17.5.08

Dia 3

Quero esquecer os fantasmas por um tempo, hoje eu vou te falar de descoberta, prazer, paixão e quem sabe até de amor....

Um ursinho carinhoso azul foi o meu primeiro presente de Dia dos Namorados. Eu tinha cinco anos, estava na alfabetização e namorava o Edson. A mãe dele tinha me comprado um prendedor de cabelos em forma de lacinho, branco com bolinhas cor-de-rosa, e eu tive que correr atrás dele pelo pátio inteiro do colégio para conseguir pegar. Mas este era o segundo presente, no dia anterior ele tinha me dado o primeiro em cima do escorrega onde a gente costumava descer de mãos dadas na hora do recreio. Era o Dorminhoco, tinha uma cara engraçada que ele dizia ser igual à minha, romântico não era o melhor adjetivo para ele, pelo visto. Depois que o pai do Edson virou vereador em uma outra cidade eu nunca mais o vi.

Meu primeiro beijo, um estalinho mais do que inocente, foi aos sete anos, no meu vizinho. A gente ficou amigo logo que eu mudei para a vila. A minha era a última casa, a dele a antepenúltima e entre a gente morava o pai do meu melhor amigo. Pra gente o namoro era uma coisa seríssima. Eu o adorava. Fazíamos tudo juntos, já que desde pequena os meninos sempre foram uma companhia mais presente, então eu jogava baleba, brincava de He-man, andava de skate, subia em árvores. Eu, ele, o primo dele, e dois irmãos que moravam na primeira casa da vila, um deles um pouco mais velho do que a gente.

Foi no meio de uma brincadeira de pique-esconde que as coisas mudaram... Resolvemos nos esconder embaixo da cama da irmã dele, mas para que não nos vissem tivemos que nos espremer contra a parede. Não sei quanto tempo ficamos ali, estáticos, abraçados, com medo de respirar mais forte e estragar aquela sensação boa que estávamos sentindo. Também não sei de quem foi a idéia de tirar a roupa e ficar só de calcinha e cueca e voltar a se abraçar, agora quase nus. Éramos duas crianças, abraçadas, saciando a curiosidade de saber o quão diferentes eram nossos corpos, mais nada. Fizemos isso algumas vezes depois, sem prazer, sem asco, só com a curiosidade natural dos que crescem, até o menino mais velho do grupo dizer que ia contar para a minha mãe o que eu andava fazendo se eu não fizesse com ele também.

Ele devia ter uns treze anos e eu dez quando fomos até o quintal da minha casa. Eu pedi para ele tirar a roupa primeiro, afinal era o primeiro "homem" que eu veria nu. Não era excitação o que aquela menina sentia, era pura e simples curiosidade. Foi nojo o que ela sentiu quando viu o que ele tinha entre as pernas, ornado por alguns poucos pêlos aqui e ali.

Ele deve ter percebido o meu constrangimento porque rapidamente fechou a calça, limitando-se a se encostar vestido no muro e me abraçar por trás, pressionando levemente meu corpo contra o seu órgão envergonhado que eu acabara de ver, e assim ficamos, num leve balançar de corpos, até que ele foi embora.

Não tinha sido uma experiência ruim mas eu, com medo de que isso virasse uma chantagem para o resto dos meninos do grupo, resolvi contar para a minha mãe a história toda, desde o começo. Esperei ela sair do banho e sentar na cama para ler o jornal como fazia todo domingo, sentei ao lado dela e sem saber o que dizer, falei: "Mãe, estou fazendo sexo". Não sei o que se passou na cabeça dela naquela hora, só sei que ela sem pestanejar respondeu: "Filha, não fale fazendo sexo, diga fazendo amor, é muito mais bonito". E então ela me explicou que eu não estava fazendo amor, muito menos sexo. Nesse dia eu aprendi que os meninos eram sacanas e ingênuos e que contar a verdade era sempre a melhor maneira de se livrar de enrascadas.

Não sei se é mesmo real essa história de que as meninas amadurecem mais cedo, mas o fato é que aquela experiência fez perder a graça de ser parte do grupo e eu parei de andar com eles. Um tempo depois eu me mudei da vila e nunca mais vi meu vizinho. Há alguns anos atrás me disseram que ele havia se casado, estava "grávido" e tinha descoberto um problema terrível no coração que teria que operar às pressas. Não sei o que aconteceu depois, mas espero que tenha ido tudo bem, porque sempre que penso nele é com o carinho de quem teve um amigo incrível na infância.

Meu primeiro hi-fi também foi inesquecível, não o drink, claro, mas a festinha de formatura da quarta série. Era a primeira vez que eu ia dançar música lenta com um menino. Me lembro que o primeiro era alto, um amigo do colégio há anos em quem eu nunca tinha reparado, e que eu encostei a minha cabeça no seu ombro e não dava para ver mais nada além dele. Gamei na hora, não dancei com mais ninguém a noite toda. No dia seguinte ele bateu na minha porta pedindo para me namorar, e eu disse um não a ele, como minha mãe queria, porque eu ia para uma escola e ele para outra, e isso era um obstáculo absolutamente intransponível para quem tem quase 11 anos. Por ironia do destino acabamos fazendo segundo grau na mesma escola, mas só voltamos a nos falar quase sete anos depois, quando ele me abraçou na formatura do terceiro ano, e me disse: "É o último dia que estamos na mesma escola, você podia me dar o beijo que não me deu na escada da sua casa, quando eu era só um menino e estava apaixonado por você". Eu dei, é claro, e passei o resto da noite pensando em como uma só palavra pode mudar todo o destino de duas pessoas.

Apesar desse começo prematuro, minha vida amorosa continuou seu rumo calmamente. A primeira vez que eu fiquei com um garoto eu já tinha meus quatorze anos e me fingia de bêbada num show qualquer. A primeira vez que transei com alguém foi só lá aos dezessete, com aquele que insistiu mais, e dessa vez não precisei me fingir de bêbada, eu realmente não estava ali. Muitas vezes eu não estava nos lugares onde eu deveria estar e as lembranças são divididas em sensoriais e mentais. Nem sempre eu consigo juntá-las. Esses quebra-cabeças sempre deixam uma sensação de que algo está faltando, que as sensações estão passando e que você está deixando escapar algo sobre o qual não tem controle. Um dia você acaba achando que pensar demais e amar demais não combinam e não vão te levar a lugar algum.

Tudo começa com um filme água com açúcar na sessão da tarde. As lágrimas rolam no final e você nunca sabe se é por carência, tristeza ou a sábia constatação de que vida real não é programada para finais felizes. Você pode ter quinze anos ou cinquenta, mas se estiver sozinha vai achar que assim ficará para o resto da vida. A solidão nunca bate tão forte quanto num filme mela cueca que tenha pelo menos um casal que supera todos os problemas mais idiotas para ficarem juntos. Eu não acho que seja difícil ser feliz no amor, para mim existem pessoas determinadas a isso. Elas nasceram para encontrar grandes amores, grandes parceiros, e poucas dúvidas na vida. Pessoas questionadoras como eu têm muito mais dificuldade porque relativizam tudo e escolhem as pessoas mais difíceis, muitas vezes de propósito.

Eu posso dizer que tive um grande amor, assim o classifico. Mas eu não era a pessoa certa para ele, nem ele para mim. Essa pessoa resolveu errar várias vezes seguidas só para me provar que poderia fazer isso conscientemente, e conseguiu. Eu o amava por causa disso e de muito mais, o amava por que era difícil amá-lo e ele me amava porque sabia ser difícil, e quando alguém te ama mesmo assim, é absolutamente necessário retribuir esse amor. Gratidão, compaixão, um passo para o amor. Mas não para a felicidade.

Eu posso dizer que tive uma paixão, mas novamente eu não era a pessoa certa, e vice-versa. Dessa vez eu é que resolvi provar para mim mesma que poderia errar seguidamente e consciente. Depois de um grande amor, tudo que você não quer é amar novamente, então restam as obsessões. A paixão é um grande ato consumista ou suicida. Ou você quer tudo pagando o preço que for, ou você dá o que for preciso para não ter nada. O importante mesmo é que a troca só exista em momentos ínfimos, para que estes momentos sejam tão surrealistas e inalcançáveis que se configure o cenário ideal para a paixão.

Mas o que eu acho realmente interessante nos relacionamentos é que você só aprende com eles quando termina o próximo. Não sei se você acredita em destino, mas eu posso definir essa questão de uma maneira simples. Você sempre procura no seu próximo homem aquilo que de alguma maneira você não entendeu no anterior. Quando eu digo você eu não estou generalizando, porque como eu te disse antes, algumas pessoas conseguem ser felizes no amor, não eu, não você, não qualquer um que tenha um mínimo de consciência de quão instrutivo podem ser as relações interpessoais. Essas acabam se tornando masoquistas, nessa busca infeliz, insensata e infrutífera que contei aí mais cedo.

Aconteceu comigo há pouco tempo, não a infelicidade, que esta já é hóspede habitual do meu cativeiro particular, mas a aceitação. Ou você entende seu penúltimo homem, ou você o aceita no último, que pode virar o anterior neste caso, ou um dia ser o último mesmo. No fim você ama um homem ideal, fragmentado em vários homens do passado e do futuro, talvez do presente, mas você só o saberá depois. Tem gente que aprende depressa e vai carregando todos os pedaços que acha pelo caminho para jogar em alguém.

Você sabe como é, a gente sempre deixa para o outro a responsabilidade pela nossa própria felicidade.

11 comentários:

Samoça disse...

Oi Nat,

Gosto de ler você. E me agrada tanto, que fico imaginando se não é por me encontrar em seu texto ou pelo modo que você sabe escolher o rítmo das palavras e descrever sentimentos.
Não me atrevo a escrever sobre o meu amor... porque precisaria de um livro inteiro... muito mais até, eu sei. Mas, sei também que só teria alguns segundos antes de ele sumir... (risos)

Beijos!

:)

Brancaleone disse...

Só vim aqui para ver sua foto lá no cantinho...

Anônimo disse...

Nat:

Não existe amor no passado. Nunca se diz "eu amei". Quando se chega a conclusão que "amou-se" alguem, é sinal que nunca existiu amor, foi só ilusão.
Se diz "eu amo" e pronto, quer do sujeito com que voce está agora, quer do sujeito com quem voce esteve faz dez anos. O problema é que se o sujeito que voce ama faz dez anos não está mais com você, o bicho pega.
Amor não é moedinha trocada, não é centavo perdido e desperdiçado. Amor é palavra cara, caríssima e não pode ser gasta à toa. Temos que ser aváros com o amor e dá-lo aos poucos a uma só pessoa. Em exagero o amor é como´o dólar: perde o valor, se deprecia como sentimento. Quem ama muitos, ama cada um um pouquinho e daí é só gostar...

Brancaleone disse...

Nat querida, quanta tristeza neste rostinho hoje!!

Calma, teu homem vai chegar. Não procure muito, deixe acontecer. Guarde seu amor bem guardado. Coisa cara é que nem jóia, não se expõe à toa.

Va que o seu Brancaleone está por aí, solto e voce terá a mesma sorte da minha italianinha mignon ( 39 anos, duas filhas, 50 Kg. muito, mas muito bem distribuidos nos lugares que gosto e amo fazem uns 19 anos)...

Brancaleone disse...

Desculpe Nat

O "anônimo" aí sou eu.
Sempre me atrapalho com estes postadores diferentes...

pingwyn disse...

Tenho que concordar com voce, Branca, aqueles que agente ama, se ama a vida toda. Independente se ainda estao ao nosso lado ou nao..Amo diversos que nao estao mais comigo.
Nat, amor agente encontra quando deixamos que esse sentimento viva dentro da gente sem questionamentos...sem aquela brincadeira de esconde-esconde.
Amor nao se procura, nao se acha e nao se faz..so acontece... e acontece quando menos espera, de quem agente menos acredita..

Como sempre ADOREI ler voce, como a Samoca escreveu ai emcima...

nada será como antes disse...

Nat,

Não sei se você está certa ou não, a respeito do amor e suas razões e circunstâncias.

Mas de uma coisa estou certo : a escritora Nat já é um fato concreto.

Seu texto provoca prazer estético e eventualização que, junto do estranhamento, são os pilares da boa narrativa.

Outro dia comentei, numa certa roda de amigos, que os blogs propiciam a criação de escritores de ótima qualidade.

Você já está criada.Adoro seus escritos !

Considere isto como uma declaração apaixonada.

Muitos beijos !

Brancaleone disse...

E eu vim aqui de novo, só para ver sua foto lá no cantinho...

Nat disse...

Samoça, atreva-se a escrever sobre qq coisa, no começo é difícil, depois fica tranquilo.

Branca, querido, não enjoou da foto não? ;- ) Também acho que não existe amor no passado. A gente quando ama alguém continua a amar pra sempre, mas de maneiras diferentes, eu acho.

Gwyn, brigada amore! Te coraçãozinho U hehehe

Nasca, meu Nasca, brigada!!! Beijos pra vc!!!

Dona M. disse...

Romances da infância podem não ter beijo, mas são os que mais marcam =]

Ligia disse...

meu pensamento anda migrando entre a simplicidade absoluta e a crueza... assim, faz tempo que não amo...