26.11.09

Borrão

Ela me mostrava figuras abstratas que eu deveria concretizar em uma só palavra a fim de mostrar minha racionalidade e talvez até minha sanidade e coerência... Para mim era um monte de manchas sem sentido, mas eu deveria dar-lhes um significado qualquer, não um qualquer, um que fizesse sentido aos ouvidos dela... Para mim era um monte de manchas sem sentido. Até que ela mostrou dois borrões brancos, perfeitamente unidos por uma fenda, no meio de um outro borrão preto, que bem poderiam ser dois morros numa noite escura, mas para mim era uma bunda. Perfeita e redonda bunda. Tudo bem, redonda não, um pouco caída pela idade, talvez uma celulite aqui e acolá, mas era uma bunda perfeita, perfeitabunda. Ela tinha duas covinhas na exata junção da coxa e sorria um sorriso de Monalisa. Me apeguei àquela bunda, imaginei roçando-lhe através da saia de veludo preto, imaginei a brisa tocando de leve a sua circunferência, o primeiro tremular dos dedos tocando a sua pele macia e branca, branca como a neve que derrete ao sol... Imaginei o arrepio me percorrendo, me circulando, me transcendendo para correr em seus caminhos de perfeitabunda, com seus morrinhos de pelos se eriçando como gato assustado. Sim, a bunda tinha pelos, suaves, delicados e alvos pelos, assim como os morros têm a relva a pinicar os enamorados de pic-nic, só para lhes lembrar o lugar em que estão, o lugar a que pertencem naquele momento... Pequena relva trepadeira. Dorme, dorme, dormideira, pra acordar segunda-feira. Já era quarta e eu tive que dizer a ela que eram dois morros numa noite escura. Ela ficou satisfeita.

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