19.11.09

Jubileu de Ouro póstumo

Anteontem fez cinquenta anos que morreu Villa-Lobos... Dentre os inúmeros programas e documentários que assisti relembrando a data, muitos contam que Villa-Lobos conquistou o mundo, mas poucos contam que essa conquista não foi tão fácil assim. Antes de definir sua identidade brasileira, Villa-Lobos foi rechaçado pelos eruditos franceses, que o consideravam mediano por não valorizar a música do seu país em suas composições... O que é inegável, contudo, é que Paris transformou Villa-Lobos e fez com que ele realmente conquistasse o mundo, como desejava.

Segue o post que eu escrevi há uns anos atrás...

"Villa-Lobos nasceu em 1887, prestes a ver o Rio de Janeiro mudar com a proclamação da República no Brasil.

As primeiras sinfonias de Villa-Lobos foram feitas de acordo com as regras postuladas por Vincent D’Indy, cuja estética era diretamente ligada à de Wagner, mas vários críticos diziam-no que só seria um compositor completo se tivesse uma ópera no repertório, o que fez em seguida, compondo Izaht. Villa-Lobos também não deixava de compor obras que utilizassem elementos da estética de Debussy, o que fazia dele um dos poucos compositores de sua época a ousarem compor uma música “moderna”como a de Debussy no Brasil.

Ao longo da déc. de 10, Villa-Lobos preocupou-se em se posicionar em relação aos músicos eruditos no Rio. A música erudita feita por ele não tinha nenhum elemento declarada ou intencionalmente nacional nesta época.

Villa-Lobos estava com problemas financeiros quando Laurinda Santos Lobo resolveu apoiar a realização de concertos das obras do compositor. Foi assim que, em 1921, se apresentou pela primeira vez com algumas peças de temática nacional.

Villa-Lobos visava o aproveitamento de suas obras nas festas do centenário da independência do Brasil. Um segundo concerto de Villa-Lobos para Laurinda chamou a atenção dos modernistas. A sua “modernidade” fez com que fosse o único compositor convidado a apresentar suas obras na Semana de Arte Moderna de São Paulo. Depois disto, amigos e admiradores de Villa-Lobos começaram a articular sua ida para Paris, completando inclusive o dinheiro necessário para tal.

Villa-Lobos chegou em Paris convicto de que faria sucesso por ser um compositor de vanguarda no cenário musical do Rio, até encontrar Jean Cocteau, integrante e principal representante da vanguarda francesa, que rechaçou sua obra. Nesta mesma época Milhaud, compositor francês, retornava do Brasil, reunindo e transcrevendo as composições brasileiras que ouvira sob uma roupagem erudita “moderna”. Milhaud afirmou que os músicos eruditos cariocas que conhecera não valorizavam a música popular do país.

A série de contatos e interações feitas por ele em Paris agiu no sentido de convencê-lo aos poucos da necessidade de sua conversão, de sua transformação em um compositor de músicas de caráter nacional. Villa-Lobos começou então a utilizar em suas composições os ritmos da música popular, com os quais já convivia, mas que não tinha incorporado em suas criações devido ao valor negativo atribuído à estética popular pelos músicos eruditos brasileiros, inclusive cantos indígenas. Assim, começou a retratar em suas composições toda uma série de representações a respeito de sua nação, desenvolvendo uma linguagem própria e inconfundível, sintetizando o panorama musical erudito europeu contemporâneo e as músicas folclóricas e populares brasileiras.

Para Villa-Lobos, o encontro com Cocteau pode ser tomado como momento exemplar do início de um processo de conversão que no final o tornaria um artista brasileiro, compondo apenas músicas de caráter nacional. O projeto de Villa-Lobos para fazer uma música “brasileira” de acordo com a concepção francesa de “Brasil” foi resultante de vários atores sociais como: as opiniões de brasileiros que viviam em Paris com ele;
os comentários da crítica; as reações dos artistas que o cercavam e o imaginário que lhe transmitiam a respeito do seu país. Villa-Lobos reconhecia e admirava a civilização francesa. Antes de tudo, ele reconhecia o julgamento dos parisienses como válido e legítimo".

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