11.10.08

O Whisky

Quando você ainda não conhece alguém direito, é nas entrelinhas que você procura saber se a pessoa é ou não é interessante. Aconteceu comigo, há muito tempo atrás. Estava num bar, tomando um chopp com um homem que eu ainda não conhecia direito. De repente ele solta uma frase instigante, algo como ser seu lugar favorito um balcão de bar, enorme, preto, enfumaçado e com cheiro de sexo. Vindo de uma pessoa que não fumava, era no mínimo interessante a confissão. Eu entendi na hora o que ele queria dizer, também gostava de fumaça e cheiro de sexo. É uma condição sutil essa, poucos percebem quando há esse clima no ar. Tem que ter uma gostosa de vestido vermelho cantando ao lado do piano, segurando o microfone como se fosse um pau, acrescentei. Sim, e uma moça com cara de abandono no final do balcão, ele disse. É... A moça está sentada, pernas cruzadas, fumando... Então não é no Rio. O quê não é no Rio? O bar. No Rio não dá pra fumar no bar. Ok, é em algum lugar que dê pra fumar, no interior talvez. Você está viajando a trabalho e está hospedado em um hotel. Esse é o bar do hotel. Tá, vamos voltar à moça. Sim, ela está no balcão, sentada, de tailleur e meia de renda. Talvez ela me deixe ver um pedaço da cinta-liga. Isso, você está sentado no final do balcão. Consegue ver um pedaço da renda e uma leve insinuação dos seios por conta dos dois botões abertos da blusa e ah, a mala. Mala? Sim, ela está com uma mala preta, pequena, com aquela etiqueta laranja da Gol. Gol? Pensei que ela fosse uma pobre menina rica abandonada. Bem, não pode parecer que ela está viajando de primeira classe. Se ela for rica você não vai se interessar. Você precisa se sentir acima dela. Mas veja, ela viaja a trabalho, deve ser uma executiva que vive na ponte-aérea. Ok, e o que eu faço agora? Você ainda está olhando pra ela. Ela não percebeu que você está olhando. Toda essa sensualidade dela é casual. Ela está triste, pede um whisky duplo caubói. O garçon pergunta se é oito ou doze anos, se é single malte ou blended. Ela se irrita um pouco, manda ele servir qualquer merda e suspira dizendo que odeia whisky. É uma boa hora pra eu me aproximar, não é? Sim, é a hora perfeita. Você se levanta e vai arrastando seu copo pelo balcão de mármore preto. Arrastando não, deslizando, devagar... Ela olha pra você, você continua e senta um banco depois dela. Ela disfarça o interesse e volta a olhar pro copo, mexendo o gelo com os dedos. Mas não era caubói? Ok, era, mas o garçon nunca serve o que a gente pede, ele colocou gelo. Enfim, ela tá lá mexendo no gelo, o que eu digo? Algo meio banal sem ser canalha. É pra ela ter pena de você, achar você solitário também, enfim, uma boa companhia. Ok, eu vou perguntar porque ela não gosta de whisky, foi a única coisa que ela disse a noite toda, vai demonstrar que eu estava interessado por ela e ouvi a conversa. Tá bom, ela vai olhar para você com um olhar meio vago e dizer que é uma longa história e voltar os olhos para o copo. Eu vou comentar que é uma história triste. Ela vai desconversar, incomodada. Vai se virar de costas para o balcão, de lado para você e vai ficar olhando a mulher cantando, hipnotizada. Bem, eu vou me virar também, passar alguns minutos em silêncio e perguntar se ela gosta de jazz. Sim, ela vai responder que sim, que jazz é triste, é quente e é sexy. Vai te dar aquela olhada de lado e vai se virar novamente, te encarando. E o que eu vou fazer agora? Você vai calmamente colocar seu copo no balcão, olhando pra ela, e vai lhe dar um beijo. Uh, e vou levar um tapa. Não, não, tudo que ela quer é que você a agarre. Ela já te avaliou e te aprovou, silenciosamente. Nada melhor do que um sexo casual num hotel qualquer, numa cidade desconhecida. Ok, a gente começa a se agarrar, e aí? Você leva ela pro seu quarto e vocês transam enlouquecidamente a noite toda. Você dorme, ela se levanta e vai embora. E acabou? Sim, acabou, é a noite perfeita pra você. Sexo bom, fácil, grátis e acordar sem ela do lado. Mas eu fiquei interessado na história do whisky. Ok, ok, vocês transam enlouquecidamente, ela acende um cigarro. Você pergunta se agora você pode saber qual é a história triste que envolveu um whisky. Ela suspira, pensa um pouco, e responde que não é nada demais. Ela começa a contar que era muito jovem quando conheceu seu primeiro namorado, um cara mais experiente. Um dia ele a levou pra um bar mais refinado no centro da cidade. Ela pede um whisky, pra impressioná-lo. Ela nunca tinha tomado um whisky. Logo ficou bêbada e continuou a beber, beber e beber. No final da noite, trêbada, eles brigaram. Ela estava fora de si, começou a xingá-lo, chutá-lo e a bater nele com toda a força. Ele foi embora e largou ela lá. Depois ela não lembra de nada. Sabe que acordou às seis da manhã, o sol na cara, deitada na sarjeta de uma das ruas mais famosas do centro da cidade. As pessoas indo trabalhar e ela lá, no chão, louca, rejeitada, abandonada e humilhada. Mas o pior não tinha sido o que o cara fez com ela, mas sim o que ela fez com ela mesmo. Você sabe, a ressaca moral é a pior de todas. Enfim, ela vai te contar a história, você levanta pra tomar uma ducha e ela vai embora. Agora entendi porque ela me contou essa história só de manhã. Ela não é burra, sabia que se eu soubesse do que ela foi capaz de fazer antes, eu nem teria dormido com ela. Não, baby, ela só te contou essa história porque se você for esperto, saberá que alguém que dormiu na sarjeta e se levantou, tem muito mais a oferecer do que uma noite só.

5 comentários:

Dona M. disse...

Maravilhoso o final, Nat!

Sem palavras!

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Posso pegar emprestado?

Nat disse...

Claro Dona M. todo seu ;- )

Samoça disse...

Oi Nat,

O whisky costurou as duas histórias. Adoro cheiro de whisky e adorei a narrativa.

Beijos.
:)

Dona M. disse...

(^_^)

El Torero disse...

Muito bom. O ritmo do texto é ótimo.