22.2.09

Pra nunca mais...

Quando éramos novos, ele me disse: _ Quero ser ator quando crescer! Eu olhei para aqueles olhos grande e pretos, quase encobertos pela franja do cabelo estilo cuia, decerto descendência de índios, e nada questionei... Ele podia ser o que quisesse, sendo meu amigo.
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Alguns anos depois, poucos anos, na verdade, já trabalhando numa grande indústria como operador de alguma máquina que desconheço o nome, eu perguntei a ele porque tinha desistido de ser ator. Os mesmos olhos pretos, mas não tão grandes, me olharam suspirando por toda uma vida de sonhos... _ Não desisti de ser ator. Na verdade é só o que eu faço. Represento papéis pros outros, minto sobre quase tudo para quase todo mundo, finjo sempre ser alguém que não sou, nunca fui e que pode ser que eu consiga ser um dia...

Todo mundo faz isso, querido amigo, retruquei. _ Mas não em tudo. Nem com você eu consigo ser eu, nem com minha avó, com meu namorado tampouco. Minto para que as pessoas não saibam que estou triste, que estou feliz, que estou com ciúmes, invento histórias mirabolantes, penso em todos os detalhes, conto para todo mundo, me meto em todas as confusões possíveis, mas nunca desminto algo... Ninguém nunca percebeu que eu minto assim dessa maneira, mas essa não é a questão. O problema é que eu não sei mais quando estou mentindo... Eu conto a história uma vez, duas, três, na décima vez eu já conto como se fosse uma verdade absoluta. Se fosse me dado um poder sobrenatural hoje, eu iria escolher poder transformar todas as minhas mentiras em coisas que realmente aconteceram, e aí, eu te juro, eu começava tudo de novo.

Nunca é tarde para se dar esse poder, meu amigo...
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"Passei quase dez anos sem te ver e esses mesmos quase dez anos pensando no que você me disse, sobre eu me dar o poder de começar de novo. Eu decidi que é possível e estou me mudando depois do carnaval. Que tal viajarmos juntos como fizemos quando você me disse aquelas sábias e inesquecíveis palavras? Espero ter coragem para contar verdades para quem sempre menti..."
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"Queridos, é com muita tristeza que lhes escrevo para informar a hora e o local do enterro do nosso querido amigo. Agradeço pela preocupação e o carinho de todos comigo, mas o trágico acidente foi antes dele vir me buscar. O que nos resta é o consolo de saber que sua morte serviu para trazer a vida para muitos que precisavam de um transplante. Até na hora de sua ida nosso amigo conseguiu ajudar quem mais precisava. Não era a viagem que ele, nem ninguém, esperava... Mas eu, sinceramente, só desejo que ela seja repleta de paz. Era isso que ele queria nesse carnaval: amizade, serenidade, calma e principalmente paz. Nós lhe daremos isso, porque ele merece... E sempre vai merecer..." 

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