30.3.08

Pegando onda

De vez em quando me pego lutando contra meu próprio preconceito. Ás vezes é só um pensamento estranho, rápido, mas que luto pra identificar, controlar e não repetir.
E não é só racismo o que classifico como preconceito aqui. Na verdade, racista é coisa que não sou. Mas não posso negar que às vezes me vem uns pensamentos do tipo: "Deve ser um babaca acéfalo" quando vejo um marombado na rua, como se turbinar músculos fosse atrofiar cérebro. É claro que há quase uma relação obrigatória nisso, pela escassez de tempo para se dedicar aos dois, mas não deixa de ser um preconceito. Existem marombados
por aí que são inteligentes, e talvez não sejam uma exceção pra comprovar a regra.
Existem outros tipos de pré-julgamento que faço, geralmente associados a roupas curtas, decotes indecentes e cabelos oxigenados. É provável que existam mulheres que gostam dos cabelos daquela cor, estilo Suzana Vieira deplorável na novela das oito. Talvez lhes tenha faltado dinheiro para aumentar os shorts, sei lá, são tantos os fatores que eu não posso tecer teorias de verdade absoluta sobre essas pessoas.
Mas tem uns preconceitos bobos que não merecem tanta graça. É quando alguém anda atrás de você na rua e pela cara você acha que ele vai te assaltar, é o cara que sobe no ônibus com uma roupa esquisita e você acha que ele é bandido. Esse tipo de pensamento hoje em dia é mais do que banal, é cruel. É preconceito puro, e não com negros, como dizem os ativistas da causa, mas sim com pobres. Um dia eu estava no ônibus passando pela praia de Icaraí, um calor infernal, a praia recém-liberada pela Feema, e vários garotos com prancha de surf tentando pegar onda na baía, quando o point do surf em Niterói é em Itacoatiara, quarenta minutos de ônibus e oásis de casas belíssimas dos endinheirados.
Uma senhora do meu lado, daquelas bem senhorinhas mesmo, cabelos brancos, fazendo tricô, devia ter mais de setenta anos, verbalizou o que todo mundo estava pensando na hora, ao olhar a cena, com cara reflexiva e acabou pensando alto (a senhora certamente era surda pra pensar naquela altura, todo o ônibus ouviu). Ela disse:

_ Que coisa! Até mar de pobre é sem onda...

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