31.5.08

Devaneios reclamões

Procuro sempre me dar conta do que tenho a agradecer, e tenho muito, mas tem muita coisa da qual eu adoro reclamar.
Me controlo pra não virar uma pessoa reclamona, porque nada mais chato do que alguém o dia inteiro reclamando do seu lado.
Gosto dos pequenos gestos de afago, de carinho, ainda que sejam resumidos a uma risada cordial no começo do dia, que às vezes só quer dizer: Cara, tou de mau humor, mas te adoro, então sorrio pra você, mesmo sem querer sorrir pra ninguém.
Amo isso! Meu chefe, por exemplo, é tricolor mas outro dias estava cantando músicas do Flamengo ao meu lado. Aí eu questionei: Chefe, porque você tá cantando música do Flamengo? Aí ele respondeu, Cara, não posso te dar aumento, nem folga, pelo menos vou te animar cantando as músicas do seu time, que ganhou ontem.
Isso não tem preço...
Estou em época de provas na faculdade, geralmente época de stress, de confusão, de mau humor total e irrestrito. Ainda mais que meu curso mudou há pouco tempo, e sobraram para o último semestre as matérias mais teóricas possíveis: Marx, Weber, Platão, Sócrates e afins... Muita filosofia pra alguém que já tem alma filosófica.
Minha sorte é que sempre tive base nesses assuntos de papos de bar mesmo, aquelas minhas filosofias de buteco sempre deram a sorte de encontrar interlocutores que pudessem adequá-las a uma corrente de pensamento qualquer da nossa história. Isso sempre me fez aprender muito.
Mas sempre que começamos a questionar algumas questões essenciais, e por isso teórico-filosóficas, criamos muitos motivos pra reclamar dos outros, das atitudes dos outros.
Como não gosto de abrir a janela pra reclamar de ninguém, tampouco fico engolindo sapos, minha parte prática resolve tudo na hora mesmo. Mas, como sempre na vida tem um mas, minha ironia, associada com o meu sarcasmo, às vezes tem que ficar de fora dessa.
É uma via de mão dupla, como abster-se da ironia para falar sério, se a princípio, ninguém vai achar que está falando sério?
Me irrito quando exponho minha opinião, e o outro, que não concorda comigo, manda uma tirada irônica qualquer e a deixa solta no tempo e no espaço.
Tô aproveitando o blog pra reclamar das pessoas que, quando não concordam com as outras, preferem subjulgá-la do que discutir (veja bem, discutir civilizadamente) as idéias que o outro apresenta.
Precisamos ser mais ouvidos e menos boca. Eu tento, sempre.

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30.5.08

Devaneios agradecidos.

Nunca acreditei em Deus. Talvez num remoto esquema de energias positivas e negativas. Como funciona, faço a mínima idéia, tenho cá minhas elocubrações a respeito. Guardo-as só pra mim.
Só sei que às vezes eu tenho uma puta vontade de agradecer. Agradecer pra caralho.
Aí de vez em quando eu entro numa igreja, fora do horário da missa, olhos pros vitrais, pros entalhes da porta, aquele silêncio, o eco dos meus passos.
Sento no banco e murmuro baixinho um Muito Obrigada.
Vai saber por quê? Não sei, só sei que é assim, e faz um bem danado.
Talvez enfiar a cara na janela e gritar Obrigada faça o mesmo efeito.
Vou tentar na próxima, tenho muito a agradecer ainda...

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24.5.08

Curta e Grossa

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20.5.08

Pausa para um lanche...

Aviso aos meus quatro leitores cativos que os escritos por aqui ficarão um pouco escassos...
Estou me dedicando a um projeto pessoal audacioso e revolucionário, pelo menos para mim, é claro ;- )

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17.5.08

Dia 3

Quero esquecer os fantasmas por um tempo, hoje eu vou te falar de descoberta, prazer, paixão e quem sabe até de amor....

Um ursinho carinhoso azul foi o meu primeiro presente de Dia dos Namorados. Eu tinha cinco anos, estava na alfabetização e namorava o Edson. A mãe dele tinha me comprado um prendedor de cabelos em forma de lacinho, branco com bolinhas cor-de-rosa, e eu tive que correr atrás dele pelo pátio inteiro do colégio para conseguir pegar. Mas este era o segundo presente, no dia anterior ele tinha me dado o primeiro em cima do escorrega onde a gente costumava descer de mãos dadas na hora do recreio. Era o Dorminhoco, tinha uma cara engraçada que ele dizia ser igual à minha, romântico não era o melhor adjetivo para ele, pelo visto. Depois que o pai do Edson virou vereador em uma outra cidade eu nunca mais o vi.

Meu primeiro beijo, um estalinho mais do que inocente, foi aos sete anos, no meu vizinho. A gente ficou amigo logo que eu mudei para a vila. A minha era a última casa, a dele a antepenúltima e entre a gente morava o pai do meu melhor amigo. Pra gente o namoro era uma coisa seríssima. Eu o adorava. Fazíamos tudo juntos, já que desde pequena os meninos sempre foram uma companhia mais presente, então eu jogava baleba, brincava de He-man, andava de skate, subia em árvores. Eu, ele, o primo dele, e dois irmãos que moravam na primeira casa da vila, um deles um pouco mais velho do que a gente.

Foi no meio de uma brincadeira de pique-esconde que as coisas mudaram... Resolvemos nos esconder embaixo da cama da irmã dele, mas para que não nos vissem tivemos que nos espremer contra a parede. Não sei quanto tempo ficamos ali, estáticos, abraçados, com medo de respirar mais forte e estragar aquela sensação boa que estávamos sentindo. Também não sei de quem foi a idéia de tirar a roupa e ficar só de calcinha e cueca e voltar a se abraçar, agora quase nus. Éramos duas crianças, abraçadas, saciando a curiosidade de saber o quão diferentes eram nossos corpos, mais nada. Fizemos isso algumas vezes depois, sem prazer, sem asco, só com a curiosidade natural dos que crescem, até o menino mais velho do grupo dizer que ia contar para a minha mãe o que eu andava fazendo se eu não fizesse com ele também.

Ele devia ter uns treze anos e eu dez quando fomos até o quintal da minha casa. Eu pedi para ele tirar a roupa primeiro, afinal era o primeiro "homem" que eu veria nu. Não era excitação o que aquela menina sentia, era pura e simples curiosidade. Foi nojo o que ela sentiu quando viu o que ele tinha entre as pernas, ornado por alguns poucos pêlos aqui e ali.

Ele deve ter percebido o meu constrangimento porque rapidamente fechou a calça, limitando-se a se encostar vestido no muro e me abraçar por trás, pressionando levemente meu corpo contra o seu órgão envergonhado que eu acabara de ver, e assim ficamos, num leve balançar de corpos, até que ele foi embora.

Não tinha sido uma experiência ruim mas eu, com medo de que isso virasse uma chantagem para o resto dos meninos do grupo, resolvi contar para a minha mãe a história toda, desde o começo. Esperei ela sair do banho e sentar na cama para ler o jornal como fazia todo domingo, sentei ao lado dela e sem saber o que dizer, falei: "Mãe, estou fazendo sexo". Não sei o que se passou na cabeça dela naquela hora, só sei que ela sem pestanejar respondeu: "Filha, não fale fazendo sexo, diga fazendo amor, é muito mais bonito". E então ela me explicou que eu não estava fazendo amor, muito menos sexo. Nesse dia eu aprendi que os meninos eram sacanas e ingênuos e que contar a verdade era sempre a melhor maneira de se livrar de enrascadas.

Não sei se é mesmo real essa história de que as meninas amadurecem mais cedo, mas o fato é que aquela experiência fez perder a graça de ser parte do grupo e eu parei de andar com eles. Um tempo depois eu me mudei da vila e nunca mais vi meu vizinho. Há alguns anos atrás me disseram que ele havia se casado, estava "grávido" e tinha descoberto um problema terrível no coração que teria que operar às pressas. Não sei o que aconteceu depois, mas espero que tenha ido tudo bem, porque sempre que penso nele é com o carinho de quem teve um amigo incrível na infância.

Meu primeiro hi-fi também foi inesquecível, não o drink, claro, mas a festinha de formatura da quarta série. Era a primeira vez que eu ia dançar música lenta com um menino. Me lembro que o primeiro era alto, um amigo do colégio há anos em quem eu nunca tinha reparado, e que eu encostei a minha cabeça no seu ombro e não dava para ver mais nada além dele. Gamei na hora, não dancei com mais ninguém a noite toda. No dia seguinte ele bateu na minha porta pedindo para me namorar, e eu disse um não a ele, como minha mãe queria, porque eu ia para uma escola e ele para outra, e isso era um obstáculo absolutamente intransponível para quem tem quase 11 anos. Por ironia do destino acabamos fazendo segundo grau na mesma escola, mas só voltamos a nos falar quase sete anos depois, quando ele me abraçou na formatura do terceiro ano, e me disse: "É o último dia que estamos na mesma escola, você podia me dar o beijo que não me deu na escada da sua casa, quando eu era só um menino e estava apaixonado por você". Eu dei, é claro, e passei o resto da noite pensando em como uma só palavra pode mudar todo o destino de duas pessoas.

Apesar desse começo prematuro, minha vida amorosa continuou seu rumo calmamente. A primeira vez que eu fiquei com um garoto eu já tinha meus quatorze anos e me fingia de bêbada num show qualquer. A primeira vez que transei com alguém foi só lá aos dezessete, com aquele que insistiu mais, e dessa vez não precisei me fingir de bêbada, eu realmente não estava ali. Muitas vezes eu não estava nos lugares onde eu deveria estar e as lembranças são divididas em sensoriais e mentais. Nem sempre eu consigo juntá-las. Esses quebra-cabeças sempre deixam uma sensação de que algo está faltando, que as sensações estão passando e que você está deixando escapar algo sobre o qual não tem controle. Um dia você acaba achando que pensar demais e amar demais não combinam e não vão te levar a lugar algum.

Tudo começa com um filme água com açúcar na sessão da tarde. As lágrimas rolam no final e você nunca sabe se é por carência, tristeza ou a sábia constatação de que vida real não é programada para finais felizes. Você pode ter quinze anos ou cinquenta, mas se estiver sozinha vai achar que assim ficará para o resto da vida. A solidão nunca bate tão forte quanto num filme mela cueca que tenha pelo menos um casal que supera todos os problemas mais idiotas para ficarem juntos. Eu não acho que seja difícil ser feliz no amor, para mim existem pessoas determinadas a isso. Elas nasceram para encontrar grandes amores, grandes parceiros, e poucas dúvidas na vida. Pessoas questionadoras como eu têm muito mais dificuldade porque relativizam tudo e escolhem as pessoas mais difíceis, muitas vezes de propósito.

Eu posso dizer que tive um grande amor, assim o classifico. Mas eu não era a pessoa certa para ele, nem ele para mim. Essa pessoa resolveu errar várias vezes seguidas só para me provar que poderia fazer isso conscientemente, e conseguiu. Eu o amava por causa disso e de muito mais, o amava por que era difícil amá-lo e ele me amava porque sabia ser difícil, e quando alguém te ama mesmo assim, é absolutamente necessário retribuir esse amor. Gratidão, compaixão, um passo para o amor. Mas não para a felicidade.

Eu posso dizer que tive uma paixão, mas novamente eu não era a pessoa certa, e vice-versa. Dessa vez eu é que resolvi provar para mim mesma que poderia errar seguidamente e consciente. Depois de um grande amor, tudo que você não quer é amar novamente, então restam as obsessões. A paixão é um grande ato consumista ou suicida. Ou você quer tudo pagando o preço que for, ou você dá o que for preciso para não ter nada. O importante mesmo é que a troca só exista em momentos ínfimos, para que estes momentos sejam tão surrealistas e inalcançáveis que se configure o cenário ideal para a paixão.

Mas o que eu acho realmente interessante nos relacionamentos é que você só aprende com eles quando termina o próximo. Não sei se você acredita em destino, mas eu posso definir essa questão de uma maneira simples. Você sempre procura no seu próximo homem aquilo que de alguma maneira você não entendeu no anterior. Quando eu digo você eu não estou generalizando, porque como eu te disse antes, algumas pessoas conseguem ser felizes no amor, não eu, não você, não qualquer um que tenha um mínimo de consciência de quão instrutivo podem ser as relações interpessoais. Essas acabam se tornando masoquistas, nessa busca infeliz, insensata e infrutífera que contei aí mais cedo.

Aconteceu comigo há pouco tempo, não a infelicidade, que esta já é hóspede habitual do meu cativeiro particular, mas a aceitação. Ou você entende seu penúltimo homem, ou você o aceita no último, que pode virar o anterior neste caso, ou um dia ser o último mesmo. No fim você ama um homem ideal, fragmentado em vários homens do passado e do futuro, talvez do presente, mas você só o saberá depois. Tem gente que aprende depressa e vai carregando todos os pedaços que acha pelo caminho para jogar em alguém.

Você sabe como é, a gente sempre deixa para o outro a responsabilidade pela nossa própria felicidade.

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14.5.08

Mônica Bellucci mandando bala, literalmente...

Já conversei aqui sobre a unanimidade da Mônica Bellucci, mas cá entre nós, ela agora arrasou. Com vocês Clive Owen, alguns tiros e Mônica Bellucci em Shoot'Em Up.

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13.5.08

Refrescar o Mundo

Como muitos sabem aqui, sou uma coca-cólatra assumida. Bem mais do que eu gostaria até. Talvez empate com o Klotz, de quem, aliás, publiquei uma ótima crônica aqui no blog.
O fato é que andei pensando em dar uma diminuída na ingestão desse líquido precioso e maravilhoso, mas arranjei um motivo pra deixar isso pra depois....
Do dia 18 ao dia 24 deste mês, dois centavos de cada produto coca-cola consumido (incluindo água, sucos e afins) vai ser doado para instituições escolhidas pelo Instituto Coca-Cola Brasil.
Se a Coca-Cola fizesse isso durante o ano todo certamente eu seria uma benfeitora de respeito...

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Devaneios e diálogos madrugais...

Metamorfose

do Gr. metamórphosis, mudança de forma
s. f.,
transformação;
modificação;
Zool.,
mudança de forma ou estrutura, mais ou menos profunda,
que sobrevém durante a vida de certos animais,
principalmente dos insectos e dos batráquios;
transfiguração;
mudança;
transformação física ou moral.


_ Boa noite.
_ Eu reluto em dizer essas duas palavrinhas sádicas. Noite boa pra mim é acordado. E eu nem lembro dos meus sonhos. Merda! Quase uma catátrofe.
_ Que nada, escreve sobre isso e publique.
_ Tô cansado de escrever, escrever e escrever sem sentido. Cansado. Talvez mais alguma coisa e nunca mais...
_ Vai se matar?
_ Já estou em contagem regressiva. Mas é uma morte simbólica, não sou dado a espetáculos suicidas. Gosto das coisas mais simples: Mata-se o que é ruim, e faz nascer outra coisa melhor. A vida é assim para alguns, uma eterna metamorfose. Nada mais lindo...

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."

_ Assim diria Raul Seixas.
_ Tô mais pra Kafka do que pra Raul hoje.

"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos."

_ Raul tinha tudo de Kafka, mas com um baseadinho na mão.
_ Que nada, Raul era até bem lúcido às vezes. O chato dessas pessoas mutantes e visionárias é que elas morrem antes. Um dia elas se metamorfoseam em algo que não aguenta o mundo e então, adeus. Partem de vez.

"É tão estranho, os bons morrem jovens
Assim parece ser quando me lembro de você
Que acabou indo embora, cedo demais
- Vai com os anjos, vai em paz
Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade
Até a próxima vez, é tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você e de tanta gente
Que se foi cedo demais"

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11.5.08

Guarda-eus


Me visto para dormir

como se num filme estivesse,

como se sonhos roteiros fossem,

determinado o ir e o vir.

Me visto para sair

como se na rua exaltasse,

como se as flores exalassem,

perfumado o ver e o sentir.

Me mudo para vestir

como se peças eu me tornasse,

como se cabides pendurassem,

esticado o ser e o existir.

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10.5.08

Pausa para uma meditação...

O Yoga Nidra é uma técnica de meditação de origem tântrica, adaptada para o ocidente pelo mestre iogue Swami Satyananda. Seu principal objetivo é, através de várias técnicas de relaxamento, concentração e meditação, atingir níveis profundos do subconsciente e inconsciente, buscando integrá-los à sua personalidade. Para esse fim cada meditação tem a duração de 45 a 60 minutos, em um total de 5 a 10 práticas sequenciais, de níveis crescentes de aprofundamento. Veja abaixo um texto em que Swami Satyananda dá uma pequena introdução sobre o assunto e explica porque resolveu desenvolver esta poderosa técnica.


Yoga Nidra por Swami Sathyananda
(tradução livre do livro Yoga Nidra de Swami Sathyananda)


Introdução:

O Yoga Nidra, o qual é originado dos Tantras, é uma poderosa técnica na qual você aprende a relaxar conscientemente. Em Yoga Nidra, o sono não é considerado como relaxamento. As pessoas em geral pensam que estão relaxando quando se esparramam num confortável sofá com um copo de café, uma bebida ou um cigarro e lêem o jornal ou assistem televisão. Porém, isso nunca será considerada uma definição científica de relaxamento. Isto são apenas distrações sensoriais. O verdadeiro relaxamento é, na verdade, uma experiência bastante distante dessa idéia. Para um completo relaxamento você deve permanecer atento. Isto é Yoga Nidra, o estado de sono dinâmico.
Yoga Nidra é um método sistemático para a indução de um completo relaxamento físico, mental e emocional. O termo Yoga Nidra é derivado das palavras em sânscrito yoga, que significa união ou consciência unificada, e nidra, que significa sono. Durante a prática de Yoga Nidra, a pessoa aparenta estar adormecida, mas a consciência permanece funcionando em um nível mais profundo de atenção. Nesse estado limítrofe entre o sono e a vigília, o contato entre as dimensões subconsciente e inconsciente ocorre espontaneamente.
Em Yoga Nidra, o estado de relaxamento é alcançado pela introspecção, afastando-se das experiências externas. Se a consciência puder ser separada do estado desperto exterior e do sono, isto se torna muito poderoso e pode ser aplicado de muitas maneiras, por exemplo, para desenvolver a memória, incrementar o conhecimento e criatividade, ou transformar a natureza da pessoa.
No Raja Yoga de Patanjali existe um estado chamado de Pratyahara, no qual a mente e a consciência são dissociados dos canais sensoriais. Yoga Nidra é um aspecto de Pratyahara que alcança os mais altos estados de concentração e samadhi1.


O Nascimento do Yoga Nidra

Aproximadamente 35 anos atrás, quando vivia com meu guru, Swami Shivananda, em Rishikesh, tive uma importantíssima experiência que despertou o meu interesse em desenvolver o conhecimento do Yoga Nidra. Eu havia sido indicado para cuidar de uma escola de Sânscrito onde meninos aprendiam a cantar os Vedas. Era meu trabalho permanecer acordado a noite toda para vigiar a escola enquanto o Acharya2 estava fora. Às tres da madrugada eu costumava cair em sono profundo, e às seis eu poderia levantar e retornar ao ashram3. Nesse ínterim, os meninos já tinham levantado, tomado banho e cantado suas orações em sânscrito, mas eu nunca os ouvi.
Algum tempo depois, meu ashram estava promovendo um grande evento, e os meninos dessa escola de sânscrito foram trazidos para cantar os mantras védicos. Durante a apresentação, eles recitaram certos slokas4 que eu não conhecia, mas alguma coisa me dizia que eu já os tinha ouvido. Eu estava totalmente certo que nunca os tinha lido ou escrito, apesar de me soarem tão familiares.
Finalmente, decidi perguntar ao guru dos meninos, que estava sentado próximo a mim, se ele poderia explicar o significado daquilo. O que ele me respondeu mudou totalmente minha visão de mundo. Ele disse que essa sensação de familiaridade não era de todo surpreendente, porque meu corpo sutil permanecia ouvindo os meninos cantando os mesmos mantras todas as vezes que eu estava dormindo naquela escola. Isso era uma sensacional revelação para mim. Eu havia aprendido que o conhecimento é transmitido diretamente através dos sentidos, mas por essa experiencia eu percebi que também se pode obter conhecimento direto sem nenhum meio sensorial. Assim foi o nascimento do Yoga Nidra.
A partir dessa experiência, outras idéias e insights chegaram a minha mente. Percebi que o sono não é um estado de total inconsciência. Quando a pessoa está adormecida, permanece um estado remanescente de potencialidade, uma forma de consciencia que é desperta e totalmente alerta para os eventos exteriores. Eu descobri, pelo treinamento da mente, que é possivel utilizar positivamente esse estado.
(...)


1Estado último de identificação com o Absoluto, “iluminação”.
2Acharya: professor, preceptor.
3Ashram: local estudo e de morada dos iogues, espécie de mosteiro.
4Sloka: verso em sânscrito

Tirado do site do Ricardo Coelho, meu professor de yoga.

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4.5.08

Devaneios ociosos

O mercado masculino hoje em dia anda muito concorrido e difícil, por isso sempre bate uma dúvida se não é melhor abrir o capital e aumentar em 50% as possibilidades de lucro.
Uma amiga definiu bem a questão impeditiva principal de um negócio arriscado como este: Incompatibilidade de gêneros.
Irremediável, uma pena.

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Estava vendo no Saia Justa ontem uma mulher reclamando que as patroas dela sempre compram uniforme GG, quando o tamanho da empregada é P, só pra ela ficar mais feia mesmo.
Não disse? Concorrência desleal merece atitudes desleais. Em breve estaremos todas fazendo passeata contra monopólios não autorizados pelo Governo. Ou então virando mórmons.

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Estava passeando na net ontem e fui parar na página de Men in Trees da Warner Channel. Pra quem não sabe, Men in Trees é a história de uma escritora técnica em relacionamentos, que decide ir pra uma cidadezinha perdida no Alasca, chamada Elmo, onde a proporção de homens para mulheres é gigantesca.
Até aí tudo bem, eu já sabia, assisto a série e acho divertida, mas o site dá dicas de lugares onde existem mais homens do que mulheres, caso alguma desesperada precise.
É assim que fica-se sabendo que a República Dominicana, Cabo Verde, Baracaldo (na Espanha) e Chooyang (na China), são lugares onde a média de homens é superior a das mulheres. Além dessas, existe Esterwelda, na Alemanha, onde o número de homens é quatro vezes maior do que o de mulheres. Um paraíso, não? Considerando que eu moro numa cidade onde o IBGE diz que existem 8 mulheres para cada homem, sim, é um paraíso.
Mas o mais curioso da história não são os lugares e sim as recomendações que o site dá para a mulher que quer tentar um novo começo num lugar deste. Confiram:

Recomendações

Antes de sair com suas malas embaixo dos braços é necessário considerar vários aspectos, pois a maioria destes lugares está em zonas rurais, por isso recomendamos:

- Visitar um bom cabeleireiro antes de partir, e fazer um desses cortes muito populares na Argentina, que a fazem brilhar durante todo o dia. Com esse corte não tem importância a velocidade ou a fúria do vento porque seu cabelo estará sempre maravilhoso e perfeitamente despenteado.

- Não esqueça o bronzeador com protetor solar e cremes aromáticos para aproveitar bastante, porque nas zonas menos povoadas o sol brilha mais, é mais forte e o bronzeado fica mais bonito.

- Levar roupa branca. Por alguma razão as peças do vestuário brancas são consideradas interessantes e sensuais nas zonas rurais. Isso inclui selva, praia, deserto ou montanha. Um vestido ou calças brancas faz com que sua silhueta fique maravilhosa e perfeitamente em sintonia com o ambiente. Isso porque também é muito mais gostoso e refrescante utilizar tons claros.

- A primeira coisa que você precisa fazer depois de desfazer as malas é conseguir o telefone, se é que você já não os tem, para uma depilação ou uma consulta à esteticista, pois sua pele estará em contato com os elementos da natureza e precisa parecer bem para lhe dar suporte por causa da quantidade de pretendentes que baterão em sua porta.

- Você já está pronta para fazer suas reservas? Boa sorte na sua nova vida.

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Fiquei bem mais feliz agora. Para começar do zero basta ter protetor solar, roupas brancas e o telefone da depiladora.

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1.5.08

Dia 2

Início; Dia 1;
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Ontem eu te falei sobre os meus fantasmas. O mais importante deles, sem dúvida, foi a minha avó. Eu também te disse ontem que não queria falar sobre morte e sim sobre vida, mas a morte é presença constante na minha vida, às vezes até metaforicamente. Minha avó foi a minha primeira morte, mas não foi a primeira que eu experimentei.

Meu padrinho morreu quando eu tinha sete anos. Pouco me lembro dele, e os acontecimentos do velório lá em casa se confundem com os da minha avó, por isso não tenho certeza das lembranças que tenho deste dia. Me lembro que a mãe entrou em desespero, era seu irmão mais chegado. Morreu assim de repente, ataque cardíaco, mas ele já tinha se despedido muito tempo antes, quando se afundou no álcool. Não lembro do rosto dele, só das fotos que vi, mas existe em mim a memória de ir buscá-lo no bar da esquina com a minha mãe, onde ele ia tomar umas cachaças rotineiramente. Essa cena ainda se repetiria muitas vezes alguns anos depois, era só trocar a esquina e a pessoa a ser resgatada, mas eu não poderia saber disso em tão tenra idade.

Do velório do meu padrinho só me lembro de ter sido incumbida de distrair minha prima, filha do falecido, o que fiz de muito bom grado, explorando todos os submundos do quintal de casa que sempre adorei. Só anos depois descobri que foi naquele dia que minha mãe brigou com a minha madrinha, com quem ficou oito anos sem falar, por causa de um tapa na cara que levou para acalmar a histeria. Sem dúvida, este foi o primeiro evento dramático da minha vida, do qual não participei ativamente, e boa parte do que aconteceu ali iria mudar pra sempre a vida de todo mundo. Mas o que não é a vida senão uma interminável sobreposição de acontecimentos determinantes? Deixa eu voltar à minha avó.

Vasculhando meu baú de memórias, a imagem mais antiga que tenho da minha avó é ela andando na rua com uma sacola enorme e eu olhando pela janela da creche onde eu estudava, ansiosa para que ela chegasse logo. Ela entra pela porta, eu corro pra cima dela e pergunto se ela tinha trazido um presente para mim, ela me entrega um pacote de papel em branco e uma caixa de lápis de cor dizendo que o presente eu é que ia dar a ela, minha criatividade. Talvez a lembrança seja meio floreada, mas ela é real, sem dúvida, e a felicidade que eu senti nesse dia não poderia ser simplesmente resumida numa entrega de material escolar à minha professora. Minha avó tem esse poder de tornar mágicas todas as minhas lembranças dela. Quinze anos depois dela ter ido embora, eu ainda consigo ver seu rosto quando fecho os olhos, e a sua voz é nítida como a canção de ninar em francês que ela cantava pra mim antes de dormir.

Minha avó que me criou, a educação e estabilidade que ela me deu me guiaram no meio do caos que se instalou na minha vida diversas vezes. Estudei ballet, piano, francês, aprendi a comer com todos os talheres e a me comportar corretamente à mesa. Minha avó sabia que numa cidade pequena, onde seu sobrenome conta mais do que o nome, eu tinha que saber me comportar como uma pessoa da sociedade. Não sei se isso é fruto da aristocracia rural falida de onde surgiu minha família, mas é certo que a pose sempre foi altiva, mesmo sem motivos, e a integridade e a ética eram nossos maiores estandartes.

Estandarte este que eu tinha orgulho em exibir nas tradicionais paradas de sete de setembro pela Avenida Alberto Torres. Todo ano minha avó me levava pra assistir à parada da varanda da casa de uma amiga dela. Ela tinha orgulho em ver passar os alunos devidamente uniformizados e marchantes da escola onde ela tinha sido merendeira, professora, diretora e bibliotecária, cargo que lhe deram quando a visão comprometida lhe impedira de dar aulas de línguas neo-latinas, a primeira das duas faculdades que tinha cursado, feito inédito na época dela, uma mulher sair da cidade para estudar na Capital.

Me impediram de assistir o velório da minha avó porque era no saguão da escola que ela amava, e que era a minha escola na época, e onde eu estudaria ainda por três anos mais. No dia seguinte, no meio da aula, minha professora de francês veio me buscar na sala, e juntas demos um passeio pelos prédios nos quais a minha avó tinha dedicado toda uma vida de trabalho. Era inevitável lembrar dela em todos os cantos, ela me dando dinheiro pela janela da biblioteca toda terça-feira para que eu almoçasse na cantina e me livrasse da comida horrorosa do refeitório, ela separando meus livros da semana que eu lia religiosamente um por dia, ela me convencendo que a aula de religião da tia Wilma era útil e que, mesmo não obrigada, eu deveria frequentá-la. Paramos o passeio em frente da sala de leitura que hoje em dia tem o nome da minha avó. A placa continua lá e não me deixa esquecer.

No Domingo a gente não tinha ido à Igreja porque no dia anterior tínhamos comemorado o primeiro ano do meu irmão. Era quarta-feira, e fomos minha avó e eu para a igreja, como toda semana. Assistimos a missa, compramos um saco de poquinhas, biscoito de polvilho salgado, que as freiras faziam e voltamos pra casa. Durante a noite eu reparei que ela não conseguia dormir, ficou sentada na cadeira de balanço a noite inteira. No dia seguinte eu não a vi indo para o hospital, onde morreria dois dias depois.

Quando cheguei em casa só vi a cadeira de balanço vazia, tão vazia quanto ficou meu coração.

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