17.9.08

Efemérida

Eu não sou louco. Estou apenas interessado na liberdade...
Jim Morrison

Dizem que o mal do século é a depressão. Não discordo, mas acho que o ser humano deprimido é, em grande parte, um fracassado com seus próprios desejos. E não digo isso de forma pejorativa, já que eu mesma sofro com isso. A diferença é a forma como cada um lida com o que deseja e com o fracasso que isso causa.

Não vou ser a primeira a dizer que tudo na vida são escolhas e a grande busca desse século é pela não muito tangível felicidade. Muitos consideram a liberdade um pré requisito para a felicidade, afinal, como se sentir feliz sem ser livre para fazer escolhas? Ter opções é necessário para se sentir vivo.

A liberdade consiste em mudanças contínuas e estímulos desenfreados, uma sensação permanente de controle de sensações. Esse impulso criador e vibrante não se desenvolve sem interação. Teoricamente, pessoas mais propensas a serem livres, as mais versáteis, as mais corajosas, as mais intempestivas, seriam as mais felizes.

Mas essa busca pela liberdade pode trazer, ao contrário do que se pensa, uma excessiva rigidez e afastamento. Atitudes extremistas precisam ser conscientes e vivenciadas plenamente, para o equilíbrio. Uma dose de disciplina é necessária para a liberdade.


Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Renato Russo

Provavelmente na busca pela liberdade e vivência plena de sensações, é possível encontrarmos pessoas que temem esse tipo de revolução saudável em suas vidas. Às vezes agimos pelo ímpeto inconformista, pela vontade de viver tudo agora, aproveitar cada oportunidade que aparece. É uma curiosidade insaciável para saber o máximo sobre alguém ou algo. Extrair o máximo de prazer de todas as situações que encontra. Mas acreditar que só a satisfação desmedida de todos os prazeres possíveis é o que nos faz livres, nos torna presos à uma falsa liberdade. O amor ao prazer pode nos tornar compulsivos. E a não capacidade em lidar com todos esses prazeres ao mesmo tempo pode nos fazer largar tudo pela metade, e não viver, verdadeiramente, nenhum deles.

Essa inclinação pelo prazer pode acabar nos auto-limitando. O medo de que os impulsos libertários, inovadores, expansionistas, nos arrebate de repente, pode fazer com que nos apeguemos demais aos vínculos adquiridos: trabalho, família, casa, nos tornando apáticos e entediados. A estagnação pode acabar matando as inclinações filósoficas e o amor aos novos ares.

A verdadeira liberdade está numa certa disciplina em viver profundamente as experiências, e não descartá-las. Escolher um caminho como base, e ir incorporando à ele todos os momentos vividos, saciando a sede de experiências ainda mais estimulantes.

Um dia me perguntaram qual era o bicho que eu queria ser. Nunca deixei de achar que seria uma borboleta, que ao livrar-me do casulo viveria voando por aí, até morrer, livre.

Mas será que a liberdade tem mesmo que ser tão efêmera?

5 comentários:

El Torero disse...

Existe uma personagem do Érico Veríssimo, Floriano do livro O Tempo e o Vento, que é tão obcecado pela sua liberdade que acaba enjaulado, preso à ela. Impedido de criar raízes, de se relacionar verdadeiramente com outras pessoas, com medo de viver um amor, em suma abre mão da "felicidade" pela liberdade.
Há também quem sacrifica esta liberdade procurando e construindo as mais diversas pontes com as outras pessoas: Igreja, Rotary, linha branca de ubanda ou a instituição família servem muito bem para isto, um antídoto para quando a simples possibilidade da liberdade pode nos sufocar.

Samoça disse...

Oi Nat...

Tão relativo... Já reparou que quando nos sentimos livres, a vontade de permanecer assim gera o medo de perder.
Você abordou tão bem esse assunto.
Gostei.

Beijo!
:)

Rosângela Oliveira disse...

Se tem El torero

estou eu prova viva.

da profunda privação ...

Felipe disse...

Fala Nat, blz?

Bem, liberdade e disciplina... Difícil uma coisa acompanhar a outra, pra mim ao menos... :-)
A liberdade como eu imagino é utopia pura. Os conceitos que entranham e ficam sei lá porque atrapalham tudo. Mas como viver sem eles?
Usar o livre-arbítrio até o talo para fazer e se livrar das regrinhas que a gente faz o tempo todo pode ser um caminho a seguir para ser livre, ou sociopata. :-)

Beijos!

Felipe disse...

Muito boa a frase do Jim Morrison...