10.3.08

Carne de Segunda...

...porque gente como eu se alimenta de cérebros.

Tomás Eloy Martinez

A mão do Amo

"Pouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sono de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gatos movendo-se entre tições de negra luz.

O homem dormia de boca aberta e, quando ele adentrava o cone de escuridão onde pairavam os sonhos, uma manada de gatos saía de sua boca rasgada por berros de cio e mergulhava no rio dos engenhos de açúcar. Mãe esperava na margem, como sempre, protegendo-se do verão com a sombrinha, a blusa abotoada até o pescoço apesar dos ardores da tarde, e ao lado dela Pai, revirando os bolsos do colete em busca dos óculos. Lembra daqueles dedos maciços, possantes como troncos de pinheiros, acariciando o pescoço de Mãe enquanto ela falava?: 'Por que você não mata o Carmona de uma vez, Pai? Está esperando o quê?'. E você agarrado na saia dela, implorando: 'Não me batam, Mãe, não me matem'. Era assim, lembra? Atrás do sonho corria o rio, perdendo-se nos confins das montanhas amarelas. Todas as noites Carmona queria entrar nas montanhas, mas Mãe não o deixava chegar nem perto."

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"O sangue passava por ali como uma fogueira rápida, e, quando se apagava, Carmona sentia um profundo desamparo e o pressentimento de que todas as felicidades que um dia imaginara estavam para acabar: também as felicidades que nunca viveria estavam para acabar. Veio-lhe à memória uma imagem que lera no inferno de Dante: 'Estávamos sós, sem suspeita alguma'. E tentou evocá-la em italiano, para não desfigurar sua beleza: 'Soli eravamo e sanza alcun sospetto'. Agora reinava a mesma emoção: o tempo revoava, solitário, e neles não havia suspeita, porque o passado não existia. Nenhum dos dois sabia quem era o outro; quem, afinal, era quem.

Embora as palavras fossem desnecessárias, ela falou:

_ Não vão deixar você ser feliz. Não permitem que pessoas como nós sejam felizes. Eu nunca fui, sabe?

Carmona sentiu aquela intimidade como uma carícia.

_ Nunca? Se alguém me perguntasse como é a felicidade, eu diria: é uma mulher que conheci no trem.

Ela levou as mãos à boca e, como seus dedos eram translúcidos, ele a viu sorrir. Reconheceu o sorriso de lado que tanto lembrava o de Mãe. Como se advinhasse seu pensamento, a mulher murmurou, olhando-o nos olhos:

_ Quem dera você fosse meu filho.

Nisso, o trem apitou: primeiro sem convicção, como um convalescente; em seguida mais duas vezes, longas e firmes.

_Tudo já passou - disse Estrella - Temos que ir.

_ Não - resistiu Carmona - Vamos ficar.

Tentava arrefar o instante, mas não sabia como. Nenhum instante, nunca, quisera ficar com ele.

_ Você não viu este lugar de dia Carmona. Não viu, mesmo. Estamos no meio do nada. Se ficássemos, seria pra morrer.

_ Não faz mal.

Ela disfarçou sua impaciência e lhe falou como se realmente fosse seu filho:

_ Isto aqui é um não-lugar, feito para coisa nenhuma. Milhares de pessoas cavaram nele, para nada. Aqui perderíamos tudo, até a sensação de que estamos morrendo. Quanto tempo você acha que continuaríamos vivos?

Ele respondeu em voz baixa:

_ A eternidade."

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