18.3.08

Re: Longas cartas para alguém...

A cada momento que penso finalmente lhe entender me surpreendo ao reconhecer o quão ignorante sou nesse assunto. E se em cada um desses momentos me sinto mais feliz de perceber novas coisas que deixei passar, vejo também como é repreensível esta desatenção que me acompanha desde sempre, pois não é de hoje que tenho dificuldades de perceber coisas a poucos palmos do meu nariz (coisas abstratas ou não, sou bem cego de uma forma geral).

De qualquer forma é uma agradável surpresa receber mais essa carta (independente do conteúdo). Mesmo não sendo a enésima e mesmo que nenhuma das outras tenha sido ignorada ou muito menos rasgadas em pedacinhos como você mesma disse. Todas foram ouvidas e compreendidas, e se alguma não foi respondida, não foi por falta de importância ou desconsideração, mas pelo fato de nem mesmo eu ter as respostas que acredito que você mereça ouvir. Entendo suas frustrações em fantasiar sentimentos ou colecionar ilusões, algo com que me identifico em muitas formas, mas que hoje nem sei se sou ainda capaz de fazer...

Como muitos outros sou uma pessoa estranha (ou ao menos me considero assim), e não digo isso para me justificar, pois não existiriam justificativas agora ou em algum outro momento que explicassem os meus "porquês" em termos de comportamento sem passar uma impressão mais equivocada do que a outra, portanto até segunda ordem estão suspensas as minhas supostas "desculpas esfarrapadas" a fim de evitar novos enganos.

Confesso que assim como o personagem da sua segunda carta-conto, sou vazio na maior parte do tempo. As vezes saio e me disfarço em outras pessoas mais normais e até convenço alguns que sou como todo mundo, mas o fato irremediável porém é que não sou, ou pelo menos não me sinto como tal. E não digo isso também para me colocar em um lugar diferenciado do lugar comum, tentando parecer único ou especial, mesmo acreditando que todos somos únicos de uma forma ou de outra, pois tendo consciência de que esta é uma das minhas poucas certezas, me preocupo vez ou outra como essa unidade pode ou não determinar nossa visão das coisas assim como nossa maneira de interagir com outras pessoas, independendo do seus tipos ou formas... Tudo isso pode até lhe parecer um pacote de reflexões vazias, mas é só o que eu tenho. E não acreditando em muito mais do que isso por hábito ou não, temporariamente isso me basta para ocupar boa parte do meu tempo.

Com você me senti confortável o bastante para mostrar algo mais próximo de mim, o que não é pouco para mim. Mas sei que isso pode (e até deve) lhe parecer insuficiente, pois apesar dos meus aparentes esforços ainda passei longe de ser pra você algo verdadeiro (e infelizmente eu sempre soube disso).

Suas cartas são para mim sempre uma alegria, pois frente as inúmeras controvérsias com as quais vivo me colocando e pela multiplicidade de "falsos eus" com os quais desfilo todos os dias, percebo alguém falando comigo. Com a pessoa real que sou, ou o mais próximo dela que a maioria consegue. E isso é reconfortante em muitos sentidos. Algum tempo atrás eu lhe disse que eu era uma pessoa bem simples, sem grandes complexidades ou dilemas. Uma mentira deslavada que apesar de ter sido movida mais por hábito do que por qualquer outra grande razão (ou mesmo má intenção), foi apenas mais uma parte de um desses pequenos personagens que talvez você já tenha notado em outros momentos, pois esses meus personagens tendem a ser bem contraditórios em determinados momentos.

Tenho sim, uma vontade sincera de estar com você. Nunca escondi isso, mesmo quando sabia que deveria ter feito isso. Compreendo também que eu posso causar mais confusão do que talvez devesse, e sempre soube ter bem menos a oferecer em troca, por isso até nunca prometi o que sabia que não poderia entregar (me faltam alegrias entre outras coisas pra dividir).

Tentando ser alheio ao tempo e as possibilidades que podem realmente já estar extintas pela minha falta de jeito, me pergunto o que realmente acabou? Mais apropriado seria talvez perguntar o que não começou?

Nem por isso vejo você sendo mais ou menos triste por isso. Como você mesma menciona nessa última carta, nenhuma dessas rejeições lhe afetou de verdade, e se afetou, foi muito menos por mim do que por você mesma... No meu caso também não é muito diferente. Talvez nós dois tenhamos o mau hábito de fantasiar demais, pensar demais, ou de romantizar demais... (ou talvez seja só eu). É bem mais fácil ser platônico do que ser real, e é ainda mais fácil se dispor a sacrificar tudo do que falar com alguma sinceridade a quem precisa. Nunca achei isso menos estranho do que hoje, e ao mesmo tempo também nunca acreditei achar isso de alguma forma tão perto.

Assim como você, também queria lhe dar muitos beijos, recitar poemas, e viver dias felizes. Mas infelizmente também não sou assim, e provavelmente por nenhum de nós sermos dessa forma que tenhamos compartilhado alguns tantos silêncios incômodos entre outros poucos momentos de (quase) sinceridade.

Talvez eu tenha sido mais sincero agora do que já fui em todas as outras vezes, mesmo já imaginando você movendo a cabeça pra negar essa possível sinceridade. Talvez você também tenha sido nessa última carta mais sincera do que antes (eu pelo menos desejo pensar isso) e por isso que eu continuo interessado em lhe conhecer de verdade, da mesma forma que gostaria que você também me conhecesse como sou. Bem sabemos no entanto que essas coisas não ocorrem de forma tão racional assim, mesmo que para que isso ocorra dependa ou não apenas de nós.

No mais, continuo desejando sinceramente que você encontre o que procura, e desta vez me disponho a não assinar esses desejos anonimamente ou de qualquer outra forma vaga como essas insinuações anônimas que temos feito já há algumas semanas. Penso que cartas devem ter sempre destinatários e remetentes imprimindo nossas vontades reais de se expressar e dando espaço para que possamos responder em algum pé de igualdade, se isso for de alguma forma possível.

Bjocas,
Alguém

3 comentários:

Shuk disse...

Achei vc...
coloqwuei como link meu profile do orkut..

add lah depois

um beijo...

Samoça disse...

Oi Nat,

Na boa... Ô, não deixa ele ir embora...

Beijos.

Nat disse...

Shuk, eu não tenho Orkut. Mande-me mail, pls.

Samoça, nada na vida é tão simples assim, além de tudo ser ilusório...