1.5.08

Dia 2

Início; Dia 1;
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Ontem eu te falei sobre os meus fantasmas. O mais importante deles, sem dúvida, foi a minha avó. Eu também te disse ontem que não queria falar sobre morte e sim sobre vida, mas a morte é presença constante na minha vida, às vezes até metaforicamente. Minha avó foi a minha primeira morte, mas não foi a primeira que eu experimentei.

Meu padrinho morreu quando eu tinha sete anos. Pouco me lembro dele, e os acontecimentos do velório lá em casa se confundem com os da minha avó, por isso não tenho certeza das lembranças que tenho deste dia. Me lembro que a mãe entrou em desespero, era seu irmão mais chegado. Morreu assim de repente, ataque cardíaco, mas ele já tinha se despedido muito tempo antes, quando se afundou no álcool. Não lembro do rosto dele, só das fotos que vi, mas existe em mim a memória de ir buscá-lo no bar da esquina com a minha mãe, onde ele ia tomar umas cachaças rotineiramente. Essa cena ainda se repetiria muitas vezes alguns anos depois, era só trocar a esquina e a pessoa a ser resgatada, mas eu não poderia saber disso em tão tenra idade.

Do velório do meu padrinho só me lembro de ter sido incumbida de distrair minha prima, filha do falecido, o que fiz de muito bom grado, explorando todos os submundos do quintal de casa que sempre adorei. Só anos depois descobri que foi naquele dia que minha mãe brigou com a minha madrinha, com quem ficou oito anos sem falar, por causa de um tapa na cara que levou para acalmar a histeria. Sem dúvida, este foi o primeiro evento dramático da minha vida, do qual não participei ativamente, e boa parte do que aconteceu ali iria mudar pra sempre a vida de todo mundo. Mas o que não é a vida senão uma interminável sobreposição de acontecimentos determinantes? Deixa eu voltar à minha avó.

Vasculhando meu baú de memórias, a imagem mais antiga que tenho da minha avó é ela andando na rua com uma sacola enorme e eu olhando pela janela da creche onde eu estudava, ansiosa para que ela chegasse logo. Ela entra pela porta, eu corro pra cima dela e pergunto se ela tinha trazido um presente para mim, ela me entrega um pacote de papel em branco e uma caixa de lápis de cor dizendo que o presente eu é que ia dar a ela, minha criatividade. Talvez a lembrança seja meio floreada, mas ela é real, sem dúvida, e a felicidade que eu senti nesse dia não poderia ser simplesmente resumida numa entrega de material escolar à minha professora. Minha avó tem esse poder de tornar mágicas todas as minhas lembranças dela. Quinze anos depois dela ter ido embora, eu ainda consigo ver seu rosto quando fecho os olhos, e a sua voz é nítida como a canção de ninar em francês que ela cantava pra mim antes de dormir.

Minha avó que me criou, a educação e estabilidade que ela me deu me guiaram no meio do caos que se instalou na minha vida diversas vezes. Estudei ballet, piano, francês, aprendi a comer com todos os talheres e a me comportar corretamente à mesa. Minha avó sabia que numa cidade pequena, onde seu sobrenome conta mais do que o nome, eu tinha que saber me comportar como uma pessoa da sociedade. Não sei se isso é fruto da aristocracia rural falida de onde surgiu minha família, mas é certo que a pose sempre foi altiva, mesmo sem motivos, e a integridade e a ética eram nossos maiores estandartes.

Estandarte este que eu tinha orgulho em exibir nas tradicionais paradas de sete de setembro pela Avenida Alberto Torres. Todo ano minha avó me levava pra assistir à parada da varanda da casa de uma amiga dela. Ela tinha orgulho em ver passar os alunos devidamente uniformizados e marchantes da escola onde ela tinha sido merendeira, professora, diretora e bibliotecária, cargo que lhe deram quando a visão comprometida lhe impedira de dar aulas de línguas neo-latinas, a primeira das duas faculdades que tinha cursado, feito inédito na época dela, uma mulher sair da cidade para estudar na Capital.

Me impediram de assistir o velório da minha avó porque era no saguão da escola que ela amava, e que era a minha escola na época, e onde eu estudaria ainda por três anos mais. No dia seguinte, no meio da aula, minha professora de francês veio me buscar na sala, e juntas demos um passeio pelos prédios nos quais a minha avó tinha dedicado toda uma vida de trabalho. Era inevitável lembrar dela em todos os cantos, ela me dando dinheiro pela janela da biblioteca toda terça-feira para que eu almoçasse na cantina e me livrasse da comida horrorosa do refeitório, ela separando meus livros da semana que eu lia religiosamente um por dia, ela me convencendo que a aula de religião da tia Wilma era útil e que, mesmo não obrigada, eu deveria frequentá-la. Paramos o passeio em frente da sala de leitura que hoje em dia tem o nome da minha avó. A placa continua lá e não me deixa esquecer.

No Domingo a gente não tinha ido à Igreja porque no dia anterior tínhamos comemorado o primeiro ano do meu irmão. Era quarta-feira, e fomos minha avó e eu para a igreja, como toda semana. Assistimos a missa, compramos um saco de poquinhas, biscoito de polvilho salgado, que as freiras faziam e voltamos pra casa. Durante a noite eu reparei que ela não conseguia dormir, ficou sentada na cadeira de balanço a noite inteira. No dia seguinte eu não a vi indo para o hospital, onde morreria dois dias depois.

Quando cheguei em casa só vi a cadeira de balanço vazia, tão vazia quanto ficou meu coração.

3 comentários:

Samoça disse...

Olá Nat,

Suas lembranças queridas contaram uma história linda. Gosto muuuuito do jeito que você compõe um texto. Flui...

:)

Beijo.

nada será como antes disse...

Nat,

Beleza de texto. Assino o mesmo que disse samoça.

Beijos

Nat disse...

Samoça, as lembranças dão o rumo, mas quem conta a história é a imaginação. Quando temos o poder de misturar realidade e fantasia, a história flui de uma maneira mais lúdica, mais leve, por isso sou apaixonada pela escrita.

Nasca, obrigada querido, um elogio seu vale de montão!!!