29.11.09

Garota Propaganda

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26.11.09

Borrão

Ela me mostrava figuras abstratas que eu deveria concretizar em uma só palavra a fim de mostrar minha racionalidade e talvez até minha sanidade e coerência... Para mim era um monte de manchas sem sentido, mas eu deveria dar-lhes um significado qualquer, não um qualquer, um que fizesse sentido aos ouvidos dela... Para mim era um monte de manchas sem sentido. Até que ela mostrou dois borrões brancos, perfeitamente unidos por uma fenda, no meio de um outro borrão preto, que bem poderiam ser dois morros numa noite escura, mas para mim era uma bunda. Perfeita e redonda bunda. Tudo bem, redonda não, um pouco caída pela idade, talvez uma celulite aqui e acolá, mas era uma bunda perfeita, perfeitabunda. Ela tinha duas covinhas na exata junção da coxa e sorria um sorriso de Monalisa. Me apeguei àquela bunda, imaginei roçando-lhe através da saia de veludo preto, imaginei a brisa tocando de leve a sua circunferência, o primeiro tremular dos dedos tocando a sua pele macia e branca, branca como a neve que derrete ao sol... Imaginei o arrepio me percorrendo, me circulando, me transcendendo para correr em seus caminhos de perfeitabunda, com seus morrinhos de pelos se eriçando como gato assustado. Sim, a bunda tinha pelos, suaves, delicados e alvos pelos, assim como os morros têm a relva a pinicar os enamorados de pic-nic, só para lhes lembrar o lugar em que estão, o lugar a que pertencem naquele momento... Pequena relva trepadeira. Dorme, dorme, dormideira, pra acordar segunda-feira. Já era quarta e eu tive que dizer a ela que eram dois morros numa noite escura. Ela ficou satisfeita.

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24.11.09

Mon Drummond

Houve um dia, há muitos e muitos anos atrás, que um velhinho me disse: "Vai Nat, ser gauche na vida". Também me disse que eu não me chamasse Raimundo, o que, por sorte, obedeci, mas se Raimundo me chamasse, eu amaria a Maria... Morreria em um desastre, sem filhos porque é melhor não tê-los, mas como os saberei?

No meio do meu caminho tinham várias pedras e por causa delas perdi o bonde e a esperança. Eu sou uma desiludida... Os desiludidos continuam iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor... Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Meu coração não é maior do que o mundo. O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar, o mundo é apenas uma fotografia na parede, mas como dói!

Cantaremos o medo da morte e o de depois da morte e depois morreremos de medo, mas estamos num tempo onde não se diz mais Meu Deus, não se diz mais Meu Amor. O Amor resultou inútil e os olhos não choram. Não amei bastante sequer a mim mesmo, não amei ninguém mas não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas...

A bunda, que engraçada, está sempre rindo, não quero ser o último a comer-te. Pra que tantas pernas? Prefiro as coxas, ah, a castidade com que abria as coxas... Não quereis ser pornográficos? Ah coito, coito, morte de tão vida. E nem restava mais o mundo, à beira dessa moita orvalhada, nem destino.

E agora, José? Se você morresse... Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.

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Banguela de bengala

em cada boca uma
sentença e uma
cárie
vou botar a gengiva
no trombone
vai ser olho por olho
pivô por pivô
primavera em nossa terra
extração dos dentes.
por trás de cada
homem bem-sucedido
sucede um banguela de bengala.

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21.11.09

E por falar em The Last Waltz...

... e em baladas, vai aqui um grande sucesso do Delmore Brothers, executado brilhantemente pela The Band, mas que eu prefiro com BB King...



Blues stay away from me
blues fique longe de mim
Oh blues, why don't you let me be
Oh blues, porque você não me deixa em paz
Don't know why
eu não sei porque
You keep on haunting me
você fica me assombrando.

Love was never meant for me
Amor nunca foi pra mim
Oh true love was never meant for me
Amor verdadeiro nunca foi pra mim
Seem somehow
parece que de alguma forma
We never can agree
nós nunca concordamos.

Life is full of misery
A vida é cheia de misérias
Oh dreams are like memories
e sonhos são como memórias,
Bringing back
Trazendo de volta
The love that it used to be
o amor como era antes

Tears, so many I can't see
Lágrimas, tantas que nem posso vê-las
Oh yes, don't mean a thing to me
não significam nada pra mim
Oh, don't go by
Não vá embora*
Still I can be free
Eu ainda posso ser livre.

*(Na verdade, don't go by seria mais um "não passe por mim", "não me ultrapasse", "não siga em frente"... usei a expressão que achei que melhor se adequava à música)

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The Last Waltz


Não sei se é possível ver o estranhamento em meus olhos, mas creio que existe uma hora em que a mudança acontece. Em um ano você está de um jeito, no outro envelheceu dez anos... Como diz o X-Men 2, de tempos em tempos a evolução dá um salto. Acho que isso também acontece com as pessoas normais no curso de sua evolução pessoal.

Só sei que tive vontade de gritar "Sou do tempo onde se acendiam isqueiros em um show, não celulares...", Celulares que servem para fofocar por SMS com as amigas que estão a menos de um metro de distância fazendo concurso para ver quem fica com mais emos que a outra... Celulares que servem para tirar fotos pro Orkut... "Aproveita que ligaram os refletores, tira uma foto! Ei fica de costas pro palco, que é melhor! Miguxa, corre aqui, vou botar no Fotolog"...


Em pouco tempo ninguém saberá o que é um isqueiro e não por melhorias tecnológicas, mas sim por falta de uso mesmo. Ninguém saberá o que é estar na grama lamacenta de algum show de rock barulhento e na hora da melhor balada, no auge da emoção tomando conta, ver o palco apagando as luzes e as pessoas acendendo seus isqueiros, balançando as mãos, a chama fraquejando... Alguém vai comentar "É por isso que eu tenho um Zippo", outro vai dizer "Ai, queimei meu dedo"... Mas nada disso vai importar, porque todos vão estar ali hipnotizados por aquelas pequenas chamas amarelas, bailando no céu, refletindo estrelas em um universo de gente de todos os tipos... Os músicos irão desligar seus instrumentos, a bateria vai marcar o compasso e aquelas milhares de sombras de cabeças iluminadas pelas pequenas chamas amarelas irão entoar o refrão cheios de paixão e criarão um momento, um segundo de momento, único para todos...

Sou do tempo onde se acendiam isqueiros em um show, não celulares... Sou do tempo onde a expressão "sou do tempo" ainda não existia. Pelo menos para mim.

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19.11.09

Jubileu de Ouro póstumo

Anteontem fez cinquenta anos que morreu Villa-Lobos... Dentre os inúmeros programas e documentários que assisti relembrando a data, muitos contam que Villa-Lobos conquistou o mundo, mas poucos contam que essa conquista não foi tão fácil assim. Antes de definir sua identidade brasileira, Villa-Lobos foi rechaçado pelos eruditos franceses, que o consideravam mediano por não valorizar a música do seu país em suas composições... O que é inegável, contudo, é que Paris transformou Villa-Lobos e fez com que ele realmente conquistasse o mundo, como desejava.

Segue o post que eu escrevi há uns anos atrás...

"Villa-Lobos nasceu em 1887, prestes a ver o Rio de Janeiro mudar com a proclamação da República no Brasil.

As primeiras sinfonias de Villa-Lobos foram feitas de acordo com as regras postuladas por Vincent D’Indy, cuja estética era diretamente ligada à de Wagner, mas vários críticos diziam-no que só seria um compositor completo se tivesse uma ópera no repertório, o que fez em seguida, compondo Izaht. Villa-Lobos também não deixava de compor obras que utilizassem elementos da estética de Debussy, o que fazia dele um dos poucos compositores de sua época a ousarem compor uma música “moderna”como a de Debussy no Brasil.

Ao longo da déc. de 10, Villa-Lobos preocupou-se em se posicionar em relação aos músicos eruditos no Rio. A música erudita feita por ele não tinha nenhum elemento declarada ou intencionalmente nacional nesta época.

Villa-Lobos estava com problemas financeiros quando Laurinda Santos Lobo resolveu apoiar a realização de concertos das obras do compositor. Foi assim que, em 1921, se apresentou pela primeira vez com algumas peças de temática nacional.

Villa-Lobos visava o aproveitamento de suas obras nas festas do centenário da independência do Brasil. Um segundo concerto de Villa-Lobos para Laurinda chamou a atenção dos modernistas. A sua “modernidade” fez com que fosse o único compositor convidado a apresentar suas obras na Semana de Arte Moderna de São Paulo. Depois disto, amigos e admiradores de Villa-Lobos começaram a articular sua ida para Paris, completando inclusive o dinheiro necessário para tal.

Villa-Lobos chegou em Paris convicto de que faria sucesso por ser um compositor de vanguarda no cenário musical do Rio, até encontrar Jean Cocteau, integrante e principal representante da vanguarda francesa, que rechaçou sua obra. Nesta mesma época Milhaud, compositor francês, retornava do Brasil, reunindo e transcrevendo as composições brasileiras que ouvira sob uma roupagem erudita “moderna”. Milhaud afirmou que os músicos eruditos cariocas que conhecera não valorizavam a música popular do país.

A série de contatos e interações feitas por ele em Paris agiu no sentido de convencê-lo aos poucos da necessidade de sua conversão, de sua transformação em um compositor de músicas de caráter nacional. Villa-Lobos começou então a utilizar em suas composições os ritmos da música popular, com os quais já convivia, mas que não tinha incorporado em suas criações devido ao valor negativo atribuído à estética popular pelos músicos eruditos brasileiros, inclusive cantos indígenas. Assim, começou a retratar em suas composições toda uma série de representações a respeito de sua nação, desenvolvendo uma linguagem própria e inconfundível, sintetizando o panorama musical erudito europeu contemporâneo e as músicas folclóricas e populares brasileiras.

Para Villa-Lobos, o encontro com Cocteau pode ser tomado como momento exemplar do início de um processo de conversão que no final o tornaria um artista brasileiro, compondo apenas músicas de caráter nacional. O projeto de Villa-Lobos para fazer uma música “brasileira” de acordo com a concepção francesa de “Brasil” foi resultante de vários atores sociais como: as opiniões de brasileiros que viviam em Paris com ele;
os comentários da crítica; as reações dos artistas que o cercavam e o imaginário que lhe transmitiam a respeito do seu país. Villa-Lobos reconhecia e admirava a civilização francesa. Antes de tudo, ele reconhecia o julgamento dos parisienses como válido e legítimo".

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18.11.09

Férias

Rélous Pípous, estou entrando de férias, revivendo antigas viagens. Quando a gente não está num bom momento, acho que revisitar antigas e boas memórias podem dar uma levantada no astral.

Pretendo continuar atualizando o blog, afinal, internet 3G e notebook servem pra isso. Se eu não conseguir, nos vemos em alguns dias. Com sentimentos melhores para compartilhar, eu espero ;)

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Amor Automotivo



Capô de Fusca - Mr Catra

(uma pérola do cancioneiro popular brasileiro, editada em algumas partes por questões óbvias)

Amor auto motivo
Toda peça se encaixa
Mexo no capô da fusqueta
Enquanto você passa a marcha

Gatinha
Assim você me assusta (hahaha)
Com o seu capô de fusca

Gatinha
Assim você me assusta (hahaha)
Com o seu capô de fusca

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11.11.09

Sente

Eu disse a ele que não acredito em destino, mas ele ficou me olhando como se não acreditasse. Em mim, não em destino. Não posso negar que pensei em destino algumas vezes antes de encontrá-lo, mas não há destino algum em pensar, talvez até acreditar e não sentir. Sou uma dependente química, meu destino, se existe, é determinado pela minha compulsão, meu vício. É preciso viver, independente do que me aguarda ao virar a esquina, é preciso sentir o vento no rosto ao fazer a volta. A proibição aumenta e a impossibilidade alimenta o vício. Mas a imprevisibilidade e o desconhecimento me excitam de tal maneira que desligo meus pensamentos. Suspiro, fecho os olhos longamente, relembro cenas imaginadas. Repasso mentalmente o roteiro na esperança de visualizar as portas que poderão se abrir. Decido ali, em alguns segundos, se vou me atirar no desconhecido, espero um gesto que mostre se é sim ou não, mas ele continua me olhando nos olhos e me arrepio... Então acho que foi um sim. É preciso sentir pra decidir, não consigo pensar em nada. Pode ser ele o mensageiro do tal destino, do meu destino, mas quem decide isso sou eu. E se eu decidir que a mensagem enfim foi transmitida, se eu reconhecer um gesto, um arrepio, um frio na espinha ou um gozo como destino, serei eu mesma responsável pelo meu destino? Serei responsável pelo meu sentimento? Pelo que acontecer depois, sim, certamente sou responsável, mas tenho certeza que tudo se definiu ali, naquele arrepio... Meu corpo, meu tesão, coisas sobre as quais não tenho o menor controle, mas ainda assim sou responsável. Pela mensagem, aquela que desconheço, mas aceitei, mesmo sem saber, pelo simples fato de ter sentido. Não sentir de provocar, conhecer, experimentar e reproduzir a sensação. Mas sentimento que se configura no exato momento em que outra pessoa desperta o meu sentir. E no momento em que ele olhou pra mim, eu simplesmente me arrepiei. Será que sou responsável pelas minhas sensações?

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Ente

Ela me disse que não acredita em destino. Me disse assim na cara, com aqueles olhos grandes olhando bem direto nos meus. Mas não consigo acreditar que ela não tenha pensado em destino umas milhares de vezes antes de me encontrar. Porque ela é mulher que precisa da obrigação do destino, precisa que as coisas subitamente aconteçam na sua frente e lhe mostrem que aquele é o caminho certo ou o errado. Aqueles olhos grandes enxergam tudo, mas não fazem nada sem antes terem certeza do que querem. Ela piscou, um movimento super rápido, mas lento me pareceu. Uma eternidade. Ali fui analisado, visto e revisto. Ali ela tentou perceber um sinal, um aviso de que o destino existia e se existia, eu era a materialização desse destino. Terrível fardo para mim, ser portador de uma mensagem da qual o teor, desconheço. Tentei perceber naquele sutil movimento se era um sim ou um não. Mas ela continuou dizendo que não acredita em destino. Então acho que foi um sim. A piscada foi muito rápida, não me deixou perceber, nem sutilmente, a razão do seu acontecimento. Mas eu vi no piscar de olhos a minha parcela de culpa no destino. Destino dela, somente. Mas posso eu ser o mensageiro do destino dela sem que ela seja mensageira do meu destino? Posso eu me livrar da responsabilidade de somente existir? E existindo, posso eu me livrar da responsabilidade de estar ali assistindo aquele piscar de olhos tão significativo? Pelo que acontecer depois, sim, certamente sou responsável, mas tenho certeza que tudo se definiu ali, naquele piscar de olhos. Olhos dela. Piscada dela. Coisas sobre as quais não tenho menor controle, mas ainda assim sou responsável. Pela mensagem, aquela que desconheço, mas que transmiti, mesmo sem saber, pelo simples fato de existir. Não existência de ter sido gerado, ter nascido, crescido, estudado, absorvido, aprendido e me tornado o que sou hoje... Mas pela existência que se configura no momento em que outra pessoa descobre que eu existo, que sou o que sou. E no momento que ela percebeu o que eu era, eu simplesmente existi. Será que sou responsável pela minha existência?

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9.11.09

Patricia

Patricia apareceu

num fim de tarde
Me falou
Me bebeu
Me comeu
Me fumou
Me amou
E partiu
Patricia foi pra puta que pariu
E nunca mais telefonou

by Edu Pinheiro

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8.11.09

Previsível

O alarme vermelho começou a soar dentro de mim: há pouco tempo uma pessoa que mal me conhece conseguiu me definir em apenas uma frase. É um aviso poderoso...

Uma frase, não importa quantos períodos tenha, é apenas o breve espaço entre dois pontos finais.

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Raros e Loucos

Conheci o Lobo antes de conhecer a estepe... Estávamos espremidos em uma pequena janela, meio corpo pra fora, sorvendo com rapidez a fumaça do cigarro proibido naquele quarto de um hotel não-fumante. Tínhamos nos conhecido há menos de seis horas e estávamos desde então trancados naquelas paredes de um hotel barato em frente ao Terminal do Tietê. Não posso afirmar que foi a vez em que mais rapidamente fui pra cama com um homem, porque não sei exatamente quantos minutos levamos para percorrer os caminhos confusos que levam à saída da rodoviária de São Paulo. Só sei que foi pequeno o espaço de tempo entre a última mensagem, ainda no ônibus, que dizia "6 minutos para o impacto" e o impacto em si. Lembro que achei interessante a escolha da palavra, que pode significar, literalmente, "metido à força". Mas a força que me movia não era necessariamente contrária aos meus instintos, era mais um impulso, uma força centrípeta, que me levava para o centro, enquanto ele girava ao meu redor. E era ótima a sensação.


Olhando para o copo de plástico com dois dedos de água amarelada pelas guimbas de cigarro que iam se acumulando, pensei no roteiro deprimente que se desenhava ao meu redor. Um quarto tosco, um banheiro pequeno, uma cama no centro, uma mesa na parede e uma tv desnecessária compunham o cenário do meu romance noir travestido de um tragicômico romance barato que se compra em bancas de jornal. Meu enigmático parceiro trazia no braço um aparelho de medir pressão daqueles que se carrega por 24 horas e que a cada 20 minutos o fazia parar tudo até que o braço estivesse novamente liberado. Com o passar das horas acabamos nos tornando especialistas em controlar o tempo na medida exata do aparelho. No final da noite a conta estava empatada entre o número de medições e o de gozos, sendo que os últimos certamente atrapalharam a fidedignidade do resultado das primeiras.

E de 20 em 20 minutos, o tempo, aquele que determina a sutil diferença entre sonho e realidade, avançou os ponteiros até o ângulo obtuso do constrangimento. Assim como tinha me deixado carregar para o centro, lentamente flutuei de volta para a margem... "Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro, o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada, para chegar talvez algum dia ao fim, ao descanso." Não posso afirmar que foi a vez em que mais rapidamente me apaixonei por um homem, porque não sei exatamente quantos minutos levei para percorrer os caminhos confusos que me levaram à entrada da rodoviária de São Paulo. Só sei que foi pequeno o espaço entre a frase ouvida no quarto e a descoberta do livro. A dedicatória dizia "Para a minha querida ... que de todas as impossibilidades da minha vida é a maior possibilidade de ser a minha vida".

"Que dizia o letreiro? 'Entrada só para os raros' e 'Só para loucos'. Ali, provavelmente, estaria o que eu desejava, ali, talvez, interpretassem a minha música."

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7.11.09

A primeira vez...

... a gente nunca esquece ;)


(a primeira de verdade não foi esta, mas eu tinha três anos e a única recordação que tenho é a de ter tomado sorvete o dia inteiro)

Tem uma parte ali que nem eu entendo o que eu falo, é algo sobre não sentir as pernas, mas dito num português bem embolado de quem acabou de tomar anestesia...


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5.11.09

Exigências

Moreno, alto, bonito e sensual, talvez seja a solução dos meus problemas.


_ Sabe entender as entrelinhas?
_ O quê?
_ Tem que saber entender as entrelinhas. É porque eu falo somente o suficiente para afastar a pessoa. Quando pareço estar falando sério, estou na verdade querendo te afastar. Já quando brinco, no papo solto, eu falo o mais profundo do meu eu, assim entrecortado, fragmentado, como um quebra-cabeças.
_ Confuso, não?
_ Não, é que você me parece perfeito demais, então o quero longe, bem longe.
_ Mas por que o sexo?
_ É porque tinha que ser ruim.
_ E por que tanto medo?
_ Não sei, mas tenho. Quanto mais perfeito, mais medo. Quanto mais medo, mais vontade. Quanto mais vontade, mais insegurança. Quanto mais insegurança, mais afastamento desejo. É assim a vida pra mim, um círculo vicioso.
_ E precisa ser assim?
_ Não, mas ando esperando alguém que, milagrosamente, goste de desvendar quebra-cabeças e queira montar o meu, peça por peça, conversa por conversa, assim devagar, como quem não quer nada. E no final, pronto, surgiu eu, e apaixonamo-nos.
_ Não é querer demais?
_ Ainda não estou preparada para querer menos do que isso...

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4.11.09

Preciso

Queria poder te escrever

algo nunca antes dito
por qualquer poeta.
Mas preciso, antes disso,
ser poeta.
Preciso contar as estrelas,
admirar a lua,
sentir a brisa pequena
se transformar em vento.
Preciso soltar os cabelos
e as cordas que me prendem,
preciso me libertar.
Preciso aquecer o sol,
e esfriar a noite.
Preciso adormecer seu corpo
e acordar o meu.
Preciso amar homens
e mulheres,
meninos e meninas.
Preciso viver o dia
e morrer amanhã.
Preciso provar que gosto
de coisas de verdade.
Preciso arrumar essa sopa
de letrinhas
em prosa, verso e rima.
Preciso ser bailarina
e dançar nas nuvens,
preciso comer algodão-doce.
Preciso te escrever,
te dizer,
te sentir.
Preciso ser alguém
melhor do que você.

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3.11.09

Tecnoromance

Naquele momento, não teve dúvidas: Ela era a mulher da sua vida. De filmadora em punho, pensou "Preciso registrar esse momento para que meus filhos e netos saibam a hora exata em que nós nos apaixonamos". Já tinha até o mash-up na cabeça com Você é Linda, do Caetano e Eu sei que vou te amar, do Vinicius. O MixPlay que tinha baixado na semana passada ia ser o programa perfeito pra isso.


Ela então sorriu e as covinhas se tornaram duas pérolas naquele rosto perfeito. Ele decidiu começar o vídeo com essa imagem, depois é claro, de um Fade In com fundo branco, pra não ficar pesado. Diminuiu o zoom, fez um giro, mostrou o cenário e voltou a câmera para ela. Tão linda! As mãos tão esguias, o rosto sereno, uma calma no olhar. Ela mexeu nos cabelos, começou a cantarolar uma música qualquer e a dançar no ar, sozinha... Ele pensando "Não se mexe tanto, vai ficar tremido..." Ela fez um gesto chamando-o para dançarem juntos, mas ele disse: _Não, baby, estou gravando, não está vendo?

Ela então veio dançando na sua direção. Ele pensou "Porra, estragou meu enquadramento, vou ter que reajustar o foco". Ela continuou andando em direção a ele e murmurou alguma coisa no seu ouvido. Aí ele explodiu: _ Merda, agora vou ter que legendar.

E foi embora... Pra sempre.

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2.11.09

Casos e acasos

Estou rodeada de pessoas que não acreditam no acaso, somente em destino. Não acreditam que as sucessões de eventos, por vezes inacreditáveis, aconteçam por mera casualidade. É tudo fruto de uma coisa maior e por muitas vezes, mais sádica também... Esse destino, se existe, tem um quê de ironia relativamente grande.


Mas o destino pode ser também uma grande desculpa para aceitar as coisas que nos acontecem sem parar para refletir sobre elas, ou analisá-las de uma maneira racional, superando ou absorvendo os eventos que por vezes nos perturbam. É como um espírita que deixa de resolver seus problemas nesta vida porque ainda terá outras tantas para viver...

Acreditar em destino é como ter fé em qualquer outra coisa. As coisas se ajeitarão, porque de uma maneira ou de outra, elas estavam previstas para acontecerem, e, de uma maneira ou de outra, tudo vai se resolver da melhor forma possível, porque pode não ser a melhor, mas era a prevista para mim, então vou aceitá-la e ter fé que, um dia, tudo pode mudar.

O destino é aquele que pode fazer, em um único dia, toda sua vida mudar. Eu passei dez anos pensando em algo que, em um único encontro totalmente casual em um ônibus, se tornou uma verdadeira idiotice. Mais fácil acreditar que aquele encontro e aquela informação descoberta ali foram obras do destino. Cruel, impiedoso e inevitável destino; mas se eu quisesse mesmo descobrir antes o que descobri agora, eu poderia tê-lo feito. E talvez tivesse me poupado 5, 6 ou até 9 anos de pensamentos inúteis.

Quantas coisas eu poderia ter me poupado, se eu quisesse ter me poupado, ou se quisesse apenas ter me dado um trabalho maior do que me dei, tentando resolver o assunto? Não sei a resposta para isso. Talvez o destino me diga um dia, se eu continuar ignorando que acasos existem sim, e entender que a vida, apesar de ser mais do que uma mera combinação de coincidências, também tem espaço para coisas inusitadas, inesperadas e por isso mesmo, muito interessantes...

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