11.3.08

Requiescat in Pace

O telefone tocou antes das sete da manhã de uma segunda-feira. Uma manhã que seria como outra qualquer se não seguisse um final de semana de estranha apreensão. Desde que colocaram-lhe a sonda a mãe tinha dito "Chama minha filha que eu vou morrer". Só ficou sabendo disto depois. Não tinha ido porque a família acreditava que tinha que ser poupada da última visão. No fundo não tinha ido por um misto de raiva, vergonha, indiferença e medo de não ser reconhecida. Não queria correr o risco de ser chamada de Carolina, nome que ela repetia incessantemente a todos que via. Não sabia se conseguiria interpretar mais este papel na frente da mãe. Foram tantos, o que custava mais um? Carolina, quem seria? Hoje não importa mais.

"Ela apagou a luz", alguém declarou alguns dias antes. A mãe tinha lhe confessado que queria morrer numa cama, sendo cuidada por todos. A morte lhe supriria a carência, coisa que não conseguira em vida. Será que ela imaginava ver a filha aos seus pés? Dificilmente. Não foi fácil ouvir a verdade, mesmo tendo acompanhado o rápido processo de degradação da mãe depois que desistira de viver, mesmo depois de saber da pneumonia que lhe devastava os pulmões de 37 anos de cigarro e alguns muitos outros de ar irrespirável, mesmo sabendo que ela tinha escolhido a morte que lhe convinha, e que no final deve ter partido feliz.

Muitas vezes tinha desejado que a mãe morresse. Muitas vezes tinha imaginado alguém batendo à porta para dizer "Sua mãe morreu, você está livre agora", como se a ajuda pudesse vir dos céus, quase que divina. Mas depois de ter conseguido resolver seus problemas sozinha, e na hora que teve a certeza de que jamais sentiria raiva daquela mulher de novo (ou que jamais poderia culpá-la por suas próprias escolhas), sentiu-se presa a uma luta sem sentido e chorou como nunca tinha imaginado que choraria.

Depois que morrem, todas as pessoas viram boas. Não nos vale mais o esforço de ficar falando mal de alguém que já não está ali para sentir o peso da repreensão. No caminho longo até a cidade onde vivia a mãe, ela pôde repensar mentalmente todas as coisas horríveis que já tinha ouvido dela, e todas as coisas também horríveis que já tinha dito. Se lembrou da ausência constante, das brigas constantes, da vontade insuportável de não voltar nunca mais, da primeira vez em que não precisou voltar...

Do exato momento em que deixaram de ser felizes juntas, ela não se lembrava mais. O sofrimento que lhe fôra causado pela mãe depois de um tempo apagou todas as lembranças boas que tinha. A culpa, o remorso, ou a esperança de que tudo pudesse mudar, já não sabia mais, faziam-na sempre visitá-la, e invariavelmente era escorraçada de casa, que deveria ser a sua também. Na rodoviária, de madrugada, jurava que jamais voltaria. Mas sempre voltava.

O choro tinha cessado ao abraçar o irmão, talvez a única pessoa que tenha amado a mãe de verdade, e mesmo assim tinha tido coragem de pedir ajuda pra escapar daquele lugar. Do fundo das lembranças a serem esquecidas veio a voz da mãe lhe acusando de ter destruído sua vida quando a viu levar o irmão embora, poucos meses antes daquele dia.

O seu amor pela mãe era mais obrigação do que vontade, mais passado do que presente. Era o amor de quem tinha se visto privado dele, amor de quem tem uma capacidade de amar maior do que a requisitada. Amor que se viu esvaindo em cada abraço de pêsames, guardado calorosamente no colo dos que herdaram a carência, e não a dor. Quando viu o caixão já não tinha mais do que um vazio por dentro.

"Nem sei se ela preferia ser cremada" foi seu pensamento quando o ritual, que julgava desnecessário e enfadonho, começou. Na primeira pá de terra sentiu dor, na segunda sentiu pena, na terceira sentiu paz. Fechou os olhos e se despediu baixinho, num rosário compreensível só para si mesma. Ao perdoar a mãe naquela hora, recebeu dela pela segunda vez a sua vida.

3 comentários:

DarwinistO disse...

Foda Nat, em todos os sentidos, de deixar um nó na garganta. Valeu.

Anônimo disse...

nat querida, nem sei o que dizer... fortes, sinceras suas palavras.

beijos

Nat disse...

Gente, nem tudo que parece real é verdadeiro, e nem tudo que parece doloroso é de verdade doloroso.

O estranhamento deriva do distanciamento.

Ou, simplificando, como dizia a minha vó: "Deus dá o frio conforme o cobertor".