28.11.08

Dia 4

Como eu te disse antes, não queria falar mais de morte, mas a morte faz parte da minha vida. Até mesmo metaforicamente. Não o culpo por sentir pena de mim, mas esse sentimento é a única coisa que não me permito ter de mim mesma. E é porque nunca tive vontade de tê-lo mesmo. Sempre achei que as coisas que me aconteceram me tornaram o que sou hoje. Não saberia dizer como eu seria se as coisas tivessem tido outro rumo. Não penso nisso.

A morte é um grande medo pra mim. Não consigo imaginar ter uma vida longa como muitas outras pessoas que conheço. Na minha família muitos morreram cedo. Meus poetas preferidos morreram cedo. Meus cantores também. Como dizem por aí: Os bons morrem antes. Por que eu escaparia dessa sina?

Há poucos anos atrás, no meu processo de luto pessoal, aconteceu uma coisa muito estranha. Eu olhava as pessoas na rua e via como elas iam morrer. Se eu via mesmo ou se era minha imaginação, eu não sei... Não sei se acredito em outras vidas e em canais abertos, mas o fato é que as cenas das pessoas morrendo eram bem reais. E de variadas maneiras... Saí desse processo ainda mais apaixonada pela vida. Não penso mais na morte não porque ela tenha menor peso pra mim, mas porque não deixo espaço para ela mais. Durmo hoje pensando no dia lindo que eu vou ter amanhã. E depois? Bem, depois é outro dia...

A gente sempre acha que não vai aguentar viver depois de ver os pais morrerem. Eu também achava, mas como já te disse uma vez, a gente nunca pode prever o que vai acontecer com sentimentos aparentemente imutáveis ao longo da vida. Quando as coisas aconteceram eu já não era mais a mesma... Sobre isso eu escrevi um outro dia, mando pra você agora, com votos de que passe a me entender um pouco mais no dia que eu não estiver mais aqui... Talvez mais até do que eu mesma...

"O telefone tocou antes das sete da manhã de uma segunda-feira. Uma manhã que seria como outra qualquer se não seguisse um final de semana de estranha apreensão. Desde que colocaram-lhe a sonda a mãe tinha dito "Chama minha filha que eu vou morrer". Só ficou sabendo disto depois. Não tinha ido porque a família acreditava que tinha que ser poupada da última visão. No fundo não tinha ido por um misto de raiva, vergonha, indiferença e medo de não ser reconhecida. Não queria correr o risco de ser chamada de Carolina, nome que ela repetia incessantemente a todos que via. Não sabia se conseguiria interpretar mais este papel na frente da mãe. Foram tantos, o que custava mais um? Carolina, quem seria? Hoje não importa mais.

"Ela apagou a luz", alguém declarou alguns dias antes. A mãe tinha lhe confessado que queria morrer numa cama, sendo cuidada por todos. A morte lhe supriria a carência, coisa que não conseguira em vida. Será que ela imaginava ver a filha aos seus pés? Dificilmente. Não foi fácil ouvir a verdade, mesmo tendo acompanhado o rápido processo de degradação da mãe depois que desistira de viver, mesmo depois de saber da pneumonia que lhe devastava os pulmões de 37 anos de cigarro e alguns muitos outros de ar irrespirável, mesmo sabendo que ela tinha escolhido a morte que lhe convinha, e que no final deve ter partido feliz.

Muitas vezes tinha desejado que a mãe morresse. Muitas vezes tinha imaginado alguém batendo à porta para dizer "Sua mãe morreu, você está livre agora", como se a ajuda pudesse vir dos céus, quase que divina. Mas depois de ter conseguido resolver seus problemas sozinha, e na hora que teve a certeza de que jamais sentiria raiva daquela mulher de novo (ou que jamais poderia culpá-la por suas próprias escolhas), sentiu-se presa a uma luta sem sentido e chorou como nunca tinha imaginado que choraria.

Depois que morrem, todas as pessoas viram boas. Não nos vale mais o esforço de ficar falando mal de alguém que já não está ali para sentir o peso da repreensão. No caminho longo até a cidade onde vivia a mãe, ela pôde repensar mentalmente todas as coisas horríveis que já tinha ouvido dela, e todas as coisas também horríveis que já tinha dito. Se lembrou da ausência constante, das brigas constantes, da vontade insuportável de não voltar nunca mais, da primeira vez em que não precisou voltar...

Do exato momento em que deixaram de ser felizes juntas, ela não se lembrava mais. O sofrimento que lhe fôra causado pela mãe depois de um tempo apagou todas as lembranças boas que tinha. A culpa, o remorso, ou a esperança de que tudo pudesse mudar, já não sabia mais, faziam-na sempre visitá-la, e invariavelmente era escorraçada de casa, que deveria ser a sua também. Na rodoviária, de madrugada, jurava que jamais voltaria. Mas sempre voltava.

O choro tinha cessado ao abraçar o irmão, talvez a única pessoa que tenha amado a mãe de verdade, e mesmo assim tinha tido coragem de pedir ajuda pra escapar daquele lugar. Do fundo das lembranças a serem esquecidas veio a voz da mãe lhe acusando de ter destruído sua vida quando a viu levar o irmão embora, poucos meses antes daquele dia.

O seu amor pela mãe era mais obrigação do que vontade, mais passado do que presente. Era o amor de quem tinha se visto privado dele, amor de quem tem uma capacidade de amar maior do que a requisitada. Amor que se viu esvaindo em cada abraço de pêsames, guardado calorosamente no colo dos que herdaram a carência, e não a dor. Quando viu o caixão já não tinha mais do que um vazio por dentro.

"Nem sei se ela preferia ser cremada" foi seu pensamento quando o ritual, que julgava desnecessário e enfadonho, começou. Na primeira pá de terra sentiu dor, na segunda sentiu pena, na terceira sentiu paz. Fechou os olhos e se despediu baixinho, num rosário compreensível só para si mesma. Ao perdoar a mãe naquela hora, recebeu dela pela segunda vez a sua vida."

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Contagem Regressiva
Dia 1
Dia 2
Dia 3

4 comentários:

Brancaleone disse...

Morre-se por se nasce.
Simples.
Na verdade nos achamos bons demais para morrer. Nossos egos querem continuar , assombrando os que tiverem mais sorte e continuarem vivos.
Nosso ego é tão grande que até um deus criamos. Nosso ego nos deu até uma alma (seja lá que diabo isso for), só para que tenhamos alguma coisa que não apodreça nem vire comida de vermes debaixo da terra...
Já perdi gente próxima. Eu mesmo fiquei uns 15 dias em UTI, pendurado na tomada ( a moto estava consertada 30 dias depois...).
Eu não morrerei. Meu filho e minhas duas filhas se encarregarão de passarem um pouquinho de mim para frente.
Esquece isso de morte.
Umas doses de uisque (jhonny Walker ou Jack Daniels) e uma(s) noite(s) de sexo bem feito e você verá que a vida é bem mais interessante se você não ficar pensando no fim dela.
Se não tiver uísque, qualquer cachaça serve. Já para o bom sexo não tem substituição.

Aliás, dizem que sexo é como jogo de truco: Ou você tem uma bom parceiro ou uma boa mão...

Minha única preocupação com a morte já não existe: Tenho um plano funerário razoável:
Caixão de R$ 500,00 (vai apodrecer como tudo mais mesmo, prá quê gastar né?) duas corôas.
A família tem um jazigo grande em Irati, de modo que é só o frete até lá...

Boa noite.

Dona M. disse...

Pela segunda vez eu venho aqui e leio esse post...

E quero comentar algo mas o assunto foi tão... tão 'incrivelmente' tratado por palavras que eu jamais saberia expressar, que eu não sei como comentar.

Ou talvez já tenha dito o que queria sem nem mesmo perceber.

Brancaleone disse...

Nat:
Qualé?
Tú tá usando tóchico? anda lendo Paulo Coelho?
Pára com esta tanatosofia menina!!!
Uma menina linda assim pensando na terra dos pés juntos?
Que desperdício!!!
Deixa a morte que se dane. Que te pegue à traição, inesperadamente.
Viva menina !!!( tenho 48 anos, posso te chamar de menina)
Viva e pronto. Um dia de cada vez. Não crie expectativas. Apenas viva.

Nat disse...

Porra, Branca, dá um desconto... Ficção, cara, ficção hehehehe ;- )