1.4.08

Contagem Regressiva

Ela sabia que a depressão estava a caminho. Sempre começava com um porre na noite anterior, uma dormência no cérebro, uma dor na cabeça, como se a culpa tivesse um peso maior do que deveria ter. O processo era sempre o mesmo, mas isso não fazia com que ele fosse menos doloroso. Uma bolha prestes a explodir. Sangue. A febre lhe consumia o corpo, provocando suores intermináveis. O calor do corpo evaporando, condensando-se em contato com a pele. Umidade.

Deixava ela chegar bem devagar, tomando conta de toda a sua fragilidade. Era como um ventro frio entrando silenciosamente pelas frestas da parede de madeira ajambrada. Parede que ela jamais tinha conseguido eregir corretamente. Sempre que parecia sólida o suficiente para lhe proteger, e também sufocar, dava um jeito de destruir um pedaço e recomeçá-la meio torta. Sentia vontade de largar tudo todos os dias, certamente uma fuga, mas no fundo queria uma segunda chance para recomeçar, sem conhecer ninguém, sem ter defeitos expostos, verdades descobertas, mentiras recontadas e revividas.

A dor a consumia por um dia inteiro, uma dor que não sabia de onde vinha, mas agradecia por durar tão pouco. Não conseguiria sobreviver a muitas horas imersa na obscuridade dos seus pensamentos. Se apossava da inércia como alavanca para o dia seguinte. Era assim que vivia, um dia fazendo o próximo ter sentido. E quando achava o sentido a dor voltava, avassaladora.

Ainda tonta da roda gigante dos seus sentimentos, levantou-se e procurou uma caixa no armário. Tirou a tampa e passou a admirar cada uma das miudezas que tinha colocado ali durante a última semana: algumas fotos importantes, poemas, cartas, recados, enfim, quinquilharias que formavam o relicário da sua vida. Pegou um caderno e anotou algumas palavras em páginas espalhadas, com o cuidado de deixar exatamente o mesmo número de páginas em branco entre elas. Marcou uma data no calendário, devolveu o caderno à caixa, pegando em seguida o livrinho de capa azul com cheiro de traça. Retirou cuidadosamente as medalhas acumuladas pela família que estavam dentro dele, símbolos de fraqueza e genética, abriu na página que queria e leu, em voz alta:

Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar

Quando se marca o dia da partida, não importa o que vai ficar para trás.

Coragem para modificar aquelas que posso

Mais do que coragem, é preciso tempo. Acertar a hora da partida, nem um dia a mais, nem um dia a menos.

E sabedoria para distinguir umas das outras

Só hoje, por mais alguns dias.

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