8.3.08

Venda da Cruz

Ele acordou com um fogo lhe consumindo as vestes. Levantou, despiu-se com cuidado, deixando a roupa macia e quente de inúmeros anseios noturnos acariciar seu corpo. À medida que ia levantando a blusa, um vazio ia subindo pela espinha até tocar a nuca. Tremeu, arrepiando-se por inteiro.

Entrou embaixo do chuveiro, encostou a testa no azulejo frio e deixou que a água morna deslizasse pelas costas, com suas unhas curtas de amada dócil afagando-lhe o espírito. Secou as orelhas, o espaço morto entre os dedos do pé, sacudiu os cabelos tal como faria um cão, vestiu-se ainda molhado e saiu.

Na rua sentiu-se tonto, como se existisse ar demais pra respirar. Abriu os braços, levando-os de um lado a outro, pegando impulso para em seguida rodopiar feito pião, girando sem lógica até cair, torto. Quão amarga era a companhia da solidão. Cobria-lhe de mimos para na hora certa cobrar o que havia de mais precioso nos seres humanos: a esperança. Agora só restava, só. Decerto a solidão saberia reconhecer sua dedicação...

Levantou ainda meio perdido, sem reconhecer o lugar onde havia deitado. Ouvia um misto de barulho e silêncio, risadas e gemidos, o chão girava lentamente, e parecia que girando tinha feito o tempo ruir-se em pedacinhos, construindo uma nova estrutura. Uma nova chance? Bateu um vento na pele, um sopro de não se sabe onde, excitou-lhe os nervos, o membro, deixando-o pronto para apreciar pela primeira vez a comida que lhe era oferecida.

Sentia um misto de vergonha e curiosidade ante a loucura jamais prenunciada, ante a majestosa figura do membro ereto, empunhado como espada, a única arma que tinha a oferecer aos inimigos. Já era hora de assumir a essência masculina renegada, deixar de usar os artefatos que ganhara da vida somente como escudo, sem coragem para encarar de frente os anseios do corpo. Parar de esconder-se atrás de órgãos mancos, deixando apagar a chama de homem que
lhe fazia não especial, mas o que tinha que ser por direito de nascença. Caminhou renovado. Sentia-se gigante, esquecida a sua pequenez costumeira. Entrou num beco de onde saíam as risadas e gemidos, e foi com frescor que se pôs a olhar as maravilhas dos submundos da sua vida. A catarata da racionalidade que cegara seus olhos até então, era rapidamente substituída
por novas lentes. E ele pôde ver com clareza a fúria de terremotos em coxas frágeis, maremotos em seios rígidos, vendavais em pêlos que salivava em ter na sua boca entranhados nos seus dentes. Seu corpo ardia, vulcão passivo, sua lava remoendo entranhas, o fogo domando seu próprio fogo para poder sair sem nada devastar.

Seu faro seguia procurando algo que não sabia exatamente o que era. Aquelas mulheres, seminuas, andando de um lado para o outro, feito urubus procurando carniça, não mereciam a glória ingrata de sua luta. Procurava alguém por quem quisesse perder suas defesas e entregar-se como prisioneiro de guerra. Alguém que o fizesse guerreiro, mesmo desarmado.

Perdia-se nestes devaneios quando viu uma placa que dizia "Decifro-te e te devoro. Em troca exijo prazer". Lia e relia os dizeres com uma expressão de não ter entendido nada. Na verdade procurava as entrelinhas, que decerto existiam, em um oferecimento atroz generoso.


_ É de graça, pode acreditar.

A voz era distante e presente, rouca nas terminações, levemente acentuada, sibilosa, como se acompanhada de uma lambida discreta nos lábios ressacados pelo ato de falar. Ela estava sentada, nua, num caixote de madeira, as pernas cruzadas displicentemente, dando um ar de recato ao corpo francamente oferecido.

_ E o que você ganha com isso? - ele perguntou depressa, tentando dissipar um certo ar de fascinação que dele tomava conta.

_ Prazer, é o que diz o anúncio.

_ E quem pode garantir ser capaz de oferecer prazer de verdade?

_ Você deveria saber responder essa pergunta. Todo homem se julga capaz de dar prazer a uma mulher...

_ E em quais você acredita?

_ Em nenhum.

_ Então como você escolhe?

_ Não sou eu que escolho, eles é que me escolhem. Só me procuram os que precisam de entendimento. Estes costumam me dar prazer.

Ele não sabia se estava se sentindo num filme de quinta categoria, onde o ator canastrão usava barbicha mal feita, calças apertadas e em uma determinada hora deveria olhar pra câmera e falar "Oh, baby", pronto pra agarrar a mocinha, ou se num déja-vu clichê, onde todas as frases ditas eram as que ele tinha predeterminado no roteiro. O certo é que aquela garota
mexia com ele. Nada de sinos tocando e outras papagaiadas, mas sentia que a franqueza e pretensa liberalidade dela o atraíam, como uma criança quando descobre um doce.

_ Convenhamos que não é difícil querer te escolher quando se está na sua frente e você está nua. Bastaria isso, mas você ainda diz coisas coerentes, sensatas, inteligentes e intrigantes...

_ Os homens desconhecem que as putas de verdade são as detentoras de livre arbítrio; Desconhecem mais ainda que o livre arbítrio é uma das mais cruéis punições que se pode carregar em vida, e que decidir que caminho tomar é algo que requer muita racionalidade e pensamento.

_ Você vai me deixar louco se continuar me dizendo o que quero ouvir. Dê pelo menos uns segundos entre uma resposta e outra pra eu achar que você está em dúvida e que não tem todas essas respostas decoradas.

_ Essa não seria eu, e se fosse diferente você não estaria há tanto tempo me ouvindo...

_ Quero te comer.

_ Você se acha capaz de me dar prazer?

_ Há duas horas atrás eu responderia que sim, mas agora eu não tenho certeza. Minha impressão é que tentar te agradar é um caminho sem volta. E mesmo que volte, jamais serei eu mesmo novamente.

_ Você tem algo a perder?

_ Só as lembranças do que já perdi. Elas é que me fazem ser o que sou hoje.

_ Então aproveite pra começar a perder agora o que será amanhã.

Há muito lhe faltavam os argumentos para discutir, ou a vontade de se entregar dominava tudo. Não resistiu aos beijos dela, aos carinhos dela, ao corpo dela, quente, visceral, maternal, que trazia com ele todo o balanço morno de colo, todo aconchego e segurança que tinham lhe arrancado fora com o corte abrupto do cordão umbilical. E assim passou a noite toda beijando,
lambendo, chupando, sorvendo aquele calor que parecia inesgotável. Despejou nela, junto com o sêmen, todo seu cansaço, desilusão, raiva, descrença. Acordou renovado com o desabafo. Fumou um cigarro, beijou-lhe a testa e partiu.

Sentia que o mundo estava mais leve. Os muitos dias que se seguiram estavam cobertos pela aura indecifrável da ausência, pela fissura discreta da saudade, mas ele sequer deu conta disso. Seguia a vida normal, embora um tanto mais agradável. Ele e a vida... Sabia que para manter a felicidade que havia sentido era necessário expor os temores e anseios acumulados em tantos
anos. Para receber era preciso dar, e ele não tinha nada em si que valesse a pena entregar a outra pessoa. Preferia deixá-la livre, sem o peso de um sentimento amputatório. Não teve coragem de pagar pra ver.

Mesmo com toda essa precaução, não conseguiu esquecê-la. Numa dessas noites em que o ar e o mundo parecem mais pesados, e o corpo parece não aquietar-se, resolveu voltar ao ponto onde o mundo tinha se reorganizado para ele. As risadas e os gemidos dessa gente de vida fácil, e boa, nunca lhe soaram tão agradáveis. Sorriu como se desse uma gargalhada, e jocosamente seu cérebro tecia as mais improváveis desculpas para estar ali, como se o pecado pudesse ser justificado pra quem quer que seja. Procurou a placa, o caixote, o cigarro, mas nenhum deles estava ali. A tempestade desabou assim sem aviso, sem nenhuma gota a pingar primeiro bem no meio da testa. Seu desolamento fez até o céu chorar, mas ele mesmo não conseguiu.

_ Tá me procurando?

A chuva embaçava a noite, mas ele a viu muito bem. O corpo, agora vestido, nada tinha de oferecimento, mas a boca levemente entreaberta deixava transparecer um quê de desejo, ou de algo que ele jamais saberia.

_ Eu vim dizer que te amo.

Não era bem isso que pensava em dizer, mas a frase saiu sem que ele conseguisse ter o menor controle. Ela não esboçou nenhuma reação. Deu um sorriso meio de lado sem nenhum sinal de constrangimento nem apreço pelo que acabara de ouvir. Deve ter ouvido isso várias vezes, ele pensou, precisaria de muito mais pra convencê-la. Ele também precisava de mais do que isso para se convencer da sua própria sinceridade.

_ Eu soube que poderia te amar da primeira vez que te vi. Você não tinha pena nos seus olhos, na verdade você não tinha nada. Nada a oferecer então nada a cobrar, era um daqueles que nunca voltam. Pensei em você todos os dias. Com o tempo fiz você representar pra mim um papel que eu construí pra você, e eu comecei a querer que você voltasse pra me dar as deixas que eu
precisava. Mas o tempo foi passando e a verdade em mim foi construída com pequenas mentiras que eu arranquei de você em uma só noite. Um sentimento verdadeiro em bases falsas não tem como durar.

_ Eu disse que vim dizer que te amo.

_ Agora é tarde. Você se esqueceu do princípio da temporalidade. Tudo tem seu tempo, e você deixou passar o meu.

_ O tempo é subjetivo, é hoje, é quando. Podemos refazê-lo.

_ Não discordo, mas acontece que não confio mais em você. Você pode até dizer que a confiança pode ser refeita, não duvido, mas para isso você teria que me abastecer com duas vezes mais verdades, pra que a construção feita de agora em diante possa suplantar tudo o que foi desmoronado anteriormente. Não acho que você seja capaz disso, mas se for, vai saber como me achar.

Ela se virou e foi embora, levando com ela o corpo, a placa, o cigarro, e um pedaço de esperança que ele jamais teria de volta. Ele sabia que era a última vez que se viam...

9 comentários:

Anônimo disse...

foi vc que escreveu ?

Nat disse...

O que não é meu é postado com o nome do(a) autor(a).

Ligia disse...

prá mim a melhor definição do tempo de amor está em "Todo Sentimento", do Chico e do Cristóvão Bastos, quando eles dizem "Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente..." Pena que, na maioria das vezes, as pessoas deixem passar... e sim, fora de seu tempo preciso, o amor acaba...
Lindo texto! bjs

Gwyn disse...

Lindissimo texto !!
Quando li pensei o mesmo que o anonimo..
Fico feliz por poder ler o que voce escreve, me faz muito bem.
um beijao

Samoça disse...

Oi Nat,

Maravilhoso seu texto. Li e reli. O modo tão especial no seu narrar, me fez seguir direções diferentes... Consegui tirar proveito das palavras e ver a imagem. Como num filme.


Volto, às vezes, para reler alguns textos. Tenho procurado por um que gostei muuuuito, mas não consigo achar. Não lembro exatamente se era esse o título, alguma coisa como: Minha... Meu... Era uma carta, isso eu sei. Cadê???

Beijo e obrigada, sempre.

Nat disse...

Samoça, obrigada pelo elogio. Fico meio sem graça, mas eu gosto hehehe

Acho que o texto que você está procurando é este aqui
Bjs

Vicky disse...

Oi Nat,
Achei o texto... uma delícia. Então reli todos aqueles detalhes escritos, e foi notável a culpa que tomou conta de mim quando olhei pela janela e vi que havia vida lá fora.

Beijos!!!

Samoça disse...

Oi Nat,


Obrigada pelo link!!! Esse texto me encanta.

Beijo.

bruno disse...

Muito bom, eu gosto da idéia de que momentos incrívelmente sinceros e simples são atordoantes, e nem por isso recuperáveis... ótimo!!!