15.3.08

Longas cartas para alguém...

Essa é a enésima carta que escrevo pra você, e provavelmente vai terminar em pedacinhos na lixeira como as outras tantas. Daqui a poucos dias teremos nos conhecido há quatro longos anos e apesar de não nos vermos há muito tempo, eu queria te dizer alguma coisa que prestasse neste dia. Algo que pudesse resumir tudo que já te disse, porque com certeza já te disse tudo. Metade inebriada pela paixão, metade sufocada pela raiva, nada que prestasse pra alguma coisa. Agora já distante de tudo talvez eu seja capaz. Não consigo usar meu bom humor para falar de amor, talvez porque eu não saiba falar de amor, talvez porque eu não saiba verdadeiramente amar. Continuo colecionando ilusões, na impossibilidade de colecionar pessoas de verdade. Continuo fantasiando sentimentos, na impossibilidade de senti-los de verdade. Não me julgue por minhas palavras ditas nem pelos meus atos feitos, eu fui sincera ao fazê-los. É que o tempo passa e a gente tem a péssima mania de relativizar tudo. Eu tenho.

"Se vais beijar como eu bem sei,
fazer sonhar como eu sonhei,
mas sem ter nunca amor igual
ao que eu te dei..."

Preste atenção em uma coisa, eu não controlo o que eu escrevo. É um fluxo contínuo de palavras que algo em mim (cérebro ou coração, pouco importa) manda eu escrever. Depois de pronto, eu leio. Se gosto, deixo. Se não, rasgo. Eu amo da mesma maneira. Um fluxo contínuo e insensato de ordens. Não vou ser ingênua a ponto de afirmar que não as controlo. Até posso, mas isto não depende de mim. Às vezes me afasto, porque é melhor sonhar. Nos meus sonhos posso dar vazão às ordens. Mas quando não sou eu que decido isso, eu me perco. Me afogo nos meus próprios devaneios. Quando estou sem, sinto falta. Me apaixono sem ter me apaixonado. Viro duas pessoas em nenhuma. Não aceito rejeições. Não gosto de fins, embora saiba que sou eu que devo decidir quando acabou. Ou aceitar que acabou.

"E acharei doce o fel desta amargura,
Se, em novo amor, tiveres a ventura
Que eu não te soube ou não pude dar!"

De novo me perco escrevendo pra você. Mais fácil seria se eu ousasse admitir que não importa o que senti por você, foi sincero, e isso basta. Até basta, mas eu me perdi numa série de considerações sobre o mesmo tema, que me encheram o saco, muito mais o seu, e talvez entender o que eu senti seja mais um pedido de desculpas do que propriamente uma vontade minha. Mas ainda é uma vontade. No começo ia tudo bem, mas minhas defesas eram nulas, como hoje já não são mais. Um dia, sem aviso algum, eu me apaixonei. Aí a coisa desandou. Alguns diriam pra eu não confiar tanto nas pessoas, mas como poderei fazer isso? Logo eu, a crença em pessoa. Talvez eu não confie mais em sentimentos. Antes eu achava que ninguém conseguia controlar os sentimentos. Doce ilusão. Alguns são mestres nisso. Eu não.

"E é só assim que eu perdôo seus deslizes.
E é assim nosso jeito de viver.
Em outros braços tu resolve suas crises.
Em outras bocas, não consigo te esquecer..."

Hoje já não sofro tanto, mas acabei por colecionar meia dúzia de rejeições. Involuntárias? Provavelmente não. Só estou revivendo aquele velho jeito de só aprender na marra. Mas nenhuma dessas últimas me afeta de verdade. É por isso que quando me esgotam as tentativas mentais, me resta você. Com você eu tenho momentos, tenho passado, tenho desejo de futuro. Quando não se tem o que lembrar, ou o que se tem é pouco, a dor esgota rápido, a imaginação sem pequenas memórias não cria frutos duradouros. Sofrimentos ocasionais e necessários, assim os chamo. E eu ainda tenho coragem de dizer que não sou masoquista. A vida me fez assim, irônica e hipócrita. É preciso que eu aprenda rápido, eu tenho urgência. É preciso que eu encontre logo um lugar pra despejar tanta coisa, alguém que aguente isso tudo. É urgente e preciso. Enquanto isso eu vou me divertindo, me ferrando, aprendendo. E de vez em quando penso em você, porque você foi o último. Como você odiaria ouvir isso tudo. Ou reclamaria que é muita coisa pra ler. Mas eu fui injusta com você, talvez você nem saiba. No final eu acabei descobrindo que você não era aquilo que eu queria acreditar que você fosse, mas aí já era tarde, como sempre é. Eu queria ter conseguido alguma outra maneira de ter terminado tudo isso, queria poder lhe dizer coisas, muitas coisas, muitas asneiras, sandices, besteiras. Queria te dar muitos beijos, e recitar poemas, e viver mais dias felizes.

Mas sendo eu mesma, não o que eu fui pra você.

"Disse adeus, e chorou,
Já sem nenhum sinal de amor
Ela se vestiu e se olhou
Sem luxo mas se perfumou.
Lágrimas por ninguém
Só porque é triste o fim!
Outro amor se acabou..."

---
Créditos:
Alguém me disse - Evaldo Gouveia / Jair Amorim
Adeus! - Leopoldo Braga
Deslizes - Michael Sullivan / Paulo Massadas
Ela disse adeus - Herbert Viana

4 comentários:

Ligia disse...

me empresta para eu mandar prá um certo alguém? rs

bjks

Nat disse...

Ô Ligia, claro... E até te dispenso de citar a autoria, senão ia ficar bem estranho, não é?

Hahahaha

Samoça disse...

Oi Nat,

Que arraso essa carta... bem escrita e bem... Nooooossa.

Beijo.

Nat disse...

Samoça, querida, obrigada por mais este elogio hehehe

Acabei de publicar uma resposta de alguém pra mim.

Bjs