7.4.08

Dia 1

Pra quem não leu o começo, está aqui.
Gostaria de lembrar que esta é uma obra de ficção, que vem a ser um livre exercício criativo da minha mente, com direitos autorais reservados a ela.
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Hoje eu acordei melhor. Estaria bem se não fosse um pequeno nervo latejando à direita da minha testa, inflamado e pulsante como se quisesse mostrar que para cada batida do coração há uma dor equivalente. Para morrer basta respirar e respiramos inconscientemente. Não pensar é um passo para a morte.

Mas não é de morte que eu quero te falar, é de vida mesmo. Dizem que a minha começou (e é sempre importante começar do começo, quando não se sabe o que dizer) num banco de praça em Lumiar. Eu acho um bom lugar para ser concebida, não o banco de praça, claro, me parece meio desconfortável, mas Lumiar. Além do mais, lareiras são bem românticas, embora imagino que tenham sido descartadas no meu caso.

Eu nasci nove meses depois, ou não sei quantas semanas depois, não importa, o fato é que nasci. Pesava determinados quilos e media alguns centímetros. Não era alta para um bebê, assim como não sou agora, embora meu pé tamanho 40 indicasse o contrário aos 11 anos. Meu parto foi todo fotografado e até hoje aquelas fotos servem de consolo para a minha decisão de não ter filhos. Não consigo imaginar cena mais deprimente do que aquele sangue todo e um cordão verde de aparência nojenta prendendo duas pessoas que nem sequer escolheram estar nesta situação. Bem, pelo menos uma das duas não escolheu, no caso eu.

Meu album de bebê me diz que nasci com os olhos cinzas, os cabelos pretos e a pele rosa. Me diz também que eu era "linda, gulosa e careteira", o que me faz crer que certos atributos são definitivamente genéticos. Por ele também sei que sorri pela primeira vez aos seis dias de vida e me sentei sozinha e fiquei em pé no mesmo dia, aos sete meses. Mas o mais importante do meu álbum de bebê é que só por ele eu sei o nome dos meus bisavós paternos. Com certeza a mãe não tinha noção da importância que teriam aquelas cinco linhas numa árvore genealógica de uma filha recém-nascida. Do pai sobraram umas fotos velhas na pia batismal, dos avós somente uma linha. Um nome num álbum vermelho, presente de tios distantes. O resto a imaginação teve que dar conta de suprir.

Era sobre família que eu queria te escrever, mas sempre me dou conta de que não tenho muito a dizer. Precisaria te pedir uma melhor definição desta palavra. Posso dizer que ela é enorme, ou que não é nenhuma. Depende do otimismo do interlocutor. A primeira vez que pensei nisso foi aos onze anos. Na verdade não fui eu que pensei, pensaram por mim. Foi minha primeira crise depressiva, embora eu não soubesse o nome que se dava quando os pensamentos fogem do controle do próprio cérebro. Um dia você não consegue mais terminar um pensamento e ele te consome inteira. Minha mãe achou que eu precisava de um médico e o médico achou que eu precisava de um pai. Eu achei que não precisava de nenhum dos dois, e melhorei. Desde esse dia mais pensamentos me consumiram, mais pessoas acharam que eu precisava de um médico e mais médicos acharam que eu precisava de um pai. Eles quase me convenceram. Foi assim que eu me vi numa tarde qualquer de um dia qualquer com um telefone na mão (em uma daquelas cinco linhas tinha um nome diferente demais para ter dois iguais na lista telefônica), dizendo "Oi, sou eu, sua filha." Não tinha nada de diferente no meu coração, só o nervo na testa pulsava, pra me lembrar que querendo ou não, eu continuava viva. Pensei o que eu faria se alguém me ligasse mais de vinte anos depois, quantos erros pesariam na minha cabeça ao ouvir uma voz de alguém que não fazia idéia de que rosto tinha. Silêncio certamente seria a resposta.

O silêncio não durou mais do que o tempo do arrependimento chegar, mas quando não se tem nada a ganhar, nada se pode perder. Meus ouvidos captaram o pedido de que eu desse meu telefone e o aguardasse ligar outro dia, e tiveram a certeza de que este dia jamais chegaria. Mas eu estava enganada, o destino não é tão generoso. O que é ruim sempre pode piorar, e ele ligou de volta no dia seguinte. A surrealidade tomou conta da conversa. Não existe um protocolo ou um check-list que te digam o que deve ou não falar para alguém que você não vê há vinte e três anos (e tinha a capacidade de uma minhoca para guardar uma imagem) e que por destino ou acaso tem seu nome na carteira de identidade logo abaixo do seu.

Sempre fui boa para exercícios de futurologia, minha imaginação é um poço quase sem fundo de surpresas, mas para este assunto nunca a estimulei, masoquismo não é minha parafilia preferida. Meus presentes de Dia dos Pais feitos na escola eu dava para a minha avó, e no resto eu teria sempre metade dos problemas dos outros. Mas ao ouvir a voz dele era impossível não imaginar a sua cara, sempre tive vontade de saber de quem herdei esse nariz enorme, e fiquei feliz ao saber que ele estava morando bem longe de mim, depois que comecei a terapia fiquei com medo de acabar dando em cima dele num balcão de bar. Sim, você sabe, eu sou um prato cheio para os pseudo-psicólogos de plantão, e para Freud, claro. Mas Freud era tarado. Aliás, todos eles o são, a diferença é que Freud era um tarado complexado. Não precisei me dar um trabalho muito grande em imaginar a cena do nosso encontro, ele nunca aconteceu. Depois de duas horas de conversa e a promessa de que iríamos nos encontrar na Semana Santa, desliguei o telefone com uma sensação aliviante de que tinha feito a minha parte. Por sorte a vida me deu experiência suficiente para saber que uma vez covarde, sempre covarde. Eu tinha rolado os dados mas não poderia andar com o peão dele. Ele nunca mais ligou e eu pude tirar um sarro com minha terapeuta, era a sua única cliente abandonada pelo pai duas vezes.

Nesse mesmo dia resolvi me dar alta da terapia, ninguém além de mim seria capaz de me ensinar a conviver com meus problemas. E, acredite, ausência de influência paterna pode ser um problema para Freud, mas não para mim. Desde pequena aprendi que fantasmas não podem causar dano algum às pessoas. Os vivos é que são perigosos.

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