8.11.09

Raros e Loucos

Conheci o Lobo antes de conhecer a estepe... Estávamos espremidos em uma pequena janela, meio corpo pra fora, sorvendo com rapidez a fumaça do cigarro proibido naquele quarto de um hotel não-fumante. Tínhamos nos conhecido há menos de seis horas e estávamos desde então trancados naquelas paredes de um hotel barato em frente ao Terminal do Tietê. Não posso afirmar que foi a vez em que mais rapidamente fui pra cama com um homem, porque não sei exatamente quantos minutos levamos para percorrer os caminhos confusos que levam à saída da rodoviária de São Paulo. Só sei que foi pequeno o espaço de tempo entre a última mensagem, ainda no ônibus, que dizia "6 minutos para o impacto" e o impacto em si. Lembro que achei interessante a escolha da palavra, que pode significar, literalmente, "metido à força". Mas a força que me movia não era necessariamente contrária aos meus instintos, era mais um impulso, uma força centrípeta, que me levava para o centro, enquanto ele girava ao meu redor. E era ótima a sensação.


Olhando para o copo de plástico com dois dedos de água amarelada pelas guimbas de cigarro que iam se acumulando, pensei no roteiro deprimente que se desenhava ao meu redor. Um quarto tosco, um banheiro pequeno, uma cama no centro, uma mesa na parede e uma tv desnecessária compunham o cenário do meu romance noir travestido de um tragicômico romance barato que se compra em bancas de jornal. Meu enigmático parceiro trazia no braço um aparelho de medir pressão daqueles que se carrega por 24 horas e que a cada 20 minutos o fazia parar tudo até que o braço estivesse novamente liberado. Com o passar das horas acabamos nos tornando especialistas em controlar o tempo na medida exata do aparelho. No final da noite a conta estava empatada entre o número de medições e o de gozos, sendo que os últimos certamente atrapalharam a fidedignidade do resultado das primeiras.

E de 20 em 20 minutos, o tempo, aquele que determina a sutil diferença entre sonho e realidade, avançou os ponteiros até o ângulo obtuso do constrangimento. Assim como tinha me deixado carregar para o centro, lentamente flutuei de volta para a margem... "Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro, o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada, para chegar talvez algum dia ao fim, ao descanso." Não posso afirmar que foi a vez em que mais rapidamente me apaixonei por um homem, porque não sei exatamente quantos minutos levei para percorrer os caminhos confusos que me levaram à entrada da rodoviária de São Paulo. Só sei que foi pequeno o espaço entre a frase ouvida no quarto e a descoberta do livro. A dedicatória dizia "Para a minha querida ... que de todas as impossibilidades da minha vida é a maior possibilidade de ser a minha vida".

"Que dizia o letreiro? 'Entrada só para os raros' e 'Só para loucos'. Ali, provavelmente, estaria o que eu desejava, ali, talvez, interpretassem a minha música."

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