.

Mas eu só tou falando disso porque um amigo me mandou um e-mail contando que o Gary Gygax, o pai do RPG, criador do Dungeon & Dragons morreu no último dia 05. Ele ficou um longo tempo jogando dados com Deus. E perdeu.

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11.3.08

Requiescat in Pace

O telefone tocou antes das sete da manhã de uma segunda-feira. Uma manhã que seria como outra qualquer se não seguisse um final de semana de estranha apreensão. Desde que colocaram-lhe a sonda a mãe tinha dito "Chama minha filha que eu vou morrer". Só ficou sabendo disto depois. Não tinha ido porque a família acreditava que tinha que ser poupada da última visão. No fundo não tinha ido por um misto de raiva, vergonha, indiferença e medo de não ser reconhecida. Não queria correr o risco de ser chamada de Carolina, nome que ela repetia incessantemente a todos que via. Não sabia se conseguiria interpretar mais este papel na frente da mãe. Foram tantos, o que custava mais um? Carolina, quem seria? Hoje não importa mais.

"Ela apagou a luz", alguém declarou alguns dias antes. A mãe tinha lhe confessado que queria morrer numa cama, sendo cuidada por todos. A morte lhe supriria a carência, coisa que não conseguira em vida. Será que ela imaginava ver a filha aos seus pés? Dificilmente. Não foi fácil ouvir a verdade, mesmo tendo acompanhado o rápido processo de degradação da mãe depois que desistira de viver, mesmo depois de saber da pneumonia que lhe devastava os pulmões de 37 anos de cigarro e alguns muitos outros de ar irrespirável, mesmo sabendo que ela tinha escolhido a morte que lhe convinha, e que no final deve ter partido feliz.

Muitas vezes tinha desejado que a mãe morresse. Muitas vezes tinha imaginado alguém batendo à porta para dizer "Sua mãe morreu, você está livre agora", como se a ajuda pudesse vir dos céus, quase que divina. Mas depois de ter conseguido resolver seus problemas sozinha, e na hora que teve a certeza de que jamais sentiria raiva daquela mulher de novo (ou que jamais poderia culpá-la por suas próprias escolhas), sentiu-se presa a uma luta sem sentido e chorou como nunca tinha imaginado que choraria.

Depois que morrem, todas as pessoas viram boas. Não nos vale mais o esforço de ficar falando mal de alguém que já não está ali para sentir o peso da repreensão. No caminho longo até a cidade onde vivia a mãe, ela pôde repensar mentalmente todas as coisas horríveis que já tinha ouvido dela, e todas as coisas também horríveis que já tinha dito. Se lembrou da ausência constante, das brigas constantes, da vontade insuportável de não voltar nunca mais, da primeira vez em que não precisou voltar...

Do exato momento em que deixaram de ser felizes juntas, ela não se lembrava mais. O sofrimento que lhe fôra causado pela mãe depois de um tempo apagou todas as lembranças boas que tinha. A culpa, o remorso, ou a esperança de que tudo pudesse mudar, já não sabia mais, faziam-na sempre visitá-la, e invariavelmente era escorraçada de casa, que deveria ser a sua também. Na rodoviária, de madrugada, jurava que jamais voltaria. Mas sempre voltava.

O choro tinha cessado ao abraçar o irmão, talvez a única pessoa que tenha amado a mãe de verdade, e mesmo assim tinha tido coragem de pedir ajuda pra escapar daquele lugar. Do fundo das lembranças a serem esquecidas veio a voz da mãe lhe acusando de ter destruído sua vida quando a viu levar o irmão embora, poucos meses antes daquele dia.

O seu amor pela mãe era mais obrigação do que vontade, mais passado do que presente. Era o amor de quem tinha se visto privado dele, amor de quem tem uma capacidade de amar maior do que a requisitada. Amor que se viu esvaindo em cada abraço de pêsames, guardado calorosamente no colo dos que herdaram a carência, e não a dor. Quando viu o caixão já não tinha mais do que um vazio por dentro.

"Nem sei se ela preferia ser cremada" foi seu pensamento quando o ritual, que julgava desnecessário e enfadonho, começou. Na primeira pá de terra sentiu dor, na segunda sentiu pena, na terceira sentiu paz. Fechou os olhos e se despediu baixinho, num rosário compreensível só para si mesma. Ao perdoar a mãe naquela hora, recebeu dela pela segunda vez a sua vida.

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Vídeos, Youtube e sabonete Gmail

Eu sou uma recente fuçadora de YouTube. Não era uma ferramenta que tinha me inspirado muito não. Mas quando comecei a entender o mecanismo da coisa, acabei gostando. O que eu acho mais maneiro nele são os vídeos-resposta. O cara coloca um vídeo louco qualquer e as pessoas respondem com vídeos ainda mais insanos.

Vejam esse caso, surgiu na Rússia um sabonete Gmail. Com o logo em relevo e uma caixinha com o logo também. Aí surgiu um vídeo mostrando os efeitos miraculosos do sabonete, e vários outros em resposta deste.

Vejam aqui o primeiro:


E agora uma resposta:


E outra:


E tem inúmeras outras respostas malucas por lá. Eu sinceramente gostaria que os brasileiros entrassem na onda, pelo menos serviria para limpar um monte de monumentos , prédios e estátuas lindíssimos que a gente tem que estão todos pixados por aí...

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10.3.08

Carne de Segunda...

...porque gente como eu se alimenta de cérebros.

Tomás Eloy Martinez

A mão do Amo

"Pouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sono de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gatos movendo-se entre tições de negra luz.

O homem dormia de boca aberta e, quando ele adentrava o cone de escuridão onde pairavam os sonhos, uma manada de gatos saía de sua boca rasgada por berros de cio e mergulhava no rio dos engenhos de açúcar. Mãe esperava na margem, como sempre, protegendo-se do verão com a sombrinha, a blusa abotoada até o pescoço apesar dos ardores da tarde, e ao lado dela Pai, revirando os bolsos do colete em busca dos óculos. Lembra daqueles dedos maciços, possantes como troncos de pinheiros, acariciando o pescoço de Mãe enquanto ela falava?: 'Por que você não mata o Carmona de uma vez, Pai? Está esperando o quê?'. E você agarrado na saia dela, implorando: 'Não me batam, Mãe, não me matem'. Era assim, lembra? Atrás do sonho corria o rio, perdendo-se nos confins das montanhas amarelas. Todas as noites Carmona queria entrar nas montanhas, mas Mãe não o deixava chegar nem perto."

---

"O sangue passava por ali como uma fogueira rápida, e, quando se apagava, Carmona sentia um profundo desamparo e o pressentimento de que todas as felicidades que um dia imaginara estavam para acabar: também as felicidades que nunca viveria estavam para acabar. Veio-lhe à memória uma imagem que lera no inferno de Dante: 'Estávamos sós, sem suspeita alguma'. E tentou evocá-la em italiano, para não desfigurar sua beleza: 'Soli eravamo e sanza alcun sospetto'. Agora reinava a mesma emoção: o tempo revoava, solitário, e neles não havia suspeita, porque o passado não existia. Nenhum dos dois sabia quem era o outro; quem, afinal, era quem.

Embora as palavras fossem desnecessárias, ela falou:

_ Não vão deixar você ser feliz. Não permitem que pessoas como nós sejam felizes. Eu nunca fui, sabe?

Carmona sentiu aquela intimidade como uma carícia.

_ Nunca? Se alguém me perguntasse como é a felicidade, eu diria: é uma mulher que conheci no trem.

Ela levou as mãos à boca e, como seus dedos eram translúcidos, ele a viu sorrir. Reconheceu o sorriso de lado que tanto lembrava o de Mãe. Como se advinhasse seu pensamento, a mulher murmurou, olhando-o nos olhos:

_ Quem dera você fosse meu filho.

Nisso, o trem apitou: primeiro sem convicção, como um convalescente; em seguida mais duas vezes, longas e firmes.

_Tudo já passou - disse Estrella - Temos que ir.

_ Não - resistiu Carmona - Vamos ficar.

Tentava arrefar o instante, mas não sabia como. Nenhum instante, nunca, quisera ficar com ele.

_ Você não viu este lugar de dia Carmona. Não viu, mesmo. Estamos no meio do nada. Se ficássemos, seria pra morrer.

_ Não faz mal.

Ela disfarçou sua impaciência e lhe falou como se realmente fosse seu filho:

_ Isto aqui é um não-lugar, feito para coisa nenhuma. Milhares de pessoas cavaram nele, para nada. Aqui perderíamos tudo, até a sensação de que estamos morrendo. Quanto tempo você acha que continuaríamos vivos?

Ele respondeu em voz baixa:

_ A eternidade."

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9.3.08

devaneios pecaminosos...

No dia em que consumir drogas virou um pecado mortal na lista de pecados modernos da Igreja Católica, eu já tinha decidido que este seria meu assunto. E não foi por saber disso previamente. Ainda não possuo poderes mediúnicos, embora não os dispensasse, caso me fossem oferecidos. Seria muito bom ganhar na Mega-Sena eventualmente, quem sabe uma vez ao ano?

Mas, enfim, rezando para que nenhuma criança venha a dar de cara com estas páginas, volto ao assunto pouco auspicioso a que me propus discorrer hoje: as drogas! Não pensem que vou fazer apologia ao uso, ou um discurso retrógrado, não faz meu tipo. É que hoje, nas minhas andanças pela net, eu descobri uma pesquisa que prova que fumaça de incenso faz mal à saúde. Uma pessoa que queima um incenso recebe uma dose de benzina (substância cancerígena) equivalente a três cigarros. Tudo bem que fumando vinte cigarros por dia, que é o meu caso, eu estou inalando o equivalente a pouco mais de seis incensos, e ele nem dá tanto barato assim, diga-se de passagem...

Vocês vão me perguntar que diabos isso tem a ver com as drogas? Bem, cigarro é uma droga, mas não é dela que venho falar. Lendo essa matéria sobre o incenso me lembrei de uma outra pesquisa que prova que os elementos cancerígenos presentes na fumaça da maconha são duas vezes mais nocivos do que os da fumaça do cigarro. Fumar um baseado por dia seria tão prejudicial quanto fumar um maço de "caretas". Péssimo para alguns amigos meus que se achavam naturebíssimos ao optar somente pela ervinha natural (Se fosse plantada no Sana até poderia ser natural, aqui pelo Rio está é cheia de orégano, mesmo...) Para mim, que acumulei durante anos os dois malefícios, pouco importa.

Esses devaneios ligeiramente viajantes me levaram à velha gíria "da lata", que designava o bagulho bom, puro, que há muito não era encontrado no Rio, e costumava ser usado para o que vinha do Maranhão. Para quem não sabe, a expressão "da lata" veio do famoso Verão da Lata, quando os tripulantes do navio Solano Star, perseguidos pela Polícia Federal brasileira, despejaram sua carga no mar, cerca de 20.000 latas com 1,5 quilos de maconha prensada com mel e glicose. Algumas latas foram achadas até no litoral de Santa Catarina, meses depois. Lendas dizem que muitos pescadores ficaram ricos com o tráfico, mas o certo é que o Verão da Lata rendeu muitas histórias.

O romance PODECRER de Arthur Fontes virou até filme da Conspiração, cuja divulgação contou com pequenas latas contendo negativos do filme cuidadosamente "despejadas" na areia das praias da Zona Sul. Outro que quer contar essa história no cimena é o João Falcão. Com título provisório de Verão da Lata ou Nunca Haverá um Verão Como Esse, o longa vai reproduzir a trajetória de gente que teve contato com as latas - com licença poética para aumentar e criar lendas urbanas.


E, bem, depois que eu fui juntando um assunto no outro, acabei lembrando de um livro que herdei da biblioteca da minha tia, "Estudos atuais sobre os efeitos da Cannabis Sativa [MACONHA]", de Márcio Bontempo, de 1980.

O didático livro do Márcio nos conta, por exemplo, que a cannabis já era utilizada pelos chineses e egípcios, que utilizavam suas propriedades analgésicas. Além disso, na Europa ela já era utilizada há muito tempo para fazer cordas, tecidos e estopas com suas fibras. Os índios americanos também fazem uso da cannabis desde tempos antigos, mas estes já o faziam em busca dos efeitos psicotrópicos.

O princípio ativo da cannabis é o Tetra-hidrocanabinol, ou THC (lembram do slogan? FORA FHC, QUEREMOS THC!!!!). A cannabis tem ação antibacteriana, antinflamatória, anticonvulsivante, antifebril, tranquilizante, sedativa, hipnótica, antiespasmódica, analgésica, antidepressiva, hipoglicemionte e anti-hipertensiva.

Psicologicamente falando a cannabis causaria uma fragmentação temporária do Ego, quando o Id iniciaria um processo de vigília, deixando o indivíduo à mercê do instinto e das forças violentas do Id. Nesta hora acontece a diminuição da intelectualidade, a desregração do pensamento e a despersonalização. O Ego sofre uma divisão, mas não chega a apagar-se totalmente, fazendo com que a pessoa acredite que está num estado estranho e irreal.

Depois disso o Márcio desfaz alguns mitos e conta algumas curiosidades sobre a cannabis:

- O fumo crônico da maconha tem sido associado à bronquite e à asma.

- Não existe comprovação de morte de células cerebrais pelo uso da maconha.

- O aumento da agressividade do usuário da droga não foi provado pela medicina.

- Soldados americanos na Europa fumavam quantidades de haxixe equivalentes a 5.000 cigarros de maconha.

- Usuários de cannabis afirmaram um aumento da sensibilidade depois do uso, principalmente no ato sexual, que produziria um prazer inigualável e prolongado. Mas, os cientistas descobriram que a cannabis diminui os reflexos medulares polissinápticos, interferindo nas sinapses nervosas. Ou seja, a cannabis não aumenta a sensibilidade e sim produz um retardamento na percepção dos estímulos.

Bem, depois de tudo isso vocês estão esperando que eu faça uma conclusão brilhante desse post, ou que comente o que vocês acabaram de ler pela minha perspectiva experimental pessoal.
Só tenho a dizer uma coisa: Quer fazer merda? Faça. Mas faça bem informado.

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8.3.08

Venda da Cruz

Ele acordou com um fogo lhe consumindo as vestes. Levantou, despiu-se com cuidado, deixando a roupa macia e quente de inúmeros anseios noturnos acariciar seu corpo. À medida que ia levantando a blusa, um vazio ia subindo pela espinha até tocar a nuca. Tremeu, arrepiando-se por inteiro.

Entrou embaixo do chuveiro, encostou a testa no azulejo frio e deixou que a água morna deslizasse pelas costas, com suas unhas curtas de amada dócil afagando-lhe o espírito. Secou as orelhas, o espaço morto entre os dedos do pé, sacudiu os cabelos tal como faria um cão, vestiu-se ainda molhado e saiu.

Na rua sentiu-se tonto, como se existisse ar demais pra respirar. Abriu os braços, levando-os de um lado a outro, pegando impulso para em seguida rodopiar feito pião, girando sem lógica até cair, torto. Quão amarga era a companhia da solidão. Cobria-lhe de mimos para na hora certa cobrar o que havia de mais precioso nos seres humanos: a esperança. Agora só restava, só. Decerto a solidão saberia reconhecer sua dedicação...

Levantou ainda meio perdido, sem reconhecer o lugar onde havia deitado. Ouvia um misto de barulho e silêncio, risadas e gemidos, o chão girava lentamente, e parecia que girando tinha feito o tempo ruir-se em pedacinhos, construindo uma nova estrutura. Uma nova chance? Bateu um vento na pele, um sopro de não se sabe onde, excitou-lhe os nervos, o membro, deixando-o pronto para apreciar pela primeira vez a comida que lhe era oferecida.

Sentia um misto de vergonha e curiosidade ante a loucura jamais prenunciada, ante a majestosa figura do membro ereto, empunhado como espada, a única arma que tinha a oferecer aos inimigos. Já era hora de assumir a essência masculina renegada, deixar de usar os artefatos que ganhara da vida somente como escudo, sem coragem para encarar de frente os anseios do corpo. Parar de esconder-se atrás de órgãos mancos, deixando apagar a chama de homem que
lhe fazia não especial, mas o que tinha que ser por direito de nascença. Caminhou renovado. Sentia-se gigante, esquecida a sua pequenez costumeira. Entrou num beco de onde saíam as risadas e gemidos, e foi com frescor que se pôs a olhar as maravilhas dos submundos da sua vida. A catarata da racionalidade que cegara seus olhos até então, era rapidamente substituída
por novas lentes. E ele pôde ver com clareza a fúria de terremotos em coxas frágeis, maremotos em seios rígidos, vendavais em pêlos que salivava em ter na sua boca entranhados nos seus dentes. Seu corpo ardia, vulcão passivo, sua lava remoendo entranhas, o fogo domando seu próprio fogo para poder sair sem nada devastar.

Seu faro seguia procurando algo que não sabia exatamente o que era. Aquelas mulheres, seminuas, andando de um lado para o outro, feito urubus procurando carniça, não mereciam a glória ingrata de sua luta. Procurava alguém por quem quisesse perder suas defesas e entregar-se como prisioneiro de guerra. Alguém que o fizesse guerreiro, mesmo desarmado.

Perdia-se nestes devaneios quando viu uma placa que dizia "Decifro-te e te devoro. Em troca exijo prazer". Lia e relia os dizeres com uma expressão de não ter entendido nada. Na verdade procurava as entrelinhas, que decerto existiam, em um oferecimento atroz generoso.


_ É de graça, pode acreditar.

A voz era distante e presente, rouca nas terminações, levemente acentuada, sibilosa, como se acompanhada de uma lambida discreta nos lábios ressacados pelo ato de falar. Ela estava sentada, nua, num caixote de madeira, as pernas cruzadas displicentemente, dando um ar de recato ao corpo francamente oferecido.

_ E o que você ganha com isso? - ele perguntou depressa, tentando dissipar um certo ar de fascinação que dele tomava conta.

_ Prazer, é o que diz o anúncio.

_ E quem pode garantir ser capaz de oferecer prazer de verdade?

_ Você deveria saber responder essa pergunta. Todo homem se julga capaz de dar prazer a uma mulher...

_ E em quais você acredita?

_ Em nenhum.

_ Então como você escolhe?

_ Não sou eu que escolho, eles é que me escolhem. Só me procuram os que precisam de entendimento. Estes costumam me dar prazer.

Ele não sabia se estava se sentindo num filme de quinta categoria, onde o ator canastrão usava barbicha mal feita, calças apertadas e em uma determinada hora deveria olhar pra câmera e falar "Oh, baby", pronto pra agarrar a mocinha, ou se num déja-vu clichê, onde todas as frases ditas eram as que ele tinha predeterminado no roteiro. O certo é que aquela garota
mexia com ele. Nada de sinos tocando e outras papagaiadas, mas sentia que a franqueza e pretensa liberalidade dela o atraíam, como uma criança quando descobre um doce.

_ Convenhamos que não é difícil querer te escolher quando se está na sua frente e você está nua. Bastaria isso, mas você ainda diz coisas coerentes, sensatas, inteligentes e intrigantes...

_ Os homens desconhecem que as putas de verdade são as detentoras de livre arbítrio; Desconhecem mais ainda que o livre arbítrio é uma das mais cruéis punições que se pode carregar em vida, e que decidir que caminho tomar é algo que requer muita racionalidade e pensamento.

_ Você vai me deixar louco se continuar me dizendo o que quero ouvir. Dê pelo menos uns segundos entre uma resposta e outra pra eu achar que você está em dúvida e que não tem todas essas respostas decoradas.

_ Essa não seria eu, e se fosse diferente você não estaria há tanto tempo me ouvindo...

_ Quero te comer.

_ Você se acha capaz de me dar prazer?

_ Há duas horas atrás eu responderia que sim, mas agora eu não tenho certeza. Minha impressão é que tentar te agradar é um caminho sem volta. E mesmo que volte, jamais serei eu mesmo novamente.

_ Você tem algo a perder?

_ Só as lembranças do que já perdi. Elas é que me fazem ser o que sou hoje.

_ Então aproveite pra começar a perder agora o que será amanhã.

Há muito lhe faltavam os argumentos para discutir, ou a vontade de se entregar dominava tudo. Não resistiu aos beijos dela, aos carinhos dela, ao corpo dela, quente, visceral, maternal, que trazia com ele todo o balanço morno de colo, todo aconchego e segurança que tinham lhe arrancado fora com o corte abrupto do cordão umbilical. E assim passou a noite toda beijando,
lambendo, chupando, sorvendo aquele calor que parecia inesgotável. Despejou nela, junto com o sêmen, todo seu cansaço, desilusão, raiva, descrença. Acordou renovado com o desabafo. Fumou um cigarro, beijou-lhe a testa e partiu.

Sentia que o mundo estava mais leve. Os muitos dias que se seguiram estavam cobertos pela aura indecifrável da ausência, pela fissura discreta da saudade, mas ele sequer deu conta disso. Seguia a vida normal, embora um tanto mais agradável. Ele e a vida... Sabia que para manter a felicidade que havia sentido era necessário expor os temores e anseios acumulados em tantos
anos. Para receber era preciso dar, e ele não tinha nada em si que valesse a pena entregar a outra pessoa. Preferia deixá-la livre, sem o peso de um sentimento amputatório. Não teve coragem de pagar pra ver.

Mesmo com toda essa precaução, não conseguiu esquecê-la. Numa dessas noites em que o ar e o mundo parecem mais pesados, e o corpo parece não aquietar-se, resolveu voltar ao ponto onde o mundo tinha se reorganizado para ele. As risadas e os gemidos dessa gente de vida fácil, e boa, nunca lhe soaram tão agradáveis. Sorriu como se desse uma gargalhada, e jocosamente seu cérebro tecia as mais improváveis desculpas para estar ali, como se o pecado pudesse ser justificado pra quem quer que seja. Procurou a placa, o caixote, o cigarro, mas nenhum deles estava ali. A tempestade desabou assim sem aviso, sem nenhuma gota a pingar primeiro bem no meio da testa. Seu desolamento fez até o céu chorar, mas ele mesmo não conseguiu.

_ Tá me procurando?

A chuva embaçava a noite, mas ele a viu muito bem. O corpo, agora vestido, nada tinha de oferecimento, mas a boca levemente entreaberta deixava transparecer um quê de desejo, ou de algo que ele jamais saberia.

_ Eu vim dizer que te amo.

Não era bem isso que pensava em dizer, mas a frase saiu sem que ele conseguisse ter o menor controle. Ela não esboçou nenhuma reação. Deu um sorriso meio de lado sem nenhum sinal de constrangimento nem apreço pelo que acabara de ouvir. Deve ter ouvido isso várias vezes, ele pensou, precisaria de muito mais pra convencê-la. Ele também precisava de mais do que isso para se convencer da sua própria sinceridade.

_ Eu soube que poderia te amar da primeira vez que te vi. Você não tinha pena nos seus olhos, na verdade você não tinha nada. Nada a oferecer então nada a cobrar, era um daqueles que nunca voltam. Pensei em você todos os dias. Com o tempo fiz você representar pra mim um papel que eu construí pra você, e eu comecei a querer que você voltasse pra me dar as deixas que eu
precisava. Mas o tempo foi passando e a verdade em mim foi construída com pequenas mentiras que eu arranquei de você em uma só noite. Um sentimento verdadeiro em bases falsas não tem como durar.

_ Eu disse que vim dizer que te amo.

_ Agora é tarde. Você se esqueceu do princípio da temporalidade. Tudo tem seu tempo, e você deixou passar o meu.

_ O tempo é subjetivo, é hoje, é quando. Podemos refazê-lo.

_ Não discordo, mas acontece que não confio mais em você. Você pode até dizer que a confiança pode ser refeita, não duvido, mas para isso você teria que me abastecer com duas vezes mais verdades, pra que a construção feita de agora em diante possa suplantar tudo o que foi desmoronado anteriormente. Não acho que você seja capaz disso, mas se for, vai saber como me achar.

Ela se virou e foi embora, levando com ela o corpo, a placa, o cigarro, e um pedaço de esperança que ele jamais teria de volta. Ele sabia que era a última vez que se viam...

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6.3.08

Cinema no Olhar

Tazio Secchiaroli (1925-1998) é considerado o primeiro "paparazzo" da história da fotografia, com 30 anos de carreira dedicados ao cinema.

Secchiaroli foi eternizado no cinema pelo cineasta italiano Federico Fellini no filme "La Dolce Vita", pois foram as histórias do fotógrafo que inspiraram o roteiro do diretor. Da conversa entre o diretor e o fotógrafo surgiram muitas cenas do filme: o falso milagre, o strip-tease e o famoso banho na Fontana de Trevi da atriz Anita Ekberg. Com o filme também nasce o mito da Via Veneto, a palavra paparazzo, apelido dado por Fellini a Secchiaroli, que passou a significar fotógrafo que persegue celebridades em busca de imagens sensacionalistas.



Sophia Loren no filme Matrimônio à Italiana de Vittorio de Sica, 1964

O diretor Federico Fellini no filme 8 e 1/2, 1963

Brigitte Bardot descansando no set de O Desprezo de Jean-Luc Godard, 1963

Pra ver de perto:
Galeria da Caixa Cultural de Curitiba
até Domingo, 09 de março.
Entrada Gratuita

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This is not a love song



This is not a love song
Nouvelle Vague

Happy to have
Not to have not
Big business is
Very wise
I'm crossing over into
Enter prize

This is not a love song

I'm adaptable
And I like my role
I'm getting better and better
And I have a new goal
I'm changing my ways
Where money applies
This is not a love song

This is not a love song

I'm going over to the over side
I'm happy to have
Not to have not
Big business is
Very wise
I'm inside free
Enterprise

This is not a love song

Not television
Behind the curtain
Out of the cupboard
You take the first train
Into the big world
Are you ready to grab the candle
Not television

This is not a love song

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5.3.08

Tenta sim. Vai ficar lindo!

Não sei quem é a autora, mas é muito bom...

"Tenta sim. Vai ficar lindo".
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim.
Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.

- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?

Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.

- Cavada mesmo.
- Amanhã, às... Deixa eu ver...13h?
- Ok. Marcado.

Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado.

Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.

- Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi
coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão.

Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.

- Quer bem cavada?
- é... é, isso.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.

- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.
- Ah, sim, claro.

Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).

- Pode abrir as pernas.
- Assim?
- Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.
- Arreganhada, né?

Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar. Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca.
Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural. Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais.

- Tudo ótimo. E você?

Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes. O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que
era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.

- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha, bigode não.
- Não, querida, os lábios dela aqui ó.

Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.

- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.

Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.

- Olha, tá ficando linda essa depilação.
- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. "Me leva daqui, Deus, me teletransporta". Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.

- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?
- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.

Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.

- Vamos ficar de lado agora?
- Hein?
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.

Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.

- Segura sua bunda aqui?
- Hein?
- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.

Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:

- Tudo bem, Pê?
- Sim... sonhei de novo com o cu de uma cliente.

Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu Twin Peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá? Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.

- Vira agora do outro lado.

Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.

- Penélope, empresta um chumaço de algodão?

Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.

- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Máquina de quê?!
- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.
- Dói?
- Dói nada.
- Tá, passa essa merda...
- Baixa a calcinha, por favor.

Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha, como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.

- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.

Namorar...namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada. Queria comprar o domínio
www.preserveasbucetaspeludas.com.br

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4.3.08

Moças além-mar

Meu post sobre a Deyse e a Karla é um dos mais lidos por aqui, até a própria o leu, e gostou, diga-se de passagem. O único ato falho da moça é que ela achou que eu fosse homem. Compreensível, eu diria, e na época não tinha foto por aqui.

Hoje a minha dica é pra quem for visitar as terras lusitanas. Conheça também o monumento tombado pelo patrimônio histórico (tombado no bom sentido, claro): a Cris e mais dela aqui , e se sa moça não te agradar, um Olhar Privado sempre ajuda.

Ah, e se você tem mesmo interesse no assunto, que tal ajudar a Wiki GP, aqui ó.

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Regaço


Mayra Andrade

"Com “Navega”, com uma voz de fazer transbordar as almas e de enlouquecer os corações, Mayra Andrade domina no seu balcão e navega… para conquistar os mares e as terras.

Grande, já demasiado grande"

Regasu

Mórna k-um konxé
Inda mininu na regasu
Na óra di dispidida um kré també
Uvi-b oh morna !
Bo seiva,
Invadi-m nha korasom sem limit
Ai si um pudéss,
Bibé um káliss d'bo meludia !
Bo feitiss ta infeitisa-m
Bo prága t'amaldisua-m
Bo séka ta seka-m nha peit
Más mésmu asim ja-m kre-b oh mórna !

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1.3.08

E o presente que é bom esqueci de trazer...

devaneio
s. m.,
ato de devanear;
sonho;
fantasia;
capricho da imaginação;
quimera;
delírio;
desvario.

Hoje esse blog completa dois anos de vida. Dizem que aos dois anos a criança já começa a construir seu eu, adquirindo os conceitos de confiança, causalidade e temporalidade.

Acho que este blog já começou a construir seu eu, aos trancos e barrancos foi achando seu jeito de se expressar, suas vocações e suas fraquezas. Com este aqui, foram 178 posts. Alguns bons, outros ruins e outros que eu ouso dizer que foram muito bons. Existem algumas coisas que eu escrevi das quais eu me orgulho de verdade (e estão aí ao lado nos Devaneios Preferidos), outras é só pra encher linguiça. Eu tenho uma necessidade muito grande de escrever, sempre, qualquer coisa. Escrevendo eu organizo os pensamentos, crio idéias, princípios e clareio um pouco os meus horizontes meio tortuosos.

Foi para isso que ele nasceu, no dia 1 de março de 2006. Eu estava prestes a completar dois anos de um relacionamento complicado e torturante e não parava de escrever cartas intermináveis pra ninguém. As cartas começaram a ficar grandes demais, chatas demais, e eu resolvi escrever coisas mais simples, mais leves, que me fizessem ler no futuro quem eu era, ou quem eu queria ser. Foi aí que surgiu o Correntes, que começou toda história.

Mal sabia eu na época que doze dias depois esse blog seria fundamental na minha vida. Perdi minha mãe e queria escrever tanto, mas tanto, que não consegui escrever nada. Chorei o que tinha pra chorar e então publiquei compulsivamente durante oito dias os poemas dela. Ter feito um blog pra mim me fez ter a brilhante idéia de escrever um pra ela. In Memorian deveria ser, mas ela sempre achou que um minuto de vida na hora da morte bastava pra tornar qualquer vida válida. Eu quis dar a ela um pouco mais de um minuto, seus poemas ficarão por aqui até que eu mesma já não esteja mais...

Durante esses dois anos este blog passou junto comigo por várias outras situações, infelizmente mais situações ruins do que boas, mas é escrevendo que eu promovo a catarse dos meus sentimentos. É através das palavras que eu encontro o conforto e calma necessários para encarar qualquer problema. O blog também me deu inúmeros presentes, amigos cujas palavras eu compartilho diariamente e estão linkados aí nos devaneios alheios.

Agradeço a todo mundo que tem a paciência de ler o que eu escrevo. Sei que nem sempre concordam, uns opinam, muitos não. Mas seria chato saber que nada disso aqui está sendo lido. Anônimos ou não, são as pessoas que passam por aqui todo dia que fazem essa catarse dar certo.

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Eu trocaria a eternidade por esta noite...


Relicário
Nando Reis

"...
Sobe a lua porque longe vai?

Corre o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade por esta noite

Porque está amanhecendo?
Peço o contrario, ver o sol se pôr
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for
..."

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A culpa é da azeitona

Não faz muito tempo que ouvi de duas pessoas a mesma frase como resposta a um questionamento meu: "O problema é comigo", geralmente esta frase vem associada a "me fudi no relacionamento anterior e agora não quero nenhum envolvimento".

Normalmente essa resposta é o típico PPH, Papo Padrão de Homem. Mas para alguns isso é mesmo uma verdade. Eles se envolveram demais numa relação que fracassou, e começam a querer se afastar de toda e qualquer possibilidade de ter algo parecido. Os seres humanos gostam de basear as coisas em padrões. Basta ver algo parecido para jogar tudo no mesmo saco e decidir sem ter certeza de que seria a mesma coisa mesmo. Com o tempo a gente consegue distinguir os que estão dando uma desculpa para não ficar mal na fita, e os que estão sendo sinceros quando dizem que não querem se envolver.

Mas como é possível ter algum prazer, como é possível respeitar o outro, como é possível gostar de alguém ou de alguma coisa, como é possível realizar um pequeno ato que seja sem se envolver naquilo?

Que importa o que vai ser amanhã? O importante é que o que se fez hoje tenha todo o sentido possível, e para isso é preciso se envolver.

As relações hoje em dia se tornaram tão frugais e os interesses pessoais tão acima de qualquer outra coisa que além de não se querer um compromisso, agora também o envolvimento, mínimo que seja, é um carrasco para o ideal egoísta de liberdade?

Eu sempre acho que não é o envolvimento o vilão dessas histórias. O medo o é. Os problemas são sempre internos demais e vão se acomodando de um jeito que fica muito difícil se livrar do conforto que a solidão é capaz de trazer. Os anseios pessoais acabam por impossibilitar a troca, mesmo que de algumas horas, de si com outro. É o medo da falta de estabilidade.

Algumas pessoas são assim. Neste caso, se eu as questiono, "o problema é comigo". Mesmo.

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